007 Contra Spectre – Vintage Bond

Há pouco a ser dito sobre o tamanho do fracasso que foi 007 Contra Spectre (Spectre, ING, 2015) exceto que, pelo menos, ele não é tão ruim quando Quantum of Solace, o segundo filme do espião estrelado por Daniel Craig, apesar  de que o filmeco lançado em 2008 tem a distinção de ser consideravelmente mais curto do que o quarto volume da franquia (ou seria o 24º?).

Quando Daniel Craig estreou no papel do agente secreto menos secreto da história do cinema, com Casino Royale em 2006, muitos dos fãs mais fervorosos do personagem criado por Ian Fleming criticaram a nova abordagem, afirmando que este James Bond não era “James Bond” o suficiente. Mas essa era uma coisa boa: os tempos haviam mudado e o personagem havia mudado com ele, abordando problemas contemporâneos com uma estética e ação contemporâneas.

Apesar de manter alguns dos mesmos clichês da história da franquia, o neozelandês Martin Campbell que já havia dirigido outro filme de James Bond (Golden Eye, em 1995) merecia receber os créditos por ter transformado Bond em um personagem problemático, sombrio e vulnerável. Eis que dois anos depois veio Quantum, que quis copiar os elementos de uma outra franquia de um espião sombrio, problemático e vulnerável: Jason Bourne. O resultado foi uma catástrofe.

Então os produtores decidiram que era hora de virar tudo de ponta cabeça de novo. Se livraram de alguns roteiristas e contrataram o diretor Sam Mendes que, por sua vez, chamou uma equipe de peso que contou com Roger Deakins na fotografia e Thomas Newman como compositor. Ele também contratou um elenco de peso para os papéis coadjuvantes, incluindo um fabuloso Javier Bardem como vilão. O resultado foi um espetáculo chamado Skyfall cuja resenha você confere aqui. 

Esperar o mesmo sucesso de Skyfall em Spectre era ser excessivamente otimista. Skyfall foi uma exceção na franquia, até por que não seguia as convenções mais clichê que permearam a história do personagem nas telonas. Mas eu confesso não estar preparado para tamanho desapontamento com este novo filme.

Em Spectre, uma mensagem criptografada do passado de Bond (Daniel Craig) o leva a desmascarar uma organização secreta responsável por atentados ao redor do mundo, enquanto ‘M’ (Ralph Fiennes) batalha forças políticas internas para manter o programa de espionagem ’00’ vivo. Ao retornar à luta de Bond contra organizações secretas, Spectre cometeu seu primeiro erro e não apenas não se recuperou dele, como foi empilhando outros erros e cima.

É mais fácil dizer o que funciona no filme do que o que não funciona, pois os momentos são raros e não duram muito. Duas das coisas que funcionam são as ‘Bond Girls’. Não que elas sejam menos “descartáveis” que as demais, mas elas são claramente mais interessantes. A primeira é a hipnotizante italiana Monica Bellucci que, aos 50 anos de idade, se tornou a mais velha ‘Bond Girl’ da história e também a primeira que tem a idade de James Bond. Pena que ela aparece por pouco tempo e ajuda pouco na trama, mas isso é sistemático dentro da franquia.

A segunda é a francesa belíssima e cheia de personalidade Léa Seydoux, que se tornou mais conhecida por ter estrelado Azul é a Cor mais Quente, em 2013. Ela é uma garota mais interessante, inteligente e auto-suficiente do que todas as outras Bond Girls da fase Daniel Craig juntas, mas isso não a impede de precisar ser resgatada pelo herói no final. É uma pena também que a química e o relacionamento amoroso entre os dois seja tão mal construído, em uma tentativa fracassada de repetir o processo entre Bond e Vesper em Casino Royale. 

O próprio Bond é menos desenvolvido do que em Skyfall, o filme que mais explorou sua vulnerabilidade, embora Spectre seja o que mais se aventure em seu passado. O vilão, aqui interpretado por Christoph Waltz é um clássico vilão da franquia Bond, o que significa que ele é desprovido de profundidade, nuance e propósito, o que é um tremendo desperdício, ainda mais com um ator como Waltz em mãos.

Ralph Fiennes como ‘M’, Naomi Harris como ‘Moneypenny’ e Ben Wishaw como ‘Q’ ganham mais destaque e todos os atores fazem um bom trabalho (principalmente Fiennes), mas eles tem pouco a desenvolver em seus personagens, principalmente com uma trama tão mal construída e cheia de buracos como é o caso.

As cenas de ação são ‘ok’. Alguns críticos afirmaram que elas estão entre as melhores da história da franquia, mas não é o caso. A cena inicial é um plano-sequência muito bem construído e uma luta dentro de um trem entre Daniel Cragi e Dave Bautista (que fez Guardiões da Galáxia) se destacam, mas é só. A cena da casa e a luta na Coréia do Sul em Skyfall ainda são muito mais interessantes.

No geral, Spectre é uma decepção seguida de outra, com uma trama sem pé nem cabeça repleta de clichês que se acumulam conforme a narrativa se aproxima no final. Com um orçamento inflacionado de 350 milhões de dólares e um período de gravação exaustivo de 228 dias, Spectre parece feito às pressas e sem cuidado. E fez Daniel Craig dar uma polêmica entrevista dizendo que ele está de saco cheio do personagem, apesar de ter mais um filme em seu contrato.

O problema aqui se chama retrocesso. Casino Royale Skyfall se destacavam por não parecerem tanto com os filmes clássicos de James Bond, por serem mais modernos, mais bem filmados, mais inteligentes e por que eles foram ousados. Já Spectre é Vintage Bond. Esse é o problema.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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