A Bela Catástrofe de Shyamalan

Espiritualismo e paternidade não salvam Depois da Terra (After Earth, EUA, 2013), mas ajudam a nova empreitada de M. Night Shyamalan a não ser um completo fracasso. É fato, no entanto, que existiu outrora uma época longínqua, distante a maravilhosa, em que atores pais milionários davam uma namorada bonita ou um carro esportivo para seus filhos. Não um filme de 140 milhões de dólares, criado para catapultar a carreira do jovem Jaden Smith, filho de Will Smith.

Com um argumento de Smith pai e o roteiro de Shyamalan e Gary Whitta (de O Livro de Eli), essa história sobre pai e filho presos em um planeta desconhecido não podia ter saído pela culatra mais espetacularmente. Três semanas em cartaz e ele só rendeu 46 milhões de dólares, foi massacrado pela crítica e público e provavelmente privou Jaden Smith de futuros trabalhos de destaque.

Já são sete anos desde que M. Night Shyamalan dirigiu seu último bom filme (A Dama na Água, em 2006). O que era um promissor cineasta vindo da Índia, aclamado como o próximo Alfred Hitchcock ou Steven Spielberg, se tornou um cineasta subestimado e, consequentemente, um cineasta medíocre. Seus últimos dois filmes, Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar não são particularmente ruins (embora essa seja uma afirmação muito discutível), nem este filme, mas estão a anos luz de distância da qualidade dos primeiros trabalhos do diretor, como O Sexto SentidoCorpo Fechado e A Vila.

Então o que houve? Difícil de explicar. Em Depois da Terra, no entanto, a resposta é bem óbvia. Um elenco errado, um roteiro fraco e um diretor  não muito inspirado são os ingredientes para um filme de ficção científica decepcionante. Não é tão ruim assim. Mas também não é grande maravilha.

Vamos ao cenário, então. Mil anos no futuro. A humanidade esgotou seus recursos no Planeta Terra e, depois de eventos cataclísmicos, viu sua saída do planeta forçada. Uma colônia chamada Nova Prime foi criada, mas ao custo de uma guerra com uma raça alienígena e suas ‘Ursas’. As ‘Ursas’ são criaturas grandes, feias e bravas, cegas, mas capazes de farejar ferormônios liberados por um ser humano quando eles estão com medo. Em essência, elas farejam medo.

Cypher Raige (Will Smith) é o mais destemido dos guerreiros humanos. Ele não sente medo (claro). Essa característica o torna invisível para os alienígenas, e é conhecida como “Fantasma”. Ele retorna para casa e para sua família, antes de partir novamente, desta vez com seu filho Kitai (Jaden Smith) para um programa de treinamento. Kitai é jovem, imprudente e orgulhoso. Quer impressionar o pai, o que faz com ele falhe em passar nos testes para se tornar um dos destemidos guerreiros que sempre quis ser.

Isso muda drasticamente quando a nave dos dois é severamente avariada durante uma chuva de meteoros (clichê 1). Só os dois sobrevivem à queda num planeta desconhecido (clichê 2). Cypher tem as duas pernas severamente fraturadas e não pode se mover (clichê 3). O transmissor de socorro é danificado no acidente (clichê 4) e o reserva está a 100 km de distância na cauda da aeronave que se desprendeu na queda (clichê 5). Sozinho (clichê 6), Kitai deverá partir em sua jornada num planeta hostil e desconhecido para recuperar o transmissor e salvar a vida de seu pai. Esse planeta é a Terra (clichê 7).

Esgotados todos os clichês, Kitai navegará por uma série de perigos, que incluem onças/hienas/something dark side, babuínos ferozes, uma águia gigante e, obviamente, uma Ursa (clichê 8, eu menti) que estava sendo transportada no interior da nave e que escapou.

O filme sente falta de ritmo e imaginação. Will e Jaden ocupam as telas pela maior parte do tempo e a dinâmica entre os dois – mesmo sendo pai e filho na vida real – é fraca. Aos 15 anos, Jaden parece estar regredindo como ator e tem uma perpétua expressão de prisão de ventre que pode ou não ser confundida com uma tentativa de demonstrar emoção (ainda é melhor do que Kristen Stewart).

Depois da Terra se sustenta sobre uma premissa fraca e nunca vai além dela. Por que não há um transmissor automático na nave, que é acionado quando ela cai? Isso faz sentido hoje em dia e privaria Kitai da necessidade de se deslocar até a sessão traseira do veículo, a muitos quilômetros de distância. Por que alguém transportaria um alienígena extremamente perigoso numa nave cuja integridade estrutural é duvidosa? Por que ninguém rastreou o pedido de SOS? Por que a medicina do filme não é mais bem desenvolvida? Enfim. Fato é que a tecnologia é mal explorada, o que é fatal para uma história que se passa mil anos no futuro. São nesses detalhes que ela perde sua frágil verossimilhança.

Mas nem tudo é uma catástrofe no filme de Shyamalan. As cenas são relativamente bem construídas e ele permanece um diretor elegante. Smith pai, ao contrário das expectativas, apresenta uma performance minimalista e profunda. O filme tem bons momentos de engajamento, especialmente quando aperta suas teclas de “ah” e “uh”, construindo a tensão de dentro dos personagens, quando estes se encontram em situação de perigo.

Sim, Depois da Terra procura calçar sapatos grandes demais para ele, mas suas imagens são fortes e evocativas e seus sentimentos são reais e suas intensões, sinceras. M. Night Shyamalan, ao contrário da maioria dos cineastas contemporâneos, continua um diretor do cinema contemplativo e com um espiritualismo singular. Ele também é um dos poucos que conseguem se comunicar com o público jovem sem cair na vulgaridade. Daí um filme invulgar.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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