A Chegada – Círculo Fechado

São poucos os filmes de primeiro contato tão inteligentes e bem feitos quanto A Chegada (Arrival, EUA/CAN, 2016) do diretor Denis Villeneuve. Bons filmes de ficção científica tem aflorado nos últimos anos, mas com preocupações distintas: astronautas se encontram sozinhos em situações de extremo perigo no espaço (Perdido em Marte2015; Gravidade, 2013); a humanidade precisa encontrar, por meio de recursos científicos, um caminho para se salvar da destruição (Interestelar, 2014); futuros pós-apocalípticos fazem a humanidade regredir às suas estruturas tribais (Mad Max, 2015; Saga Jogos Vorazes2012-2015). Histórias de primeiro contato pareceram ser meio esquecidas nos últimos anos pela indústria do cinema. Até agora.

A Chegada é baseado em uma novela do escritor Ted Chiang (Story of Your Life – cuja resenha você confere aqui), vencedora do prêmio Nebula em 1999, e a incursão do cineasta franco-canadense Denis Villeneuve ao cinema de ficção científica. O longa-metragem imagina como seria o primeiro contato com uma raça alienígena nos dias de hoje: doze naves parecidas com sementes gigantescas sobrevoam localizações aparentemente aleatórias por todo o globo. Nós acompanhamos a que se estabeleceu em Montana, nos Estados Unidos.

Os alienígenas são não-antropomórficos, ou seja, não tem qualquer semelhança com seres humanos. Possuem, no entanto, sete membros (portanto são chamados de heptapodes) e suas constituições físicas se assemelham mais com a de polvos enormes. Seu sistema de linguagem é tão complexo que os militares americanos estão ficando loucos: quem são eles? De onde vieram? Por que estão aqui?

Para resolver essas questões, os militares recorrem a uma renomada linguista chamada Louise Banks, interpretada por Amy Adams. Conforme ela entra em contato com os alienígenas, auxiliada pelo físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), Louise percebe paulatinamente que ela tem em mãos o destino da humanidade, pois outros países como a China, Rússia e o Sudão se preparam para entrar em guerra contra os alienígenas.

O filme é narrado por Louise em primeira pessoa, intercalando cenas de sua pesquisa com os alienígenas e de seu relacionamento com Hannah, sua filha. Aparentemente, algo aconteceu com a criança e com o casamento de Louise, que agora se encontra sozinha. À princípio, essas cenas parecem servir apenas para dar uma maior carga emocional para a protagonista, mas Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer reservam surpresas estonteantes no terço final do longa.

Heisserer, por sua vez, roteirista de terror já estabelecido, passou anos construindo uma linguagem extremamente elaborada e complexa para os alienígenas, e que faz sentido. Ele e Villeneuve também consultaram especialistas em linguística e tecnologia para garantir que os conceitos apresentados no filme fossem fidedignos. O resultado é algo genuinamente novo e diferente.

Com um orçamento apertado de 47 milhões de dólares (o que é pouco para um filme desta escala), Villeneuve concentrou toda a ação em três cenários diferentes: a casa de Louise, onde a história começa, o acampamento formado pelos militares e o interior da espaçonave alienígena, onde os protagonistas interagem com os estranhos seres de outro mundo por meio de uma parede de vidro. O resultado é um filme que prioriza a tensão e o suspense acima da ação e pirotecnia e da inteligência acima do ímpeto desenfreado que a maioria dos filmes de invasão alienígena emprega.

A trilha sonora minimalista de Jóhann Jóhannsson serve para acentuar a tensão e a atuação dos atores principais, Amy Adams e Jeremy Renner é econômica e no tom certo. A personagem de Adams, aliás, poderá muito bem ser lembrada como uma das melhores personagens femininas de ficção científica dos últimos tempos: para começar porque ela é uma cientista e não um soldado. Ela é calma, inteligente e compenetrada; parece sempre no controle mesmo quando a situação parece estar desbarrancando. O filme é inteiro centrado nela, e Amy Adams dá conta do papel sem esforço, assim como Denis Villeneuve demonstra controle absoluto de seu filme.

A Chegada é obra de ficção científica estonteante, inteligente, provocadora e, para minha surpresa, arrasadoramente triste. Ela proporciona reflexões complexas e de força emocional intensa sobre nossa maneira de compreender o mundo e o tempo e sobre abraçar a própria jornada mesmo sabendo onde ela levará. Ele é profundo de uma maneira despretensiosa, coisa que Interestelar, por exemplo, não é. Talvez seja porque Villeneuve sabe, desde o primeiro minuto que esta é uma história sobre busca e descoberta sobre o ser humano e a condição humana. E o que ele descobre é extraordinário.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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