Para o bem ou para o mal, a derrota de La La Land no Oscar não faz sentido

0

Mesmo o mais pessimista nos espectadores deve ter ficado chocado com o que aconteceu no término da premiação do Oscar, o mais prestigioso prêmio de cinema dos Estados Unidos, no  dia 26 de fevereiro. La La Land  – Cantando Estações, franco favorito nas casas de apostas e filme que havia levado grande parte dos prêmios até então (incluindo melhor atriz e diretor) foi derrotado por Moonlight. Como se não bastasse, com requintes de crueldade, os apresentadores Warrean Beatty e Faye Dunaway anunciaram erroneamente La La Land como vencedor do prêmio de Melhor filme, em uma das maiores gafes da história da indústria do cinema.

Não foi culpa dos apresentadores, entretanto. Conforme os eventos se desenrolaram diante dos olhos perplexos da platéia e dos produtores de La La Land ainda no palco, foi descoberto que o Warren Beatty recebera o envelope errado, no qual estava indicado a vencedora do prêmio de melhor atriz: Emma Stone, por La La Land.

Foi um momento constrangedor e histórico, que, se possível, não será repetido no futuro. O debate que proponho agora é outro: fez sentido que Moonlight derrotou La La Land no prêmio mais importante da noite?

Minha avaliação inicial é que não. Mas vou desenvolver meu argumento ao curso do texto.

Como avaliar qual o melhor filme?

A premiação do Oscar é, em suma, uma grande vitrine: um evento de gala cheio de esplendor onde os membros da Indústria do Cinema celebram sua história ao mesmo tempo em que prestigiam as gerações atuais e seus trabalhos. É um momento em que filmes de pouco fôlego financeiro e expressão midiática têm a chance de serem vistos por milhões de pessoas ao redor do mundo.

Decidir qual filme merece a estatueta é um trabalho muito subjetivo, até porque os nove filmes indicados são muito diferentes entre si. Como comparar La La Land, um musical sobre a própria industria do cinema, com Moonlight, um drama sobre dois jovens negros homossexuais? Como comparar Fences, uma obra teatral sobre as tensões raciais e familiares de uma sociedade dividida entre si com Arrival, a história de uma invasão alienígena e os esforços de cientistas do mundo inteiro para descobrir os motivos daquela visita?

É uma tarefa complicada, e não é incomum que o vencedor da principal estatueta tenha seu merecimento contestado e debatido. Eu mesmo acredito que o melhor filme não venceu o Oscar este ano, nem nos anos anteriores. Mas minha visão é orientada para filmes de ficção científica e grandes épicos que desafiam as convenções e as técnicas cinematográficas já existentes, como eu já expliquei em minha resenha de La La Land, na qual eu também afirmei não ser fã de musicais.

O Globo de Ouro tem uma abordagem diferente e, talvez, mais interessante, ao dividir a categoria de melhor filme em duas: melhor filme drama, e melhor filme de comédia ou musical. Mesmo assim, a própria premiação já cometeu gafes estranhas como premiar Perdido em Marte como melhor filme de comédia, em 2015.

Esse tipo de discussão é pouco pragmática, mas levanta a questão de que devemos interpretar o Oscar pelo o que ele realmente é: um show. Ele é muito divertido e nós gostamos de assisti-lo, mas ele é um espetáculo e não um sistema criterioso para definir qual foi o melhor filme de seu respectivo ano.

A Academia criou um critério estranho para dar o Oscar de melhor filme

Se você gostou mais de La La Land ou de Moonlight, é preciso admitir que Moonlight é um filme mais importante. A trajetória de dois jovens negros narrada por Barry Jenkins é um filme para o nosso momento, um momento em que a sociedade encontra-se dividida e precisa ser chacoalhada, perturbada, questionada.

Entretanto, sua vitória em uma premiação que deu a maior parte de seus prêmios para La La Land é resultado de um precedente criado há alguns anos pela Academia que não faz muito sentido. Os últimos vencedores do Oscar de melhor filme, não levaram o maior número de prêmios.

Peguemos o ano passado como exemplo contundente. O embate entre Mad Max: Estrada da Fúria (meu favorito) e O Regresso, terminou com ambos os filmes perdendo para o subestimado (e espetacular) Spotlight.

Na ocasião, Mad Max levou seis prêmios, O Regresso, três, e Spotlight, dois. Isso levantou certos debates. Por exemplo: Mad Max ganhou nas categorias de melhor som, edição de som, montagem, figurino, maquiagem e direção de arte, mas falhou ao levar os prêmios de melhor diretor e melhor filme. Porém, o diretor que dirigiu todos esses elementos, não seria o melhor diretor? E no caso de O Regresso, que levou os prêmios de melhor fotografia, ator e diretor; não seria o melhor filme?

Em 2014, 12 Anos de Escravidão ganhou os prêmios de Melhor Filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Em compensação, Gravidade levou 7 prêmios, incluindo melhor diretor para Alfonso Cuarón. E quanto à La La Land? Foram seis prêmios, incluindo de melhor atriz e melhor diretor, mas o melhor filme ficou com Moonlight.

Isso faz algum sentido? Não creio, mas tem sido uma tendência nos últimos anos. Continuo sem entender: por que dar todos os prêmios para um determinado filme, e o prêmio mais importante de todos para outro? Parece até que a Academia faz uma distinção entre filmes artísticos e filmes políticos: os prêmios artísticos são dados para uma obra, mas o prêmio de melhor filme fica com aquele que está do lado mais importante da história.

Já que estamos falando de coisas estranhas…

… não podemos deixar me mencionar outro precedente perigoso aberto pela Academia. A vitória de Casey Affleck na categoria de Melhor Ator, pelo seu filme Manchester à Beira Mar. Affleck já havia se mostrado ser um ator brilhante no papel de Robert Fordem O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford.  Na ocasião, ele foi indicado ao prêmio de Ator Coadjuvante, mas perdeu para Javier Bardem.

Em 2010, Affleck foi acusado por duas mulheres de abuso sexual durante a gravação do longa I’m Still Here, que ele mesmo dirigiu. O caso foi resolvido no tribunal em que um acordo foi feito entre as três partes por um valor não divulgado. Sua vitória demonstra a complacência da Indústria para casos de assédio sexual e o fato que Brie Larson (que ano passado ganhou o Oscar ao interpretar uma vítima de estupro) entregou o prêmio para ele, é, no mínimo irônico.

Já que estamos falando de gafes e coisas que não fazem sentido, a vitória de Moonlight não fez nenhum sentido; a gafe de La La Land foi a que ganhou a maioria dos holofotes, mas a vitória de Casey Affleck no Oscar foi a pior parte de tudo.

Comments

comments

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here