A Guerra Civil da Marvel

Um bom filme dentro de uma franquia composta de outros duas boas produções, Capitão América: Guerra Civil (2016), dos irmãos Anthony & Joe Russo, é mais do que um filme do Capitão América. Ele faz um eficiente crossover com os Vingadores — tanto que os Irmãos Russo estão escalados para dirigir os dois próximos filmes da equipe de heróis número 1 do universo Marvel, tomando a batuta de Joss Whedon nessa franquia: Vingadores: Guerra do Infinito (programado para 2018) e um segundo filme dos Vingadores, ainda sem título mas programado para 2019.

Capitão América: Guerra Civil baseou-se na história em quadrinhos de Mark Millar & Steve McNiven (e assunto deste artigo), Guerra Civil, de 2006 e 2007 — uma série que deu origem a todo um segmento do universo Marvel, com mais de 100 HQs focadas em diversos heróis, repercutindo o novo contexto criado por Millar & McNiven.

Capa: Steve McNiven
Capa: Michael Turner

O escocês Millar vinha do sucesso com Os Supremos: Super-Humano (2002) e Os Supremos: Segurança Nacional (2002-2004), uma releitura irônica e subversiva dos Vingadores apresentados como gente comum, com egos e manias, falhas de caráter e dificuldades de relacionamento. E que muitas vezes usam os seus superpoderes de maneira maliciosa ou descuidada. Essa realidade alternativa dos Vingadores, desenhada por Bryan Hitch, transpira claramente uma desconfiança da política, do poder institucional, da ciência e do sujeito detentor de poderes muito acima da condição humana.

Bem menos sarcástico em Guerra Civil, Millar leva algo dessa desconfiança ao contar como um evento em particular — quando um grupo de super-heróis participando de um reality show entra em choque com supervilões e acaba causando a morte de dezenas de pessoas em Nova York, crianças na maioria. Os super-heróis são comparados a armas de destruição em massa, e cresce a proposta de registrá-los e treiná-los para que passem a atuar como agentes da lei, sob a direção da SHIELD.

Os prós e contras logo se formam. Tony Stark, o Homem-de-Ferro, lidera o apoio à medida. Steve Rogers, o Capitão América, é contrário. São duas figuras de peso no universo Marvel. Logo eles passam a agrupar um grande número de super-heróis — inclusive vários que nunca foram Vingadores — em torno de suas posições divergentes. É verdade que a escolha de Rogers recebe uma ajudinha da antipática e fascistoide Agente Hill da SHIELD, mas Millar deixa claro que o Capitão também tem um ego. Mesmo assim, é interessante para o leitor especular que Stark tem o sentimento de culpa como motivador oculto da sua decisão. E que Rogers, um veterano da II Guerra Mundial, já se reconciliou com a ideia de que em grandes conflitos os civis sofrem perdas graves. Ao mesmo tempo, o senso de justiça e de individualidade de Rogers, um homem da década de 1940, continuam bem mais acentuados do que aquilo que a sociedade aceita atualmente — para o melhor ou para o pior.

Questões de classe também podem estar em jogo. Afinal, Stark é um industrial bilionário (e fornecedor privilegiado da SHIELD), enquanto Rogers se preocupa com os heróis que trabalham nas ruas e poderiam ter seus entes queridos atacados por supervilões ou mesmo criminosos comuns. Também seria interesse de Rogers, como soldado, saber que os superiores que irão colocá-lo em ação são legítimos e conscienciosos. Mas se o estudo dessas personalidades está presente na narrativa, a ironia de Millar também se faz sentir. Quando os super-heróis discutem salário e planos de aposentadoria, por exemplo.

Lançada pela Editora Novo Século, a novelização de Stuart Moore segue de perto o enredo de Mark Millar.

É interessante entender essa questão do conflito aberto entre super-heróis como uma exploração do lugar identidade secreta no Universo Marvel. Administrar as identidades secretas de cada um, e as vulnerabilidades que elas trazem, é uma questão ainda mais difícil quando se trata de um grupo de heróis que precisa atender às ordens de uma autoridade central — a SHIELD, no caso. Quando a medida do registro dos heróis se torna lei, a exposição das identidades secretas passa a ser obrigatória. A transformação dos personagens da Marvel em super-heróis em tempo integral parece ser uma tendência inescapável desse universo. Nesse sentido, um dos momentos centrais de Guerra Civil está na exposição voluntária de Peter Parker como Homem-Aranha, um dos heróis mais queridos e conhecidos da Marvel. E não deixa de haver um toque pós-modernista em aceitar que o leitor sabe quem é quem, e integrar o que ele sabe e as suas expectativas, à construção da narrativa.

Mas vale ainda um questionamento quanto às trajetórias dos super-heróis, em relação à autoridade. A maioria deles descende dos procedimentos da ficção pulp das décadas de 1920, 30 e 40. Têm o DNA de heróis pulp como o Sombra e Doc Savage. Muitos deles sempre tiveram uma relação ambígua com a autoridade legal. O caso mais conhecido deve ser o de Batman com o Comissário Gordon.

Revisões do herói pulp como Mack Bolan, o Executor criado pelo escritor Don Pendleton (1927-1995) numa série de romance populares, muitas vezes dão um passo além. Bolan deve ter sido a inspiração por trás do personagem Frank Castle, o Justiceiro da Marvel (presente em Guerra Civil, inclusive). Ele é um franco-atirador dos marines, veterano do Vietnã que perde a família para o crime e resolve, como um exército de um homem só, combater sozinho a máfia. Traz consigo a reflexão de que seria necessário estar totalmente fora da sociedade, sem família e sem apoio legal ou institucional, para ser eficaz contra uma organização que não hesita em atacar familiares e amigos, e subornar autoridades. Pendleton escreveu 38 romances com o herói, mas vendeu os direitos sobre ele para um conglomerado canadense em 1981. A partir daí, Bolan passa a trabalhar para CIA e se torna uma espécie de James Bond que atua livremente mundo afora, na defesa dos interesses americanos.

Quando Tom Clancy (1947-2013) plagiou Pendleton em Sem Remorso (1993), ele reforçou o mesmo esquema. O ex-SEAL John Kelly se volta ao combate solitário contra o crime, para mais tarde se transformar em um recurso da CIA. E não é a mesma coisa que o registro dos super-heróis faz? Basta trocar a CIA pela SHIELD. No fim das coisas, a ideia do sujeito que começa como um “maverick“, fora dos trilhos da lei e da respeitabilidade social, para depois ir trabalhar para o governo — ou se transformar no governo — parece ter um papel muito forte da psicologia americana.

 

A FEDERALIZAÇÃO DOS SUPER-HERÓIS

Capa: Frank Cho

O que me interessou em Os Poderosos Vingadores: A Iniciativa Ultron, foi o desenho opulento e auto-irônico de Frank Cho, do qual sou fã. O roteiro é de Brian Michael Bendis.

Ultron, é claro, foi o supervilão do segundo filme da franquia dos Vingadores no cinema. Trata-se de uma sofisticada e perigosa inteligência artificial que anima um quase invencível corpo robótico. Neste livro, Ultron retorna como uma espécie de T-1000, o exterminador de metal líquido de O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final. Além do upgrade high-tech, Ultron domina o corpo e a mente de Tony Stark. Como Stark é sabidamente um mulherengo, e como Ultron deu a ele uma aparência de garota, têm-se aí uma gozação do herói, mas também um aceno às sensibilidades atuais, que admitem uma fluidez maior do gênero sexual.

A história está inserida no contexto da Guerra Civil. Antes de Ultron reaparecer, Stark, com Miss Marvel como sua tenente, estão empenhados em formar, treinar e distribuir equipes de super-heróis pelas diversas regiões do território dos Estados Unidos. Assim eles vão se trombar menos e distribuir melhor a segurança que são capazes de fornecer ao povo americano. É a federalização dos super-heróis…

Bendis tem uma tendência a escrever diálogos demais, empaçocando os quadrinhos com balões. Seus personagens alternam uma sequência de falas e tiradas num mesmo quadro, ou de um quadro para outro. Essa tagarelice ganha o acréscimo de balões de pensamento, nas mesmas sequências — é como se os personagens fizessem apartes dirigidos ao leitor. E muitas vezes como comentários sobre a aparência e a gostosice dos seus colegas. O lado fashionista e gozador é sublinhado na segunda história, desenhada por Mark Bagley, quando o alter-ego da Vespa aparece com novos figurinos para os heróis oficializados. Mas os dramas pessoais dos heróis também fazem parte da história, especialmente os de Sentinela, Vespa e Gigante.

Na minha opinião, um dos maiores erros da Marvel foi a introdução do simbionte Venom como o traje do Homem-Aranha — um truque que parece “B” demais. Quando Nova York é invadida por semelhantes de Venom para ser combatida pelo exército de heróis de Stark, o livro perdeu muito o interesse para mim.

Guerra Civil (Civil War), de Mark Millar & Steve McNiven. São Paulo: Salvat do Brasil, Graphic Novels Marvel N.º 50, 2014, 206 páginas. Capa de Michael Turner. Tradução de Jotapê Martins & Fernando Lopes.

Os Poderosos Vingadores: A Iniciativa Ultron (Mighty Avengers), de Brian Michael Bendis, Frank Cho, Marco Bagley & Marko Djudjevic. São Paulo: Panini Books, 2015, 290 páginas. Capa de Frank Cho. Tradução de Rodrigo Barros & Fernando Lopes. ISBN: 978-85-8368-053-6

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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