A Qualquer Custo – A Atualização do Western

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Taylor Sheridan, ator que virou roteirista, parece ser um caso genuíno de uma mudança de carreira em Hollywood que fez sucesso. Nascido nos Estados Unidos em 1970, Sheridan atuou em papeis pequenos e coadjuvantes, o mais importante deles sendo o policial David Hale em Filhos da Anarquia. Depois disso ele escreveu seu primeiro roteiro: Sicario – Terra de Ninguém que foi dirigido pelo canadense Denis Villeneuve ano passado e acompanha uma agente do FBI idealista (Emily Blunt) que descobre os podres no combate aos cartéis de drogas na fronteira dos Estados Unidos com o México. Perturbador e econômico, Sicario foi um dos melhores filmes do ano passado e consolidou Sheridan como uma das grandes promessas na produção de roteiros nos EUA.

O longa-metragem A Qualquer Custo (Hell or High Water, EUA/ING, de 2016) corrobora a noção de que Sheridan é um dos maiores roteiristas em atividade. Dirigido pelo inglês David Mackenzie (de Encarcerado, de 2013, e Destino do Amor de 2011), o filme acompanha dois irmãos, Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) que estão assaltando pequenas agências de bancos em cidades quase-abandonadas do interior do Texas. Eles só assaltam os caixas e pegam quantias e notas pequenas.

O que eles querem, na verdade, e isso nós descobrimos logo nos primeiros vinte minutos de filme, é salvar sua fazenda. Depois da morte da mãe dois dois por conta de alguma doença inexplicada, os dois irmãos estão devendo mais de 50 mil dólares ao banco em despesas médicas e hipoteca. O irmão mais novo, Toby, quer que seus filhos tenham algum futuro e acredita que aquele terreno pequeno e mal-cuidado possa trazer algo de bom para eles.

Contrário aos irmãos, nós temos a dupla de Texas Rangers, Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birminham) que estão rastreando dois ladrões de banco que não se encaixam no perfil. Hamilton está próximo da aposentadoria: esse é seu último caso e ele não sabe bem o que pensar dos bandidos. Mas ele é tão inteligente quanto Toby Howard e os quatro personagens estão em uma rota de uma colisão que promete violência e destinos sendo decididos para o bem ou para o mal.

Nenhum dos elementos de A Qualquer Custo é necessariamente novo ao gênero western, ou mesmo ao western contemporâneo. Há o clichê do policial à beira da aposentadoria, prestes a encontrar a missão mais perigosa da sua vida. O tema da ambivalência entre lados opostos desse universo também já foi muito – e muito bem – explorado. Não há heróis ou vilões em Qualquer Custo, apenas pessoas que são vítimas de circunstâncias e que tomam decisões para mudar sua situação. Não cabe a nós julgá-los, apenas acompanhá-los em sua jornada e esperar, talvez, por um final que não seja muito injusto (pois não pode haver justiça para os dois lados).

A Qualquer Custo se destaca na maneira como ele usa os elementos ao seu dispor para criar algo novo e exótico em sua familiaridade. Mackenzie filma brilhantemente as sequências de ação sempre movimentando a camêra e mostrando grandes paisagens de cidades decadentes e abandonadas, sendo lentamente consumidas por bancos e indústrias petrolíferas. E o roteiro, embora trágico, se usa muito do humor para contar uma história essencialmente texana (como alguns clássicos do gênero como Onde os Fracos não têm Vez e Estrela Solitária), mas que revela o macrocosmo do capitalismo neoliberal que afeta os quatro cantos do mundo.

O elenco também colabora muito para que a experiência de A Qualquer Custo seja visceral, divertida e provocadora. Chris Pine e Ben Foster nunca estiveram melhores: é a primeira vez que vemos Pine num papel como esse e ele o interpretou de forma perfeita, repleto de nuances e fragilidades. Foster, por sua vez, sempre foi um ator de caracterização muito habilidoso e parece ficar cada vez melhor com o tempo: ele interpreta o irmão mais velho, Tanner, com selvageria, nuance e humor. E temos, claro, Jeff Bridges, que faz tudo parecer fácil e que em breve e com muita certeza será indicado aos principais prêmios como ator coadjuvante.

O filme também prova três coisas: primeiro, que Chris Pine sabe atuar. Segundo, que Sheridan é um roteirista habilidoso que sabe capturar nuances e criar histórias engajantes economicamente, com o uso só de algumas poucas pirotecnias. E, por fim, que o gênero do western contemporâneo, quando bem feito, consegue falar muito sobre o nosso mundo, mesmo que conte histórias pequenas e localizadas. A Qualquer Custo é um dos melhores filmes do ano, e eu acompanharei as futuras escritas de Taylor Sheridan com muito interesse.

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