Animais Fantásticos e Onde Habitam – Começo de algo grande

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA/ING, 2016) marca a introdução da escritora J.K. Rowling aos roteiros de cinema e dá início uma nova franquia que se passa no mesmo universo da série Harry Potter, responsável por transformar a autora britânica em um sucesso estrondoso e por inspirar toda uma geração de novos leitores.

Só que, desta vez, a história se passa uns bons sessenta anos antes da trajetória de Harry e sua transição do mundo “comum” para o mundo fantástico que o levou até a escola de magia e bruxaria de Hogwarts. Animais Fantásticos se passa em Nova York, em 1926, seis anos depois do término da Primeira Guerra e três antes da Quebra da Bolsa de 29, um período conturbado para o mundo bruxo que está sendo ameaçado por um mago das trevas chamado Grindewald.

Nesse contexto que anunciava o começo de um dos períodos mais conturbados e violentos do século XX, o jovem bruxo Newt Scamander (Eddie Redmayne) desembarca nos Estados Unidos: ele é um pesquisador de criaturas mágicas e aparentemente tem uma missão importante a cumprir, mas precisa deixar tudo de lado quando várias de suas criaturas escapam de sua maleta (que, como a TARDIS, é maior por dentro do que por fora) e começam a vagar pelo mundo afora.

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A presença delas entre as pessoas comuns, chamadas aqui de No-Majs, ameaça expor todo o mundo mágico e ele contará com o auxílio de uma ex-aurora chamada Porpentina Goldstein (Katherine Waterston), sua irmã, Queenie (Alison Sudol) e o não-maj Jacob Kowalski (Dan Fogler) para capturá-las. Porém, algo de estranho está perambulando pela cidade além dos seres mágicos de Newt Scamander: algo sobrenatural e profundamente escuro, que está sendo investigado pelo MACUSA (Magical Congress of the United States of America), o equivalente ao Ministério da Magia da Inglaterra. As investigações são lideradas pelo elegante Percival Graves (Colin Farrell), que, apesar de um certo carisma, não é flor que se cheire.

E, se não bastasse isso tudo, um crescente movimento anti-bruxos está ganhando força em Nova York, liderado pela levemente psicótica Mary Lou (Samantha Norton) e seu secto de órfãos, sendo que Clemence (Ezra Miller) é tratado como seu principal capacho e é secretamente manipulado por Graves.

O maior problema de Animais Fantásticos, e que se torna evidente desde o começo, é o excesso de tramas. Muita coisa acontece e ao mesmo tempo. São muitos personagens (e, neste caso, todos adultos, embora isso não seja um problema) em pouco tempo de filme, o que faz com que todos sejam pouco aproveitados. Eddie Redmayne, no papel principal, parece estranhamente desconfortável, cheio de tiques e maneirismos que parecem terem sido péssimas orientações fornecidas pelo diretor David Yates.

Yates, que dirigiu os últimos quatro filmes da franquia Harry Potter, se mostrou um cineasta hábil, porém inconstante e, desta vez, faz com que o longa sofra com sérios problemas de ritmo: hora ele é muito lento, hora ele é muito rápido, atropelando-se em suas várias subtramas, e depois se torna lento (quase sonolento) outra vez. Decepciona também a trilha sonora fornecida por James Newton Howard, a primeira dele na franquia: como fã do compositor norte-americano, senti falta de um tema substancial para guiar o filme. A trilha é uma cacofonia de sons distintos mas mal articulados e que não se complementam.

A Gabi, inclusive, fez um vídeo sobre o filme, caso vocês queiram assistir:

Mas o ponto verdadeiramente baixo do filme, é o personagem Jacob Kowalski. O ator, Dan Fogler, parece mais desconfortável que Redmayne no decorrer do longa, como se isso fosse possível. Ele deveria servir como o alívio cômico na história, por ser o não-bruxo, o elemento dissonante no quarteto principal, mas seu personagem é fraco e pouco carismático. Toda vez que ele aparecia em cena, o filme parecia diminuir de ritmo e seu rendimento caía.

Em compensação — para não falar que TUDO é ruim no filme — os atores Katherine Waterston e Colin Farrell estão perfeitos em seus respectivos papéis. O irlandês Farrell vem se mostrando um ator cada vez mais versátil a cada ano que passa, e interpretou Perceval Graves de forma econômica e no ponto. Já Waterston é um encanto, trazendo humor, delicadeza e determinação em cada uma de suas falas, sem esforço. É, de longe, a melhor coisa de Animais Fantásticos. 

Esteticamente falando, Animais Fantásticos supera seus predecessores. Os efeitos visuais são deslumbrantes e eficientes em transportar o espectador tanto para o mundo mágico quanto para a Nova York dos anos 1920. Os seres fantásticos também são maravilhosos e incrivelmente imaginativos. É uma pena que David Yates explore pouco os elementos que tem a seu favor, constantemente movendo a câmera vertiginosamente em ângulos estranhos.

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O longa também parece ter sido picotado na ilha de edição: algumas cenas carecem de desenvolvimento e algumas coisas ficam jogadas na trama, sem fazer muito sentido.

Porém, Animais Fantásticos é, apesar de todos seus defeitos, uma adição interessante ao gênero fantástico que Rowling ajudou a segmentar. Além disso, é um filme sobre segregação racial e imigração ilegal; quem diria que o primeiro blockbuster anti-Trump viria justamente com este filme? Pontos para Joanna Rowling, que parece estar no caminho certo para uma coisa grande e verdadeiramente importante: Animais Fantásticos terá quatro continuações, criando, assim, todo um novo universo mágico. Começou um pouco aos trancos e barrancos, mas eu atribuo isso mais ao estilo de direção de Yates do que do roteiro dela. Se os dois encontrarem um ponto de equilíbrio, a franquia tem tudo para dar certo.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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