Apagão: Os Selvagens da Noite de São Paulo

Capa: Camaleão
Capa: Camaleão

Importante para a renovação da ficção científica e fantasia brasileiras, a Editora Draco, de São Paulo, tem se voltado recentemente à publicação de quadrinhos nacionais. Exemplos são a série Imaginários em Quadrinhos e com a publicação de livros como Terra Morta: A Obsessão de Vitória, de Tiago Toy, e Intempol: Para Tudo se Acabar na Quarta-feira, de Octávio Aragão & Manoel Ricardo. A editora de Erick Sama marca agora um gol de placa com Apagão: Cidade sem LeiLuz, dos premiados Raphael Fernandes & Camaleão, lançada em maio. Fernandes é conhecido pela HQ Ditadura no Ar, que lhe rendeu um prêmio HQMix de Roteirista Novo Talento, enquanto Camaleão já faturou vários salões de humor (os dois se conhecem da revista Mad).

O álbum é resultado de campanha de crowdfunding via Catarse, e faz parte de um universo que também inclui RPG e música. Imagina uma São Paulo afundada no caos de um blecaute interminável. É como se as situações do filme cult de Walter Hill, The Warriors: Os Selvagens da Noite (1979), que se passa em uma única noite, durassem cinco meses, com gangues disputando as ruas e os porões escuros da nova distopia paulistana.

Arte de Camaleão
Arte de Camaleão

Nada mais natural, portanto, que a cena de abertura do gibi siga a letra de “Bichos Escrotos”, da banda Titãs, sucesso da década de 1980. A cena retrata duas minas sendo resgatadas de um ataque dos carecas do subúrbio, pela gangue dos Macacos Urbanos – skatistas e capoeiristas comandados pelo antropólogo-xamã Apoema da Silva. Mas o enredo só decola quando entra em cena o blogueiro Dori, que passou o tempo todo do apagão comendo comida enlatada e jogando videogame (ele carregava as baterias do console com uma bicicleta ergométrica) com a irmã Bia.

A maninha é sequestrada pelos seguidores do Pastor Dimas Araguaias – que ocupou a Catedral da Sé –, e o histérico Dori cai nas mãos dos MUs, bando junto ao qual ele deve ter um papel importante, segundo Apoema. Depois de apanhar bem e enfim comer algum alimento fresco – os Macacos têm a sua própria horta –, Dori foge para procurar a irmã, Bia. Em rápida sucessão, ele passa por um grupo de craqueiros, PMs chacinadores e um bando de patricinhas feministas assassinas, as Irmãs Canivete. É salvo por outra pessoa que vai dar abrigo e orientação a ele, Luciana Araguaias – a filha do pastor fascista. O sem noção Dori apanha dela também, e de outros bandos, enquanto segue na sua busca por Bia.

Exagerado e picaresco, Apagão fornece uma visão satírica (os dois criadores vêm do humor) da violência urbana brasileira. Só faltaram as torcidas organizadas, protagonistas de cenas de  balbúrdia épica em São Paulo… A estrutura do RPG está evidente no trajeto do herói trapalhão pela geografia social e física da cidade (veja o mapa no fim do livro, se você duvida), mas não interfere com sua leitura específica como HQ. As gangues têm os seus próprios logos e lingos (dialetos), e a arte excelente de Camaleão incorpora elementos do grafite pelo qual Sampa é conhecida internacionalmente. Até mesmo o texto de Raphael Fernandes, que deve ter lido muito Brian Michael Bendis – com sua técnica de extensos diálogos com balões intercalados –, acaba se integrando à arte atulhada de Camaleão, formando uma única verborragia visual densa e marcante.

A arte é fundamental neste gibi. O mineiro Camaleão marca excepcionalmente o clima noturno – não só com o fundo preto das páginas (que já virou mania nos quadrinhos atuais). Há uma maestria na iluminação baça e nas cores (Omar Viñole foi assistente de cores neste trabalho) que, mais do que outros recursos, reforça a caracterização da vida sem luz elétrica. Seus personagens de fisionomias e físicos angulosos têm cara de brasileiro e estão bem integrados à paisagem de ângulos retos e superfícies detonadas de uma São Paulo distópica e bizarra.

A história termina com um confronto entre os Macacos Urbanos e a tropa de choque da PM diante da escadaria da Catedral da Sé, num final que é bem fechado mas que deixa claramente um gancho para os próximos episódios. Enquanto a “rica” região Sudeste brasileira vai sofrendo sua “terceiromundização” com a falta d’água e com a restrição energética, a notável HQ de Raphael Fernandes & Camaleão nos lembra que ainda dá para piorar. Apagão é bilhete para uma jornada de pesadelo – mas uma viagem que não abandona a diversão, mesmo quando mostrar uma paisagem conhecida que parece se transformar diante dos nossos olhos, enquanto olhamos pelas janelas do ônibus ou do metrô.

–Roberto Causo

Alguns doadores do Catarse receberam um CD da banda Solomon Death com a "trilha sonora oficial" do gibi.
Alguns doadores do Catarse receberam um CD da banda Solomon Death com a “trilha sonora oficial” do gibi.

Apagão: Cidade sem LeiLuz, de Raphael Fernandes (texto) & Camaleão (arte). São Paulo: Editora Draco, abril de 2015, 96 páginas. Capa de Camaleão. ISBN: 978-85-8243-120-7

A trilha sonora oficial do álbum de quadrinhos Apagão, tocada pelo grupo porto-alegrense Solomon Death, pode ser ouvida aqui.

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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