As heroínas de papelão de Philip K. Dick

Philip K. Dick foi um dos autores de ficção científica mais produtivos e originais de seu tempo. Suas obras questionaram diversos temas até então pontualmente explorados pelos autores da ficção científica, como a loucura, os limites do Eu e do Divino e o que de fato nos torna humanos.

Não é à toa que muitas de suas obras já foram adaptadas para o cinema, inclusive Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, de 1967, que funciona tão bem quanto sua adaptação para o cinema, Blade Runner. Porém, quanto mais se lê K. Dick, mais aparente fica um ponto frágil em suas obras: as personagens femininas. Basta comparar as “heroínas” de suas obras mais famosas para identificar padrões, muitas vezes confusos ou injustificáveis, de comportamento.

Essa dificuldade não era exclusiva do autor. Em seu ensaio The Image of Women in Science Fiction, a autora Joanna Russ foi categórica ao dizer que, até os anos 70, havia “muitas imagens de mulheres na ficção científica [anglófona]. Raramente há mulheres”. Como a literatura de gênero foi vista por décadas como um ambiente puramente masculino, muitos autores não manifestavam preocupação em quebrar estereótipos da mulher como tentação — conceito que se manifesta na cultura ocidental desde Homero —, ou como donzela indefesa.

Contudo, Dick levava isso ao limite, tornando virtualmente impossível se importar ou gostar de suas heroínas de papelão. Para Darko Suvin, um dos mais influentes pesquisadores de ficção científica anglófona, “Dick tem três personagens femininas básicas: a primeira é a vadia castradora, uma mulher masculinizada que luta para subir no mundo corporativo […], a segunda é fraca, mas que tem uma influência estabilizante […], e a terceira, talvez mais conhecida, que é forte e calorosa ao mesmo tempo”.

Ursula K. Le Guin foi enfática ao criticar Dick sobre isso. Em um artigo na publicação Science Fiction Review, Le Guin apontou que as personagens femininas do colega eram pouco mais do que símbolos, como bruxas, vilãs, ou tentações, e que não se sustentavam enquanto personagens complexas. Segundo o autor, a dica foi anotada — mas suas obras dizem, na maioria dos casos, o contrário. Além disso, o próprio Dick admite que repetiu suas vagas ideias sobre o feminino inúmeras vezes.

Em uma carta à editora Eleanor Dimoff, contou: “tenho a suspeita de que escrevo sempre sobre a mesma mulher, um livro atrás do outro […] Sempre assumo que, em um romance, a esposa do protagonista não vai ajudá-lo em nada, vai dificultar as coisas ou agir contra ele. Quanto mais esperta ela for, maiores as chances que ela trame contra ele”. Na mesma carta, conta que costuma dividir todas as mulheres em duas categorias, “Becky Sharps” ou “Amelias”; a primeira é manipuladora e ambiciosa, enquanto a segunda é passiva e doméstica.

É sempre delicado apontar paralelos entre a personalidade do autor e sua obra. Um exemplo clássico disso é Vladimir Nabokov, que por décadas teve de escrever artigos refutando qualquer relação com a mentalidade doentia de seu mais famoso personagem, Humbert Humbert, o narrador de Lolita. Contudo, quando falamos de Philip K Dick e sua incompreensão do feminino, é difícil deixar de lado a forma com que lidava com mulheres. Na biografia Eu Estou Vivo E Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carrère, conhecemos um lado abusivo do escritor, que em diversas ocasiões levou suas companheiras à exaustão física e mental. Segundo Carrère, Dick sentia enorme dificuldade em ficar sozinho e tinha dificuldade maior ainda em se relacionar — seus cinco casamentos foram marcados pela turbulência -, sonhando com um ideal de mulher dócil e sempre atenta às suas demandas.

Conhecendo as dificuldades do escritor em relacionamentos pessoais, não surpreende que sua bagagem sobre o feminino fosse tão rasa — e, muitas vezes, equivocada e tumultuosa. Observar esses pontos não diminui a importância de seu trabalho; apenas revela mais camadas de cada obra e as contextualiza para o mundo do século XXI, que certamente deve muito a esse escritor genial. Cabe a nós, que nos inspiramos em Dick, aprender continuamente com ele.

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