Ator e roteirista Felipe Folgosi lança sua primeira história em quadrinhos

Capa de Klebs Junior, de Aurora, de Felipe Folgosi
Capa de Klebs Junior

Em 6 de junho deste ano, eu participei de uma mesa com escritores na GalactiCon I, evento organizado pelo fã-clube Battlestar Galactica Brasil. Comigo estavam J. P. Schimidt (autor do romance Guardiões do Pecado), Fábio Kabral (autor do romance Ritos de Passagem) – e o ator e roteirista Felipe Folgosi, veterano de novelas da Globo e da Record, onde fez o fenômeno Os Mutantes, telenovela de ficção científica campeã de audiência.

Folgosi foi ao evento para divulgar o seu projeto de financiamento coletivo (via Catarse), o romance gráfico Aurora, que em fins de outubro eu achei aqui na banca La Plaza, perto de casa. Imagino que depois de ter sido enviado a todo mundo que participou do crowdfunding. Uma coisa que me animou a comprar o gibi foi a produção com know-how do Instituto dos Quadrinhos – do qual eu já conhecia o projeto Pátria Armada, resenhado aqui.

Aurora de fato apresenta a qualidade esperada dos profissionais do Instituto – a história em quadrinhos tem desenho de Leno Carvalho e arte-final de Nelson Pereira, mais cores de um pelotão de gente, provavelmente alunos do Instituto se exercitando. Klebs Junior, autor de Pátria Amada, é o editor desse projeto, com o veterano Dario Chaves como editor assistente.

Folgosi começou esse projeto depois de um curso de roteiro que ele havia concluído na Universidade da Califórnia em Los Angeles, em 2004. A ideia e as anotações que surgiram ao longo dos anos foram parar na gaveta, até que, depois de anos de pesquisa e de outros trabalhos de autor ou de roteirista, em 2014 ele sentiu que estava na hora de sentar para escrever aquilo que seria primeiramente um roteiro de cinema. As dificuldades orçamentárias do cinema brasileiro fizeram Folgosi optar pela sua transformação em roteiro de quadrinhos. Algo que, aliás, já havia acontecido antes, com o projeto “1500” de Fábio Fonseca – de projeto multimilionário de blockbuster hollywoodiano, virou três álbuns de quadrinhos muito bem desenhados por Andrei Miralha & Otoniel Oliveira, e publicados pela Devir como Brasil 1500.

A história de Folgosi trata de um fenômeno cósmico que atinge o litoral dos Estados Unidos, envolvendo a família de um pescador português de Gloucester, Massachusetts. É um toque bem bacana, pois realmente há uma colônia dessa nacionalidade na Nova Inglaterra, carimbando a existência de colônias portuguesas em todas as regiões do planeta. Rafael Santos é o pescador que, estando no mar durante o fenômeno, se expõe ao bombardeio de raios cósmicos. Como resultado, desenvolve um explosivo câncer de pele (com a característica de desenhar um mapa pontilhista da galáxia em seu corpo) e tumor no cérebro – além de alguma telepatia, como efeito colateral.

O enredo caminha com diversas linhas narrativas, de modo que, enquanto acompanhamos o drama de Rafael e sua família, que tenta interná-lo em um hospital universitário, ficamos sabendo que o fenômeno cósmico era acompanhado pelas autoridades americanas. As coisas se complicam ainda mais e o roteiro mergulha num clima de thriller, quando os colegas de Rafael no barco de pesca começam a ser assassinados.

O físico Ryan Costello, irmão do Padre Ian, um conhecido da família Santos, dá um jeito de Rafael ser colocado num ciclotron para uma terapia de nêutrons rápidos, e desse casulo high-tech ele emerge transformado em uma espécie de super-homem. Adão de uma nova raça, pós-humana e superior – justamente o que interessa à figura sombria da história, o Coronel Saul Hunter.

Folgosi lida muito bem com os coadjuvantes, que, se não têm um desenvolvimento mais aprofundado, circulam eficientemente em torno de Rafael Santos e da trama principal. Ryan Costello tem a cara barbuda do Jeff Bridges de O Grande Lebowski (1998) ou de Os Homens que Encaravam Cabras (2009), o que não deve ser coincidência, já que Aurora deve um pouco ao enredo de Starman: O Homem das Estrelas (1984), FC sobre um alienígena em visita à Terra que rendeu a Bridges uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Na HQ, Costello é importante para a exposição do assunto por ser um antigo conhecido de Hunter, como costuma acontecer nos roteiros de Hollywood.

O roteiro muito bem amarrado oferece um crescendo na ação até o clímax com um forte conteúdo emocional, além flashbacks bem ordenados e alusões místicas que, juntamente com a terminologia high-tech médica e de física de partículas, parecem também estar na ordem do dia. Hunter é um matador casual demais até para os operativos das agências secretas americanas, e o enredo o constrói como um místico maçônico, num aceno para situações do tipo O Código Da Vinci, mas que poderia se mais trabalhado. Cláudia Santos, a bonita mas chorona mulher de Rafael, também me pareceu merecer um desenvolvimento um pouco maior. A premissa da transformação do herói no protótipo de uma espécie humana adaptada aos novos tempos ambientais e populacionais é um recurso mais lúdico e mítico, contrastando com o techno-bable mais rigoroso do enredo, como também costuma acontecer. O que escapa surpreendentemente dos esquemas hollywoodianos – que exigem que o vilão sera castigado de forma grotesca no clímax – é o destino dado a Saul Hunter.

Contando com o patrocínio da LG e da Subaru, além dos apoiadores do Catarse, Aurora oferece uma leitura saborosa, imagens e sequências bonitas e envolventes. O roteiro do thriller de ficção científica de Felipe Folgosi tem o mérito de trazer algo de muito humano, colocado com convicção mas num toque discreto, a todas as situações. Daria um bom filme.

–Roberto Causo

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Aurora, de Felipe Folgosi (texto) e Leno Carvalho & Nelson Pereira (arte). São Paulo: Instituto dos Quadrinhos, 2015, 116 páginas. Capa de Klebs Junior. ISBN: 978-85-69787-00-6

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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