“Batman: A Piada Mortal” ainda tem pegada

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Arte de Brian Bolland em Batman A Piada Mortal
Arte de Brian Bolland

Relançado pela Panini Books em 2011, com nova colorização por Brian Bolland, Batman: A Piada Mortal é uma HQ original de 1988, parceria entre Alan Moore & Bolland num projeto da DC Comics que dá uma visada diferente para a origem do Coringa, considerado um dos mais conhecidos vilões dos quadrinhos de super-heróis. No meu modesto entender, essa história certamente contribuiu muito para sedimentar a fama Moore como o roteirista número um de quadrinhos no mundo – depois do marco Watchmen (1987). Essa nova edição da Piada Mortal ainda está disponível (comprei meu exemplar em novembro de 2015 na Banca La Plaza, aqui perto de casa, e deve fazer parte do acervo de qualquer loja especializada que se preze).

Bem dentro da tradição de Batman, a HQ se conduz como uma sombria ficção de crime ambientada na metrópole noir imaginária de Gotham City, onde tudo parece resgatado da década de 1940. As novas cores de Bolland reforçam esse ar retrô, assim como a melancólica e cruel narrativa de Moore sobre como o Coringa arma uma arapuca moral para Batman e seu amigo e aliado, o Comissário Jim Gordon, em um parque de diversões abandonado. O núcleo central da narrativa é um monólogo existencialista do Coringa – marca de Moore também em Watchmen –, habilmente sublinhado por páginas de flashbacks de tratamento monotonal, na qual se destacam poucas cores selecionadas.

Os flashbacks mostram o supervilão ainda jovem como um comediante desempregado, de cujas piadas ninguém gosta, disposto a realizar um roubo com dois criminosos empedernidos para garantir o futuro da esposa e do bebê já encomendado. Mas tudo sai cruelmente errado, e agora, cercado de ícones e símbolos pinçados desse episódio e aplicados de maneira surrealista como decoração do parque de diversões, o Coringa está pronto para fechar o círculo corrompendo o Comissário Gordon e vencendo Batman em um duelo de insanos. Sua principal arma é a violência cometida contra Barbara Gordon (a Batgirl, que na história aparece apenas como filha de Gordon), e um discurso histérico e com técnicas de lavagem cerebral, sobre a ironia intrínseca e a falta de sentido da vida.

Mas o que brilhante e preciso roteiro de Moore reserva para o final é uma outra circularidade, ao mesmo tempo demencial e doce, que dá ao Coringa, tão tarde e depois de tanta tragédia, a chance de contar uma piada realmente boa.

Influente, A Piada Mortal tocou algo das produções de Batman para o cinema, como a primeira adaptação de Tim Burton, em 1989, e até na perturbadora armadilha moral que o Coringa impõe sobre Gotham, em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan – este, um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos.

Completam a edição da Panini uma outra história do Batman escrita e desenhada por Bolland, “Sujeito Inocente”, que lembra os contos de horror introspectivos das revistas em quadrinhos Eerie e Creepy, sobre um sujeitinho tipo David Chapman (o assassino de John Lennon) que planeja matar Batman como um teste dos limites da moralidade, e a primeira história desenhada por Bob Kane, um dos criadores do Homem-Morcego, em que o Coringa aparece. A HQ de Bolland tem quadrinização eficiente e desenhos um tanto mais exuberantes, mas não é tão bem realizada enquanto roteiro. Já a HQ de Kane testemunha o quanto os desenhos e as cores dos quadrinhos de super-heróis evoluíram da década de 1930 pra cá, mas também exibe os elementos recorrentes do vilão, explorados também por Moore & Bolland.

–Roberto Causo

Batman – A Piada Mortal – Volume 1 (Batman: Killing Joke), de Alan Moore (texto) & Brian Bolland (arte & cores). São Paulo: Panini Books, 2011, 82 páginas. Capa de Brian Bolland. Prefácio de Tim Sale, posfácio de Brian Bolland.  ISBN: 978-85-7351-547-3

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