Birdman, a Esperada Virtude da Ignorância

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Antes de assistir Birdman ou, A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or, The Unexpected Virtue of Ignorance, EUA/MEX, 2014) eu já havia assistido quatro filmes do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel Biutiful) e odiei todos com forças além da minha compreensão.

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A princípio, no entanto, me pareceu culpa de uma parceria tóxica do diretor com o roteirista Guilhermo Arriaga que compôs uma trilogia de cunho social cujo tema central era a violência e a tristeza (embora pouco explorasse as consequências psicológicos da violência, ou ao menos, não tanto quanto ele se propunha). Quando ele dirigiu Biutiful em 2010 estrelando Javier Bardem, ele não estava trabalhando com Arriaga, portanto, pressupus que seu verdadeiro talento como diretor finalmente iria florescer.

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Não obstante, o que aconteceu foi uma obra de duas horas e meia sobre a transcendência da tragédia que era, por si, uma tragédia que nem santo salvava. E então, veio Birdman, e este estourou entre os críticos e o público como uma obra profundamente criativa e ousada, e pensei “bom, quem sabe agora”. Quem sabe agora com um material melhor em mãos, Iñárritu finalmente iria mostrar todos seus dotes cinematográficos. Uma parceria com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, um Michael Keaton quase irreconhecível e a proposta de filmar toda a obra como uma sequência sem cortes também me chamaram a atenção.

Mas o resultado, contrário (ou, talvez, nem tanto) às minhas expectativas, foi consideravelmente negativo.

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Riggan Thomson, um Michael Keaton verdadeiramente extraordinário, é um ator que outrora fez sucesso como um astro do cinema de super-heróis, como o próprio Michael Keaton, mas que entrou em declínio e que agora busca revitalizar sua carreira adaptando, estrelando e dirigindo uma peça na Broadway. Ele conversa com a voz do personagem Birdman, que vive dentro de sua cabeça e enche o seu saco virtualmente o tempo todo. As coisas começam a ir por água abaixo quando ele é forçado a contratar um talentoso, porém volátil ator substituto chamado Mike Shane, interpretado por Edward Norton.

Aliado ao talento quase sobrenatural do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade A Árvore da Vida), Iñárritu filma todo Birdman como se fosse uma única cena contínua e sem cortes, o que é bom em alguns aspectos e não tão bom em outros. Essa técnica ajuda a construir a tensão sobre o personagem Riggan, aliado ao confinamento dos corredores apertados e luzes ofuscantes do teatro da Broadway onde a história se passa. Porém, torna-se extremamente cansativa em alguns momentos, às vezes também perdendo o timing cômico de determinadas situações (comédia sendo um gênero no qual Iñárritu tem pouca intimidade), nada favorecida pela trilha sonora composta por Antonio Sanchez, somente com uma bateria.

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Ele também parece não ter conhecido um estereótipo que não tenha abraçado. Riggan é um ator fracassado, um pai ausente e um mal marido. Sua filha Sam (Emma Stone) é uma ex-viciada. Seu melhor amigo, Jake (Zack Galifianakis) é um advogado sem escrúpulos. Mike, é um ator talentoso porém inconsequente e imaturo, enquanto as outras duas personagens femininas, Lesley e Laura são pouquíssimo aproveitadas e pouco inteligentes. E, para completar, há a crítica do The New York Times, interpretada por Lindsay Duncan que gosta de massacrar peças de teatro sem ao menos assisti-las. Lá vamos nós com a Crítica como a vilã de um filme que constantemente critica a indústria cinematográfica e o público idiota que a consome. Mas no que Birdman compensa em críticas, ele perde – justamente – em profundidade e caráter humano.

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Eu compreendo que muitos dos componentes técnicos do filme servem para alienar o espectador, ao invés de envolvê-lo (como a bateria de Antonio Sanchez). Porém, essa é uma via de mão dupla, cujo risco é tornar o público indiferente aos acontecimentos da tela. Birdman também é pretensioso num mal sentido, colapsando em alguns momentos, sob o peso de sua própria ousadia.

Birdman coloca palavras calculadamente escritas nas bocas de atores talentosos, mas parece distrair seu espectador do fato de que ele tem pouco a dizer sobre sua história. Com certeza, ele cria um espetáculo impactante à primeira vista. Porém, a sensação que eu tive, quando tudo terminou, foi de assistir um filme mais cuidadosamente pensado do que sentido, sem o elemento humano. Mais alienante do que envolvente. Vazio por dentro, apesar de seus belos momentos que parecem mais mérito de um talentoso diretor de fotografia, do que de um visionário cineasta, e do que ele visionava.

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  1. Concordo com tudo que você falou, exceto sobre os filmes anteriores dele. Pra mim, Amores Brutos e 21 gramas são incríveis, e Babel não fica atrás. Só não vi o Biutiful. A impressão que dá é que ele “se vendeu pra ganhar Oscar”. E ganhou 😛

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