Blade Runner 2049 – Um Novo Unicórnio

Há um novo clássico da ficção científica no pedaço, e eu não quero dizer no canal do Who’s Geek (bom, lá também). Estreou nesta quinta-feira, 5 de outubro, Blade Runner 2049 (EUA/CAN, 2017), do diretor Denis Villeneuve, sequência do icônico Blade Runner – O Caçador de Androides, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1982.  A expectativa acerca desse filme tem sido enorme desde o anúncio de sua produção, talvez a maior da história recente do cinema.

Como criar a sequência de um filme que é considerado um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, sem se cercar de controvérsias? Como agradar aos fãs fervorosos que debatem e discutem e admiram um filme lançado há 35 anos e que ajudou a definir um gênero literário dentro da ficção científica? Decerto, não foi uma tarefa fácil.10

Comparações entre os dois filmes serão inevitáveis, mas é bom dizer que, apesar de várias referências ao clássico de 1982, Blade Runner 2049 está preocupado mesmo em contar sua própria história. Trinta anos se passaram desde os acontecimentos do primeiro filme, e o mundo mudou. Rick Deckard (Harrison Ford) não está só desaparecido: sua existência é, em maior parte, desconhecida. Um blecaute em 2022 acabou com todos os registros, estratos bancários e informações sigilosas, e levou a uma posterior proibição da criação de replicantes (indivíduos criados pela engenharia genética para auxiliar na colonização extraplanetária).

Um magnata da engenharia genética chamado Niander Wallace (Jared Leto) comprou os espólios da corporação Tyrrell do primeiro filme (que foi à falência) e criou  uma nova série de replicantes, igualmente fortes, igualmente inteligentes, mas que não se rebelam.

“K” (Ryan Gosling) é responsável por “aposentar” os modelos antigos. Durante uma missão, ele descobre um segredo que sua chefe (interpretada por Robin Wright) diz ter o potencial de quebrar o mundo. Entre suas missões, “K” passa tempo com sua namorada holográfica, Joy (Ana de Armas) e faz uma segunda descoberta que tem o potencial de mudar sua vida.

Falar mais sobre a trama de Blade Runner 2049, é adentrar o perigoso e indesejado terreno dos spoilers. O que se pode dizer é o seguinte: a continuação do clássico ataca algumas das mesmas questões tratadas no primeiro filme, como “o que nos faz humanos?”, “qual o nosso papel neste vasto e estranho mundo novo?” e “quais as diferenças entre algo que foi criado e algo que nasceu?”.

Gravei um vídeo falando sobre o filme, se quiser dar uma olhada:

BLADE RUNNER 2049 É UMA MARAVILHA TÉCNICA QUE EXPANDE O UNIVERSO DO FILME ORIGINAL

Dizer que Blade Runner 2049 é um filme bonito seria uma atenuação do quão majestosamente o filme é. O diretor de fotografia 13 vezes indicado ao Oscar, Roger Deakins, e o designer de produção Denis Gassner construíram um mundo vasto e complexo baseado na grande metrópole visionada por Ridley Scott 35 anos atrás.

Há mais cenários, mais ambientes, mais camadas de complexidade que vão desde os neons e as propagandas virtuais dispostas nos prédios, até os figurinos meticulosamente trabalhados para funcionarem como uma progressão coerente de uma história que se passa trinta anos no futuro do filme original.

Não há um elemento técnico fora do lugar. A fotografia, edição, figurinos e design de som são impecáveis. Os ambientes de Blade Runner 2049 são um personagem importante dentro da história, assim como no clássico de 1982. Mas assistir à este longa no cinema, principalmente em telas grandes como o Imax é uma experiência diferente de qualquer outra na história recente do cinema, dentro e fora da ficção científica.

A trilha sonora é composta por Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer, e talvez seja o ponto fraco entre os elementos técnicos do filme. Não que ela seja ruim, mas, quando não está emulando a trilha composta por Vangelis, ela oprime o espectador com percussão pesada e fortes guitarras elétricas e batidas eletrônicas. O compositor original do filme, o islandês Johánn Johannsson (que trabalhou na linda trilha de A Chegada) largou o projeto por conta de diferenças criativas. Enquanto a trilha de Wallfisch e Zimmer é bastante funcional, não deixo de me perguntar o que Johannsson teria feito.

Roger Deakins, que é um gênio no uso e composição de luz em suas fotografias, criou um filme cujos visuais são tão imponentes e magníficos que arrancam o ar diretamente de seus pulmões. Fui ver o filme duas vezes no cinema — uma em Imax — e em ambas saí sem fôlego. Não há nada que se compare remotamente à este filme em termos visuais no cinema este ano, nem mesmo o belíssimo Dunkirk, do cineasta Christopher Nolan.

Mas, à parte da minha linguagem hiperbólica, o que se destaca em todo esse visual é como ele é coerente com relação ao primeiro filme. Como se fosse, de fato, uma expansão e uma progressão natural do universo original.

O FILME É ANCORADO POR ÓTIMOS DESEMPENHOS POR PARTE DE TODO O ELENCO

Assim como o filme original, Blade Runner 2049 conta com uma gama de personagens muito interessante. O trio masculino composto por Ryan Gosling, Harrison Ford e Jared Leto certamente ganha destaque, até porque os personagens estão em posição de protagonismo no filme. Gosling tem uma performance detalhista e sutil, mas eficiente, enquanto Harrison Ford apresentou um de seus melhores desempenhos recentes. Jared Leto também marca presença em duas cenas curtas, mas não necessariamente o bastante para causar um impacto duradouro (como Ford o fez).

Mas o filme também conta com um forte elenco feminino e coadjuvante. Quem se destaca é a holandesa Sylvia Hoeks no papel da replicante Luv, uma das principais antagonistas de Blade Runner. Seu desempenho é balanceado e cheio de nuances, às vezes milimétricas, quando ela dá um leve tremor de lábio ou começa a chorar com a expressão facial ainda impassível.

Ana de Armas também tem uma performance delicada e sutil como a namorada holográfica de “K”, chamada Joi. Ela transmite com eficiência a confusão da personagem que ama o protagonista, apesar de não ser real. A cena de sexo entre os dois, no segundo terço do filme, muito provavelmente dará o que falar nos próximos anos.  Robin Wright como a tenente Joshi e Mackenzie Davis, como Mariette, tem atuações marcantes em papeis menores. O filme também conta com a participação especial de Dave Baudista, Lennie James, Carla Juri e Barkhad Abdi. Cada um tem um momento dentro do filme para se expressar, o que cria uma miríade de personagens marcantes.

BLADE RUNNER 2049 PONDERA ALGUMAS DAS QUESTÕES EXISTENCIAIS DO FILME ORIGINAL, MAS SUA PROFUNDIDADE É MAIS EMOCIONAL

Os problemas do filme são encontrados no roteiro, escrito por Hampton Fancher (que também trabalhou no roteiro do primeiro) e Michael Green (que escreveu, junto de outros dois autores, o maravilhoso Logan, lançado este ano). Alguns questionamentos são levantados, mas nunca desenvolvidos e o filme termina com muitas pontas soltas. O ritmo lento e os 163 minutos também podem afastar espectadores mais interessados em um filme de ação.

Seus questionamentos são de ordem ontológica e epistemológica, como no primeiro filme. O que nos torna humanos? e, quais são as diferenças entre o ser humano e uma máquina, quando as fronteiras entre as duas categorias começam a desaparecer?. Não é nada de novo dentro da ficção científica, ou mesmo dentro do subgênero do cyberpunk, até mesmo porque creio que o cyberpunk não é mais tão capaz de gerar questionamentos novos e profundos como era alguns anos atrás; muito por conta dos desenvolvimentos da nossa própria tecnologia.

O surpreendente impacto de Blade Runner está em sua inesperada profundidade emocional. Fãs de ficção científica hard e pseudointelectuais podem achar isso besteira e argumentar que o que torna uma obra de scifi boa, é sua relação com a tecnologia e a ciência. Discordo fortemente dessa noção. Defendo há alguns anos que a boa ficção científica é aquela que fala sobre pessoas, mesmo sob um prisma da nossa relação com a tecnologia. Ela também nunca fala sobre o futuro, mesmo que seus cenários sejam futuristas.

Sob esse aspecto, Denis Villeneuve criou um filme lindo, complexo, cheio de camadas e profundamente humanista nas relações e motivações de seus personagens. Isso foi o que mais me chamou a atenção em Blade Runner 2049. Esqueçam um pouco o design, a trilha sonora, os efeitos especiais e até mesmo a fotografia, se possível. O que mais funciona no filme, apesar de suas imperfeições, é a história.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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