Blade Runner — Lembranças de um futuro

A primeira vez que tive notícia do filme Blade Runner: O Caçador de Androides foi na revista Heavy Metal de junho de 1982. A Heavy Metal era mais do que uma revista de quadrinhos de alto nível — era revista cultural que cobria um certo campo que dava conta das mudanças culturais acontecidas nos Estados Unidos e na Europa, com o movimento punk na música, o cinema de espetáculo de ficção científica e no horror, e o cyberpunk na literatura de ficção científica.

O artigo trazia fotos e desenhos de produção do desenhista industrial Syd Mead. As artes conceituais de Mead me conquistaram de imediato. E eu já conhecia o diretor Ridley Scott do sucesso Alien: O Oitavo Passageiro (1978). A produtora do filme, The Ladd Company, havia lançado no ano anterior um outro excelente filme do período, embora pouco lembrado: Outland: Comando Titânio (de Peter Hyams). Quando Blade Runner estreou no Brasil, arrastei meus amigos para o cinema. Tínhamos 11 ou 12 anos, e me lembro que eles ficaram decepcionados: Blade Runner não fazia parte do cinema espetáculo, nem era um filme sensacional de horror.

Mais cerebral, mais estético, ele exigia mais cultura cinematográfica para identificar suas referências. Para mim, que já era leitor de FC há alguns anos, o estranhamento foi menor – os androides, a cidade distópica, carros voadores e engenharia genética eram temas familiares para mim. A brincadeira de projetar um futuro calcado nos filmes noir da década de 1940 não me passou despercebida, pois já tinha essas referências dos filmes antigos que passavam na TV, e das versões em quadrinhos da ficção de crime.

Acompanhando as críticas e os comentários do filme ao longo dos anos, ficou claro a Ladd Company se preocupava justamente com uma reação de estranhamento e de confusão, da parte do público. De fato, nos Estados Unidos, o filme mal se pagou.

Ao longo dos anos, porém, ele foi adquirindo o status de filme cult dos mais respeitados pela crítica especializada. Assim como outros filmes de ficção científica da época — Star Wars (1977), Alien (1978), Mad Max (1979) e O Exterminador do Futuro (1984) ­—, Blade Runner introduziu novas perspectivas e recursos estéticos para a FC no cinema e na televisão, embora sem necessariamente levar a produções de igual qualidade. A fusão da FC futurista com o film noir voltaria a aparecer em filmes como Repo Man: A Onda Punk (1984), Estranhos Prazeres (1995), Gattaca (1997), Cidade das Sombras (1998) e O 13.º Andar (1999). Os exemplos mais tardios, já quase despidos dos elementos punk, ilustram como Blade Runner estava à frente do seu tempo: eles sugerem o quanto o tema da paranoia de duplos e realidades sintéticas demorou a assentar na consciência de produtores e do público, e então já contíguos ao advento da www.
Blade Runner também se associou, como precursor, ao cyberpunk, movimento que renovou a ficção científica americana na década de 1980. Já é famosa a anedota de que William Gibson, autor do marco Neuromancer (1984), teria saído no meio da exibição do filme para não se deixar influenciar, já que o seu projeto de romance possuía muitos pontos de contato com a visão estética e temática de Ridley Scott. De maneira mais tangencial, K. W. Jeter, autor de Dr. Adder, romance precursor do cyberpunk escrito em 1972, mas publicado apenas em 1984, foi discípulo de Philip K. Dick.

Dick (1928-1982) escreveu o romance que inspirou Blade Runner. O seu Do Androids Dream of Electric Sheep?, de 1968, apareceu no Brasil em 1983 pela editora Francisco Alves, do Rio de Janeiro, como O Caçador de Androides. Ruy Jungman, escritor brasileiro da Geração GRD, traduziu, e Antonio Jeremias fez a ilustração de capa — que emprestava os traços de Marlon Brando para o herói Rick Deckard, e de Catherine Deneuve para a androide Rachel. A editora imprimiu mais três edições até 1989, fato sempre raro no mercado brasileiro de FC. No século 21, a Editora Aleph, de São Paulo, relançou o romance como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

A sua leitura me deixou agradavelmente surpreso. O livro difere substancialmente do filme, e tem uma atmosfera própria, bastante distinta e sugestiva.

O status cult de Blade Runner transbordou para Dick, ampliado pelo fato do escritor ter morrido meses antes da estreia do filme. O escritor já era importante e reconhecido na FC. Seu romance O Homem do Castelo Alto (1962) havia lhe rendido um Prêmio Hugo, e Dick tinha sido um dos destaques do também premiado livro de Brian W. Aldiss, A Billion Year Spree: The True History of Science Fiction, de 1973, suscitando comparações com o mestre canadense A. E. van Vogt. Por sua vez, Ursula K. Le Guin chamou Dick de “o Jorge Luis Borges da ficção científica”.

As características do autor são justamente o ritmo pulp da narrativa e os “jogos de realidade”, levando muitas vezes a uma atmosfera de paranoia e incertezas cognitivas. Esses pontos estão em van Vogt e Borges, mas Dick combinava influências da cultura das drogas que penetrou a ficção americana desde o Movimento Beat na década de 1950, com reflexões filosóficas e um senso de humor só dele. Dick foi um exemplo singular da corrente americana da New Wave na ficção científica — movimento que começou na Inglaterra e que propunha uma aproximação com o mainstream literário mais experimental, cultivava uma atitude contestadora e destacava narrativas em que estados mentais dos personagens transbordavam para o ambiente cultural e físico.

Tudo isso, com o sucesso cult de Blade Runner fornecendo um empuxo extra, tornaram Dick o primeiro escritor de FC a ser incluído na prestigiosa Library of America, coleção de volumes comentados vista como a porta de entrada para o cânone dos grandes autores americanos.

A saga da adaptação do romance para o cinema começa em 1974 com Hampton Fancher — que se tornaria um dos dois roteiristas do filme —, que tenta adquirir sem sucesso os direitos do romance: Dick já os tinha vendido à empresa Herb Jaffe Associates, que produziu um script execrado pelo escritor, num contrato que acabou caducando em 1977. Fancher conseguiu os direitos no ano seguinte, mas Dick também iria rejeitar seus primeiros tratamentos do roteiro. Em Hollywood, o romancista raramente dá palpite nos roteiros, e mesmo quando a produção engrenou no início da década de 1980, Dick só foi procurado pelos publicistas do estúdio quando a adaptação estava sendo filmada.

De modo bastante tardio, portanto, Dick chegou a ver imagens de pré-produção, leu e elogiou o script (depois que Ridley Scott trouxe David Webb Peoples para ajeitá-lo), encontrou-se com Scott e chegou a ver vinte minutos do filme, na fase de pós-produção. A preocupação com a versão cinematográfica de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? não devia ser pequena junto ao escritor, pois ele era um dos seus romances favoritos. Segundo o jornalista Paul M. Sammon, a reação foi mais do que positiva: “Eu senti como se houvesse um conduíte direto entre o meu cérebro e o que eu via na tela”, ele disse. Numa famosa carta escrita ao publicista Jeffrey B. Walker, fã ardoroso de Dick e a pessoa responsável pela interação do escritor ao projeto do filme, Dick declarou: “Eu não sabia que um trabalho meu iria assumir uma escala de dimensões tão espantosas. Minha vida e minha obra criativa estão justificados, e de modo completo, por Blade Runner.”

Dick ambientou a história na cidade de San Francisco, num futuro despovoado pela “Guerra Mundial Terminus” e pela emigração a Marte e outros mundos. Quem ficou é um povo subprime doente e constantemente fustigado por uma poeira tóxica. Blade Runner é ambientado numa Los Angeles de ruas entupidas de gente e molhadas de chuva ácida. O romance menciona brevemente espaços atulhados de sujeira e objetos inúteis; no filme, Scott de algum modo expande a menção para sugerir o isolamento de pessoas em uma Terra despovoada onde há uma oferta de artefatos colecionáveis, que se empilham em recintos e dão a eles uma aura decadentista europeia — muito repetida nos videoclipes da música pop dos anos 1980. À noite, LA é tomada por gangues de crianças ou de anões, e, nos distritos de maior movimento, tribos multiétnicas se acotovelam nos cruzamentos. Sem dúvida, esse lado multiétnico é um dos pontos de contato com o cyberpunk, assim como a tecnologia high-tech lançada no nível das ruas, com oficinas de engenharia genética agrupadas em mercados de pulga. Esse mundo futuro tem o seu próprio dialeto, misturando várias línguas.

No filme, Rick Deckard (Harrison Ford) é um blade runner, um caçador de androides (chamados de “replicantes” no filme, porque Scott achava que a palavra “androide” evocava filmes B). Está aposentado, mas é chamado de volta depois que um ex-colega leva a pior ao testar um replicante infiltrado na sede da Tyrell Corporation. A empresa fabrica os androides da série Nexus-6, top de linha nos esforços de colonização de mundos distantes. Quatro deles, liderados por Roy Batty (Rutger Hauer), desertaram e se infiltraram na Terra, onde sua presença é proibida. No romance, Deckard é casado e está na ativa, quando oito androides são denunciados. Sua esposa, Iran, é uma típica suburbana entediada, que ajusta seus sentimentos em uma máquina sucedânea das drogas moduladoras de humor do nosso presente, para curtir ainda mais a depressão.

Dick integra a partir daí, toques satíricos na sua narrativa paranoica: o mercerismo, religião cibernética que integra consciências por meio de uma máquina, prega a santidade da vida animal para fomentar a empatia. Isso criou um mercado para animais como objetos de status — e outro de imitações mecânicas, para quem não pode pagar por um bicho vivo. O que motiva Deckard antes de qualquer outra coisa, é o dinheiro que ganhará com a eliminação dos androides, para a compra de um animal que possa exibir aos vizinhos. Enfim, no livro o herói não é um tipo alto e másculo como Harrison Ford, mas um homem comum, com uma única descrição no livro a sugerir a influência do anônimo Continental Op da série de histórias de ficção de detetive de Dashiell Hammett, também ambientadas em San Francisco.

O mercerismo não aparece no filme e o comércio de animais é mostrado aqui e ali, mas sem tais conotações. O segundo ponto de vista narrativo do livro, o personagem J. F. Isidore — Sebastian (William Sanderson), no filme —, é transformado de zé-ninguém em gênio da engenharia genética, com acesso ao magnata Tyrell (Joe Turkel). Os replicantes, por outro lado, têm o aspecto físico e funcional exagerado e sublinhado por Scott. São todos altos e fortes; um soldado de elite, um municiador de armas atômicas, uma assassina e uma prostituta militar. No livro, as mulheres são miúdas e magricelas. Apenas Batty se impõe fisicamente, mas trabalha como farmacêutico e vende drogas ilegais. Os androides são vulneráveis às ações de Deckard, mas isso se inverte no filme, com Deckard apanhando de todos os replicantes ao longo do caminho. Há um elemento infantil nos dois times de seres artificiais — uma coisa meio deslocada e esquizoide no livro; certo sadismo brincalhão, no filme (transferido dos animais que os androides torturam no romance, para os humanos no filme). Dick queria que seus androides expressassem a cruel falta de empatia dos carrascos nazistas — analogia que pouco se manifesta no romance. Na obra de Ridley Scott, são pobres os super-homens e mulheres perdidos num contexto que os faz parecerem ratos de laboratório buscando objetivos cegos em labirintos sem propósito.

Mas a decisão mais interessante tomada por Scott pode ter sido a motivação dos replicantes virem à Terra: eles duram pouco mais de quatro anos, e a infiltração na Tyrell busca levantar meios de estender seu tempo de vida. A premissa dá uma tensão maior à sua presença na cidade e aos choques com Deckard. No romance, eles querem atacar o mercerismo e seu teologia da empatia.

Central para o livro, a questão da empatia orbita as situações de Blade Runner. O filme afirma que os replicantes são capazes de desenvolver emoções. São solidários entre si. Mas durante o confronto final, Batty misteriosamente sente empatia por Deckard, o blade runner reduzido a um animal ferido e acuado. A mística dos duelistas que se identificam um com o outro é um clichê de Hollywood — e que Hauer já havia composto com Silvester Stallone no thriller Os Falcões da Noite (1981). Anda assim, esse final é um dos mais belos e intrigantes da história do cinema de ficção científica. Forma um paralelismo parcial com o final metafísico do romance, contando com sua própria sugestão de uma simbologia transcendente.

O romance de Dick se constrói com camadas de reiterações do tema da dúvida cognitiva ou filosófica sobre quem é ou não é humano, orgânico ou artificial, o que pode ou não ser uma experiência real de empatia. Nele, Deckard aos poucos oscila em estender sua empatia aos androides. O filme apresenta o herói já de início hesitante, e é o seu sentimento de angústia mesmo enquanto caça os replicantes, que colore parte da narrativa com a força emocional que Blade Runner possui. O seu caso com a replicante Rachel (Sean Young) é a marca maior dessa ambivalência, a elaborada tramoia de Rachel no livro transformada na angústia da mulher que não sabia ser artificial.

Embora uma “novelização” do filme, escrita por Les Martin, tenha surgido no ano do seu lançamento, e apesar de K. W. Jeter ter escrito sequências em cima das situações do filme, nada disso parece ter afetado a vinculação entre Blade Runner e Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, obras substancialmente diferentes entre si, nem por isso deixam de se associar de maneira muito estreita, uma reforçando a importância da outra, ao longo dos anos. Como gêmeos siameses de raças diferentes.

Em 2007, Ridley Scott trouxe mais uma obra a esta conversação: a versão “corte do diretor”.

Em 1982, a Ladd Company havia expressado suas dúvidas quanto ao aspecto enigmático do filme, pedindo que Ford fizesse uma narração em off reforçando certos sentidos. À moda dos antigos detetives do cinema noir da década de 1940, uma referência perseguida pela narrativa do filme, ela funcionava muito bem nesse sentido — apesar do boato de que o descontente Ford havia feito a narração de má vontade. A versão do diretor não tem esse truque, e contém duas cenas envolvendo um unicórnio, que lançam a hipótese de que Deckard seria ele mesmo um replicante. Na primeira, ao piano, ele sonha acordado com um unicórnio branco. Na segunda, o policial Gaff (Edward James Olmos), sempre zombando do herói com origamis, deixa em seu apartamento o origami da criatura mitológica. Como ele poderia saber, se não tivesse acesso a falsas memórias pertencentes a Deckard?

E por que um unicórnio, em primeiro lugar? Provavelmente, Scott fazia uma autorreferência: na mesma época ele trabalhava no argumento do filme de fantasia A Lenda (1985), em que aparecem unicórnios. Mas também pelo simbolismo da criatura, representante do milagroso e do mágico. Funciona como símbolo de esperança, o impulso utópico que aquece o coração de Deckard, quando ele parte buscando uma vida, ainda que breve, com Rachel. Na versão original, essa esperança é expressa numa cena imposta pelos produtores, em que o casal aparece se movendo contra uma floresta verdejante. As duas versões funcionam muito bem, ao ponto do “corte do diretor” parecer um luxo meio supérfluo.

Parte da magia desse filme clássico está na profundidade existencial que os personagens parecem projetar, contra um cenário de relações humanas e de tecnologia que parecia estar virando a esquina. Mesmo o laconismo desajeitado dos diálogos que Ridley Scott às vezes parece privilegiar, não consegue arranhar o lustre dessa ficção científica de aparência tão humana e visionária.

Agora, trinta e cinco anos depois, com Blade Runner 2049, do cineasta canadense Denis Villeneuve, ainda uma outra obra cinematográfica vem se unir a essa conversação. Sendo uma sequência cronológica ambientada trinta anos depois do filme de Scott, pode estar mais longe do original e do romance que lhe deu origem, do que o primeiro filme e o livro jamais estiveram um do outro. Mas vem tentar realizar a sua própria magia.

Um novo unicórnio.

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

Um comentário em “Blade Runner — Lembranças de um futuro

  • 06/10/2017 em 12:51
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    Causo, resenha Nota 10. Parabéns!

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