A Bruxa – Terror inteligente, enfim

Muito tem se falado sobre o filme de terror A Bruxa (The VVitch – A New England Folktale, ING/EUA, 2015) do diretor Robert Eggers. Ele foi aclamado pela crítica nos últimos meses após eu lançamento em larga escala nos Estados Unidos em fevereiro deste ano, e levou o prêmio de Melhor Diretor no festival de Sundance em janeiro do ano passado. Ele também foi um sucesso doméstico de bilheteria (muito por conta do fato de se comunicar diretamente com o folclore americano), custando 3,5 milhões de dólares e, em menos de um mês, já arrecadando 20.

Toda essa repercussão, aliada ao sucesso comercial, gerou grandes expectativas com relação à A Bruxa. Filmes de terror genuinamente bem feitos, inteligentes e, de fato, assustadores, são raridade em uma geração mais preocupada com sangue, vísceras e sustos baratos do que com histórias genuinamente perturbadoras e bem realizadas. Bom, é com muita satisfação que posso dizer que A Bruxa é um filme que veio para quebrar as expectativas dos fãs de filmes de terror tradicionais .

Ambientado na Nova Inglaterra em 1630, o filme brinca com a primeira histeria na América Colonial, 62 anos dos “Julgamentos de Salem” em Massachussets. Uma família, recém vinda da Inglaterra, é expulsa de sua colônia e obrigada a viver isolada próxima de uma floresta. O patriarca da família, William (Ralph Ineson), e sua esposa Katherine (Kate Dickie), decidem fazer de uma plantação de milho o seu sustento. No entanto, a plantação não dá certo, a fome aumenta e, pouco depois, o filho mais novo da família, ainda bebê, desaparece.

As coisas começam a piorar a partir daí, e o filme é uma desgraça em cima da outra por uma hora e meia. Logo, as suspeitas da família começam a recair sobre a filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy) cuja crescente beleza parece alheia aos problemas da família. Paulatinamente, o ambiente familiar torna-se um lugar de inveja e suspeitas infundadas que recaem principalmente sobre a garota.

Daí pra frente, o filme envolve violência, suspeitas de possessão demoníaca, um bode chamado “Black Phillip” e, meticulosamente, constrói um senso de suspeita em todos os personagens. Falar mais seria adentrar o território dos spoilers, mas o que pode ser dito é que Robert Eggers não precisa de truques baratos para deixar o expectador genuinamente perturbado: ele nos mergulha em algo que nós não deveríamos estar vendo e o resultado é aterrorizante.

A Bruxa é um filme detalhadamente trabalhado e bem conduzido. Possui um ritmo cadenciado, uma fotografia sombria e naturalista e uma trilha sonora enervante. Em sua proposta aparentemente superficial, o filme fala de uma época muito dura onde os pioneiros ingleses do século XVII se viam as voltas com a solidão, com o trabalho intenso, a fome, a religiosidade rígida e a sexualidade reprimida, abrindo assim as portas para um mal avassalador.

Com confiança excepcional, Eggers conduz seu primeiro filme sem pestanejar e sem tropeçar em nenhum momento, especialmente no final, onde a maioria dos filmes de terror derrapa. Acima de tudo, ele é astuto ao enervar o espectador com as terríveis possibilidades de sua história. E, por fim, te aterrorizar de verdade, quando você descobre que elas são reais.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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