Capitão América – Guerra Civil: o Mundo em que Vivemos

Quando Capitão América: O Soldado Invernal foi lançado em 2014, eu comentei que ele era um filme filho de Jason Bourne, e que Bourne, que retorna aos cinemas estrelando Matt Damon ainda este ano, era o herói mais influente do século XXI. Eis que Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, EUA, 2016) não só corrobora essa afirmação, como coloca os filmes de super-heróis em um novo patamar, ao apresentar um Capitão América (Chris Evans) altamente politizado, ideológico e em sintonia com o mundo em que vivemos hoje.

Em um ano em que já tivemos Batman vs Superman fugindo totalmente de qualquer conotação política (confira a resenha completa, aqui), Guerra Civil mostra nivela a diferença entre o universo cinematográfico da DC e o da Marvel. Muitos fãs devem acreditar que uma comparação entre os dois estúdios é inviável, mas isso não é verdade. Enquanto o universo da DC está engatinhando, o da Marvel já se encontra plenamente estabelecido e com muito mais coerência interna do que os rivais.

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É fato que Capitão América, contrário à todas as expectativas, se tornou o personagem mais interessante dos Vingadores. Muito por conta da atuação carismática de Chris Evans, mas também pela inteligência dos roteiristas em transformar o personagem num herói que  precisa enfrentar os perigos do século XXI e, acima de tudo, ser um herói para o século XXI.

Após os eventos de Vingadores: Era de Ultron (2015), a Organização das Nações Unidas (ONU) quer restringir as ações dos Vingadores. Sensibilizado com a morte de um civil durante a batalha contra Ultron, Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem de Ferro, se mostra favorável à regularização dos heróis. Seus argumentos são válidos. Os Vingadores atuaram com total liberdade e sem supervisão e o resultado foi um aumento considerável de eventos catastróficos (conforme explica Visão, interpretado por Paul Bettany) e, consequentemente, da morte de civis.

Já, Steve Rogers acredita que a Organização das Nações Unidas é movida por meio de interesses, e que interesses mudam. É uma constatação mais pessimista, porém mais realista que a de Tony Stark sobre o mundo no qual eles vivem. Dessa forma, começa o embate entre os dois super-heróis que, ao contrário da disputa entre o Batman e o Super-Homem no filme de Zack Snyder, é um embate ideológico. E, mais importante ainda, é um embate capaz de confundir o espectador sobre qual lado ele está torcendo.

O filme constrói uma tensão crescente entre dois grupos de personagens que “racham” os vingadores ao meio. Falar mais sobre o que acontece é cair de cabeça no reino dos spoilers, mas é seguro dizer que há o interesse de outros indivíduos em desestabilizar os Vingadores e, embora as  motivações do vilão sejam fracas, ele é um personagem surpreendentemente inteligente e bem trabalhado (para o panteão de vilões fracos e desinteressantes que a Marvel constantemente tem criado – com exceção de Loki).

Os irmãos Anthony e Joe Russo, que construíram suas carreiras dirigindo séries de comédia (como Community Arrested Development) assumiram as rédeas dos filmes do Capitão América já em O Soldado Invernal e provaram mais uma vez que são os caras corretos para o trabalho. Os dois conseguem mesclar humor, drama e coerência narrativa nas medidas certas e filmam com uma movimentação de câmera surpreendente e que espelha os grandes diretores de ação da atualidade como George Miller (Mad Max) e Paul Greengrass (Jason Bourne).

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Mais ainda, eles fizeram com que Guerra Civil fosse um filme surpreendentemente triste, construindo camadas de complexidade sobre as relações entre os personagens. Souberam também dirigir os atores para que todos os inúmeros personagens tivessem suas chances de aparecer e deixar seus impactos (o que é bastante para um filme que estrela Robert Downey Jr.). Além dos ótimos desempenhos dos dois protagonistas, ficam em destaque Paul Bettany (sempre perfeito como Visão) e Elizabeth Olsen (Feitiçeira Escarlate), além de Sebastian Stan (maravilhoso como o Soldado Invernal) e Daniel Brühl, como o antagonista. O que poderia ter sido o maior fiasco da Marvel até agora, pela quantidade de personagens e situações envolvidas, tornou-se o filme mais completo e inteligente do estúdio.

Guerra Civil é tudo o que Batman vs Superman gostaria de ser, mas não é. Culpa de bons roteiristas, bons diretores e bons atores que se mostraram absolutamente comprometidos com o material que tinham em mãos e em contar uma boa história de uma boa maneira. Batman vs Superman é um filme para fanboys que querem ver dois grandes personagens se enfrentando em combates espetaculares. Guerra Civil, por sua vez, está mais preocupado em explorar como eles afetam o mundo em que vivem, e vice-versa, sem sacrificar o humor, a diversão e, principalmente, a inteligência.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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