Cecília Favo de Mel – Mulheres nos games

Os jogos brasileiros têm conquistado bastante espaço no mercado mundial nos últimos anos. O interesse dos gamers em criar seus próprios jogos junto com incentivos financeiros, tanto do governo como de companhias privadas, também tem sido um importante fator para que os games brasileiros cresçam e alcancem jogadores de vários países.

É o caso de The Sentient, game indie de exploração espacial que entrou para o Greenlight do Steam em 11 de setembro deste ano. Um dos artistas que trabalharam no jogo é a brasileira Cecília Favo de Mel, especializada em Pixel Art e que já trabalhou em jogos como Swords and Potions e Dark Souls I e II.

A jornalista Yolanda Moretto, colaboradora doWho’s Geek, conversou com ela para conhecer mais sobre The Sentient e o processo de criação. 516249023_preview_MissionBriefing

Who’s Geek
Como foi trabalhar na criação do jogo The Sentient?

Cecilia
Eu trabalhei no game, mas o game mesmo é dirigido pelo meu cliente. Eu tenho meus projetos, mas por hora só faço pixelart pros games do pessoal indie, vivo disso.

Who’s Geek
Como esse processo funciona? Os clientes te chamam com uma ideia e você desenvolve?

Cecilia
Depende do cliente, alguns já tem tudo em mente e até o sprite base e só me pedem pra animar, é cansativo (risos). Outros me pedem pra criar o visual dos personagens do zero (adoro fazer isso) e outros vem com concept art e me deixam trabalhar com certa liberdade usando o concept como mera base. Muitos aceitam sugestões ou mesmo me consultam sobre outras areas como plot e gameplay, o que é muito legal. Neste game tem sido um misto dos três, às vezes tem concept, as vezes só um “preciso de uma nave” e às vezes tem tudo bem explicado e detalhado.

Who’s Geek
O que é preciso estudar para criar games?

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Para trabalhar em um time, existem diversos segmentos. Podemos focar em um ou mais. Da minha parte, o que sei fazer é arte – concept art, pixelart e edição de imagens, lógica de programação (e com as engines atuais sabendo lógica já ajuda muito), escrita e roteiro e por fim a parte de gameplay em si, que se refere ao que seria ou não interessante ter num game. Vale notar que apenas uma parte disso aprendi com cursos, anos atrás não tínhamos as opções que temos agora.

Who’s Geek
Sobre The Sentient especificamente, o que você pode contar sobre ele e sobre como foi trabalhar nele?

Cecilia
O game em si é um misto de estratégia com exploração espacial e eu fui chamada justamente por me especializar em arte sci fi, adoro robôs, naves e afins. O trabalho tem sido bastante envolvente, já que apesar do cliente ter algumas artes iniciais prontas eu tive liberdade criativa nos designs de quase tudo o que fiz.

Em especial os exo suits que os pilotos/soldados usam pra combater no espaço e os interiores de naves, incluindo as alienígenas. E falando em alienígenas, foi desafiador desenhar os retratos dos aliens pras cenas de comunicação, dar vida e variedade a eles. Também pude opinar um pouco sobre a interface. O Keith, que é quem organiza todo o trabalho, é muito educado e super tranquilo na comunicação, nunca tivemos mal-entendidos e nem problemas com pagamento.

Who’s Geek
Você chegou a participar também do processo para colocar o jogo no Steam?

Cecilia
Dessa parte, não. Inclusive eu já sabia que ia pra o Greenlight há um mês, mas só hoje recebi o link de que estava lá. A mesma coisa com os outros dois games nos quais trabalhei e estão já disponíveis na Steam, Saturday Morning RPG e The Viceroy. E The Sentient tem pouco tempo no site e está tendo uma excelente repercussão.

Who’s Geek
Qual é a sensação de ter jogos em uma plataforma internacional como o Steam? 11703160_566468676828913_205929820071030073_n

Cecilia
É maravilhoso. Em primeiro lugar por que hoje sou exclusivamente pc gamer, então o Steam e eventualmente a GOG são as plataformas onde busco games. Deixar de ser mera consumidora e passar a fazer parte da produção de conteúdo – em especial conteúdo de meu interesse – é algo único.

Lembro da adolescência quando eu imaginava poder trabalhar em Final Fantasy ou Megaman X e hoje o mercado indie pra mim supera tudo isso em diversidade, então é mais que equivalente.

Who’s Geek
Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?

Cecilia
Eu gostaria de acrescentar que o mercado indie é um cenário legal pra inclusão, tem muitas oportunidades e que espero que eu, uma moça trans, trabalhando na área, seja apenas o inicio pra que muitas moças possam ingressar e conquistar nosso espaço, seja com arte, programação ou música.

Você pode conferir outros trabalhos da Cecília aqui.

Yolanda Moretto

Jornalista, geek, rato de biblioteca, gamer. Formada pela Faculdade Cásper Líbero, atualmente estuda Ciências Sociais na USP e trabalha com assessoria de imprensa.

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