Círculo de Fogo: Suspensão de Descrença

Círculo de Fogo, do cineasta Guilhermo Del Toro deve agradar aos fãs mais ávidos do gênero de Robôs Gigantes, mas para todos os outros, é uma bagunça longa e barulhenta

Círculo de Fogo (Pacific Rim, EUA, 2013) é, de muitas maneiras, como revisitar o seu desenho favorito de infância. Mechas, ou robôs gigantes pilotados por humanos, fazem parte da cultura pop japonesa há muitos anos, e, nas últimas três décadas caíram no gosto ocidental. Eles já foram analisados, desvirtuados e subvertidos de muitas maneiras, com resultados catastróficos e geniais, como Neon Genesis Evangelion e Patlabor, por exemplo.

Não obstante, o gênero do robô gigante talvez faça mais sentido num contexto asiático. Marcado por um exponencial crescimento no desenvolvimento tecnológico, o robô gigante tornou-se ícone do ressurgimento japonês no pós-Segunda-Guerra. O que talvez explique por que ele faz tanto sucesso no Japão, mas não necessariamente nos Estados Unidos.

É desse problema – e outros – que sofre o novo filme do diretor Guilhermo Del Toro. Del Toro é um dos cineastas mais imaginativos da atualidade, mas é muito constante. Sua única obra-prima, O Labirinto do Fauno, se destaca como o trabalho que marcou – e provavelmente marcará – toda a sua carreira, enquanto Hellboy 1 e 2 são dispensáveis, e tudo antes disso é desconhecido (incluindo Blade). 

Da mesma falta de inteligência que sofreram os dois longa-metragens de Hellboy, sofre Círculo de Fogo. É discutido que o filme não tem neurônios, mas eu discordo. Ele tem pelo menos dois, e eles são usados para encher monstros alienígenas gigantescos de porrada. Mas o filme faz uso de clichês dispensáveis, como cientistas malucos e pilotos rebeldes, e os diálogos são inexpressivos.

Num futuro não muito distante, um portal entre duas dimensões se abriu no Oceano Pacífico. O que veio de lá é gigantesco e ameaçador. Gigantescos monstros chamados de Kaiju surgiram pela primeira vez em São Francisco com resultados catastróficos. Para detê-los, a humanidade criou robôs igualmente grandes, chamados de Jagers.

Raleigh Becket (Charlie Hunnam) e seu irmão, Yancy (Diergo Klattenhoff) são os dois melhores pilotos de Jager do mundo. Cada um desses robôs precisa de pelo menos dois pilotos para ser operado: para serem acionados, eles precisam de um link mental que é forte demais para uma única pessoa. Tudo vai bem até que um ataque feroz de um Kaiju conclui com a morte de Yancy. Raleigh não apenas presenciou a morte do irmão, mas foi capaz de sentir o que ele sentiu em seus derradeiros minutos.

Consequentemente o rapaz largou  a profissão e se meteu a construir muralhas com a promessa de deter os gigantescos Kaiju. No entanto, é resgatado pelo comandante Stacker Pentecost (Idris Elba) para pilotar o antigo mecha numa última tentativa de destruir os Kaiju completamente.

À parte das analogias feitas à Neon Genesis Evangelion (não vamos nos deter do porquê de Evangelion NÃO ser um mecha) o filme é uma sequência de clichês não muito bem construídos, embasados em atuações não muito expressivas. O que segura Círculo de Fogo da catástrofe total são as cenas de ação brilhantemente orquestradas pelo diretor Guilhermo Del Toro e fotografadas por Guilhermo Navarro: a cena em que dois Kaiju enfrentam um robô gigante em Hong Kong é de tirar o fôlego, ao mesmo tempo em que é embebido em poesia visual. A imaginação de Del Toro se concretiza nesses momentos, e a equipe de efeitos visuais faz um bom trabalho em descrever os robôs como coisas grandes e pesadas, mas ao mesmo tempo com movimentos fluídos.

Círculo de Fogo requer um tipo de suspensão de descrença muito complicado de se atingir. Se o espectador conseguir passar do fato de que um robô gigante pega um navio para usar como um taco contra um alienígena igualmente grande, os diálogos ruins, as atuações canastras e a trilha sonora sem imaginação, ele terá diversão garantida e em altas doses. É a única coisa que Círculo de Fogo se propõe, afinal: diversão. Caso contrário, são duas horas e tanto de muito barulho por nada.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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