Corações de Ferro

Sendo o mais pragmático possível, filmes de guerra constituem um gênero difícil de filmar. Até por que, é um dos gêneros mais filmados da indústria do cinema, criando uma amostragem grande demais para ser mensurada. Os melhores exemplares de filmes bélicos costumam ser aqueles que mostram algum tipo de conflito ou dilema ético, que se utilizam de pontos de vista diferentes do soldado norte-americano (seja esse o de outro soldado, ou de um civil frente à guerra), ou que possui momentos de realismo mágico, na busca de mais originalidade.

É com bastante desgosto que aviso de antemão que Corações de Ferro (Fury, EUA, 2014) do diretor e roteirista David Ayer (Dia de Treinamento) não é nenhuma das coisas citadas acima. Em termos de originalidade, aliás, Corações de Ferro parece não ter encontrado um clichê que ele não abraçou. Ele não possui a intensidade realística de O Resgate do Soldado Ryan, nem a as peculiaridades absurdas de Três Reis, nem os febris dilemas de Apocalipse Now. No máximo, o que Corações de Ferro possui é uma “nova” proposta.

E por nova, eu quero dizer “incomum”. Filmes de guerra que se passam dentro de tanques existem, porém são raros. Este é um deles. Mas isso não é particularmente um ponto positivo. Don “Whardaddy” Collier (Brad Pitt) e sua tripulação, “Bible” (Shia LaBeouf), “Gordo” (Michael Peña) e “Coon-Ass” (Jon Berthal) acabam de voltar de uma missão dentro do coração da Alemanha nos estágios finais da Segunda-Guerra Mundial, onde perderam seu piloto auxiliar que é substituído por um jovem inexperiente chamado Norman (Logan Lerman). Sem nunca ter entrado em combate antes, Norman é apresentado como um jovem patético e medroso a princípio. Don, líder do grupo, decide transformá-lo em um soldado de verdade.

Para tanto, ele obriga o garoto a cometer algumas atrocidades, como assassinar um prisioneiro alemão desarmado e convencê-lo de que todos os alemães são nazistas que estão lá para matá-lo, a menos que ele os mate antes. Assim, os cinco tripulantes do tanque Fúria, que dá nome ao filme, seguem de missão a missão até que são compelidos a defenderem sozinhos uma encruzilhada contra mais de 300 soldados alemães fortemente armados.

Em seu melhor momento, Corações de Ferro é uma representação cinematográfica dos efeitos psicológicos da Guerra. Não obstante, ele acumula clichês, personagens rasos, situações mal dirigidas intercaladas com cenas de batalhas mais ou menos bem orientadas, que limitam os aspectos dramáticos da obra. É uma pena maior ainda, que o filme de guerra sobre tanques que o precede, seja exatamente o oposto.

A Fera da Guerra (The Beast of War, EUA/RUS, 1988) é tudo o que Corações de Ferro não é. Para começar, se passa durante a Guerra do Afeganistão na década de 1980, sob o ponto de vista de um grupo de soldados da União Soviética. O protagonista, Korvenchenko (Jason Patric), muito como Norman é um soldado inexperiente que observa seu comandante Daskal – muito parecido com o personagem de Brad Pitt – cometer as maiores atrocidades até que ele diz “não”, e deserda, se aliando aos afegãos.

Propostas semelhantes, porém, desenvolvidas de maneiras inteiramente diferentes. David Ayer, roteirista de Dia de Treinamento, consegue colocar intensidade aos combates e claustrofobia ao interior do tanque. No entanto, deixa de lado justamente o componente humano, e os dilemas éticos envolvidos em situações tão extremas que abririam inúmeras possibilidades narrativas.

Sua conclusão é de que a Guerra é um processo desumanizador. De fato. Mas os melhores filmes de guerra são aqueles que encontram vislumbres de humanidade nesses momentos mais desumanizantes, ou que aprofundam os efeitos psicológicos (quiçá espirituais) que a Guerra trás nos soldados, ou nas pessoas que a presenciaram. Muito ao contrário de A Fera da Guerra, Corações de Ferro é um filme que nada trás de novo. Opaco, vazio, desprovido de profundidade, ou mesmo, humanidade.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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