Ditadura No Ar — herói nas ruas sórdidas da ditadura

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Capa: Rafael Vasconcellos
Capa: Rafael Vasconcellos

A Editora Draco colocou na praça o livro de quadrinhos Ditadura no Ar: Coração Selvagem, de Raphael Fernandes & Rafael “Abel” Vasconcellos. Reúne quatro episódios da minissérie independente que já rodava por aí desde 2011, e que rendeu a Fernandes o Troféu HQMix 2013 de Roteirista Novo Talento. Compõe, é claro, uma história completa, com começo, meio e fim, com texto e arte revisados para essa edição.

Essa história se passa em São Paulo durante o regime militar, “anos de chumbo” mesmo: é 1969, logo depois do AI-5. O herói é o jornalista fotográfico Félix Panta, às voltas com o desaparecimento da sua namorada, a militante comunista Nina Coimbra. Félix sabe que ela foi levada pelo DOI-CODI, um dos mais infames órgãos da repressão. Ele fotografa as indiscrições extra-conjugais do Major Silveirinha, planejando chantageá-lo para que solte a garota, que ele conheceu em um salão de sinuca.

A ditadura militar é um assunto que não sai da consciência nacional, e que deveria aparecer com mais frequência na ficção política brasileira. A abordagem de Ditadura No Ar é a da ficção de crime, com alusões estéticas ao “policial noir” do cinema — daí, inclusive, o brincadeira com a homofonia entre “noir” e “no ar”. “Ditadura no ar” também sugere o clima pesado daquela época, sofrido por quem entrasse na mira da violência institucional, e é justamente esse clima que a HQ explora com eficiência e dramaticidade.

Félix é o detetive noir da história: um homem duro, bocudo e determinado. É rápido com as mãos e aguenta o castigo, mas a dupla Fernandes & Vasconcellos não esquece de lhe dar um lado divertido. Grandalhão, Félix dirige um minúsculo Gordini 1966; machão, suporta abuso verbal da namorada. É claro, como todo herói noir, é secretamente um romântico estoico e solidário.

A história, porém, é um implacável mergulho nos porões da ditadura. Félix é ele mesmo preso e torturado, visita o refúgio de um guerrilheiro caçado pelos militares, tem atrito com um ricaço autoritário (lembrando o conservadorismo patriarcal que apoiou a ditadura), e é jogado na fogueira pelo editor do jornal O Pastiche —referência a O Pasquim, que marcou época ironizando a ditadura. O assustador confronto final de Félix com Silveirinha é de provocar calafrios.

O desenho áspero mas expressivo de Abel Vasconcellos às vezes lembra o do espanhol Jordi Bernet na cruenta série Torpedo 1936, escrita por Enrique Sánchez Abulí. Seu olho para o detalhe histórico e os valores tonais das cores ajudam a jogar o leitor no clima daquela época.

A narrativa de Fernandes & Vasconcellos é dura e seca como cabe ao assunto. Mas ela provavelmente seria menos noir e mais fraca se não fosse a expressividade das trocas de fala entre os personagens. Muitos escritores brasileiros que se metem na ficção de crime se esquecem de que o wisecracking — as falas espirituosas, irônicas e com troca de farpas — é um dos elementos estruturais da ficção hard-boiled. Em Ditadura No Ar: Coração Selvagem, Fernandes mostra que sabe empregar o recurso como raramente se vê, adaptando-o para um português cortante e boca-suja. Além disso, ele tem uma das narrativas mais seguras e econômicas dos quadrinhos brasileiros atuais, e sua associação com a Draco está rendendo grandes frutos. Já resenhamos aqui o seu Apagão, uma ficção científica distópica com arte de Camaleão.

Gostei muito de acompanhar os passos de Félix Panta pelas mean streets de São Paulo sob o regime militar. Essa história em quadrinhos é uma realização em si mesma, mas a gente sente o filmão que ela renderia, se adaptada para o cinema. Nos textos finais do livro, Raphael Fernandes recorda a importância de não deixarmos no esquecimento a violência dos Anos de Chumbo da ditadura. Especialmente nos anos mais recentes, em que a direita parece reavivada, e o discurso da volta dos militares ao poder fez um triste retorno ao debate político.

— Roberto Causo

Ditadura No Ar: Coração Selvagem, de Raphael Fernandes & Rafael Vasconcellos. São Paulo: Editora Draco, 1.ª edição, 2016, 104 páginas. Capa de Rafael Vasconcellos. ISBN: 978-85-8243-180-1

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