Elysium: Efeito Bourne?

Em seu segundo trabalho, o cineasta sul-africano Neil Blomkamp decide atacar o sistema público de saúde, mas o resultado é um filme maniqueísta e incompleto. Orçamentos inflacionados não necessariamente significam filmes melhores. Aliás, muito pelo contrário. Elysium (Eylsium, EUA/AFR, 2013) do diretor sul-africano Neil Blomkamp, é, infelizmente, mais uma constatação desse fenômeno.

Alguns anos atrás, após o fracasso da produção de um longa-metragem baseado no videogame Halo, Blomkamp foi presenteado pelo produtor Peter Jackson (diretor da trilogia O Senhor dos Anéis) com 45 milhões de dólares, um orçamento pífio perto das mega produções hollywoodianas, e total liberdade criativa. O resultado foi o soberbo Distrito 9, uma crítica social embebida na mais pura, suja e violenta ficção científica, que veio a se tornar, provavelmente, a candidata mais improvável ao Oscar de Melhor Filme da história, em 2010.

Se em Distrito 9 Blomkamp decide atacar o apparteid, que aliás, é consideravelmente próximo da realidade do cineasta nascido em Johanesburgo, em Elysium ele decide atacar o sistema público de saúde. O resultado, no entanto, é insatisfatório, sendo que o filme saiu maniqueísta, desprovido de alma e com problemas sérios de roteiro.

Max da Costa (interpretado por Matt Damon) é um ex-ladrão de carros que tenta viver uma vida normal numa Terra suja e superpovoada, enquanto os ricos vivem em uma estação espacial chamada Elysium, desprovida de guerras e de doenças. Quando um defeito na fábrica onde ele trabalha coloca Max à beira da morte, todas as cartas caem do baralho quando ele descobre que tem apenas cinco dias de vida. A única possibilidade de uma cura é Elysium, e ele fará de tudo (mesmo) para chegar lá.

Isso inclui reagrupar-se com seus velhos amigos dos tempos de ladrão de carros e usar um traje mecânico que é ultra-dolorosamente implantado em seu corpo e sair à caça de John Carlyle (William Fitchner), CEO de uma das mais imporElysium, onde, ironicamente, Max trabalhava. Se ele e Spider (o brasileiro Wagner Moura) conseguirem acessar as informações que estão na mente de Carlyle (inserido um cabo USB diretamente em seu cérebro, quer ele queira, ou não), eles podem mudar o jogo.

Mas é claro que os burocratas de Elysium, que incluem a infeliz, canastra e impiedosa primeira-ministra Delacourt (Jodie Foster) não estão muito dispostos a perder seu paraíso anticéptico (ou talvez seja um silencioso inferno, embora seja difícil dizer). Como acontece com grandes forças de Estado, ela se usa de um mercenário sádico (o soberbo Sharlto Copley) chamado Kruger, para resolver a situação. Não importa quantas pessoas sejam assassinadas, torturadas ou estupradas no processo, pois a vida na Terra é incrivelmente dispensável.

Com tantas qualidades – atuações espetaculares de Matt Damon, Sharlto Copley e Wagner Moura, quem diria – e críticas sociais envolventes, é de se surpreender que Elysium não tenha sido melhor do que foi. Não é por falta de promessa de um cineasta talentoso, mas a falta de texto é o que mais prejudica essa super-produção. Um filme não se vive de xingamentos, correrias e explosões, como Michael Bay já cansou de provar. E o final é perigosamente ingênuo, embora a jornada até ele seja, de fato, alucinante.

Elysium pode até ser um antídoto para demais produções de ficção-científica que falharam em conquistar as bilheterias em 2013, como Depois da Terra e Oblivion. Não obstante suas qualidades técnicas, Elysium não surge como a obra revolucionária que foi seu predecessor, Distrito 9, mas sim como uma oportunidade desperdiçada.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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