Noite estranha dá a Spotlight Oscar de Melhor Filme

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Foi uma noite estranha para o Oscar. O discurso de abertura feito por Chris Rock, reconhecendo a falta de atores negros na premiação mais prestigiada do cinema, pareceu algo saído da série Black Mirror. A comunidade negra reconhece o problema, mostra disposição e bom humor para enfrentar a situação durante a premiação, mas, dificilmente, isso trará resultados a curto prazo.

Ficou mais estranho a partir daí.

Mad Max leva ouro, mas não O Ouro

Mad Max: Estrada da Fúria, disparado o melhor filme de 2016, levou nada menos que seis prêmios do Oscar (Melhor figurino, maquiagem, montagem, som, edição de som e direção de arte). Isso rendeu piadas por todo o twitter, pessoas achavam que ele poderia levar Melhor Filme. As vitórias nas categorias técnicas renderam piadas até na premiação do Oscar. Mas, mesmo assim, Mad Max não levou em três categorias muito importantes: efeitos visuais que, surpreendente (e injustamente) foi para Ex Machina; melhor diretor, que foi para Alejandro G. Iñárritu, de novo; e melhor filme, que eventualmente foi para Spotlight.

Dessa forma, Mad Max fez uma façanha semelhante à de Gravidade dois anos atrás. Na premiação realizada em 2014, o filme do mexicano Alfonso Cuarón ganhou SETE Oscar, incluindo melhor diretor, apenas para ver Doze Anos de Escravidão levar melhor filme. A obra vencedora levou apenas dois outros prêmios (roteiro e atriz coadjuvante). Este ano, Spotlight levou apenas mais um (melhor roteiro original). Qual é a lógica disso?

Iñárritu leva o Oscar pelo segundo ano seguido

Para aqueles que acharam Birdman duas horas de tédio pretensioso (como eu) ver o mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu levar o Oscar de Melhor Diretor pela segunda vez seguida – e por outro filme tedioso e pretensioso – foi difícil de engolir. Não obstante, mostra a força do cinema e dos cineastas latino-americanos. Dois mexicanos (o outro foi Cuarón) foram responsáveis pelas últimas três vitórias nessa categoria. Iñárritu, por sua vez, estabeleceu um recorde, tornando-se o único diretor da história a levar o prêmio duas vezes seguidas. Bom pra ele.

Morricone ganha o Oscar aos 87 e Stallone é esnobado

Como eu disse antes, foi uma noite estranha. Aos 87 anos, Ennio Morricone ganhou seu primeiro (e, provavelmente, último), Oscar pela trilha sonora de Os Oito Odiados de Quentin Tarantino. O maestro estava presente na premiação e recebeu o prêmio chorando, antes de dar um emocionante discurso de aceitação. Foi um momento muito bonito, talvez o mais bonito da noite, apesar deste não ser seu melhor trabalho.

Morricone havia sido indicado cinco vezes antes. E mereceu ganhar por cada uma delas. O Oscar este ano foi um prêmio em reconhecimento ao seu incrível trabalho: mais de 500 filmes em sete décadas de atuação. Ele foi o favorito na noite do dia 28, e, mesmo que sua trilha não fosse necessariamente a melhor das cinco indicadas, o fato de Morricone ter ganhado o prêmio é um sinal de uma justiça sendo finalmente feita.

Já outro favorito, Sylvester Stallone, não teve tanta sorte. O ator de 69 anos parecia pronto para ganhar seu primeiro Oscar, desta vez de ator coadjuvante, 39 anos depois de sua primeira indicação. Curiosamente, seria pelo mesmo papel, o de Rocky Balboa, que o consagrou em 1976. Mas, desta vez, pelo filme Creed do cineasta Ryan Coogler. Mas não.

Há quem diria que havia opções melhores. Tom Hardy, por exemplo, ganhara muito ímpeto nas últimas semanas pelo seu desempenho em O Regresso (onde ele está melhor que DiCaprio). Mark Ruffallo também despontava como um forte candidato. Mas todos tiveram que abrir caminho para a surpreendente vitória de Mark Rylance, possivelmente o menos badalado dos cinco indicados. Foi uma surpresa, sim, numa categoria que gosta de brincar com a imaginação alheia: em 2013 o favorito era Tommy Lee Jones por Lincoln, mas Christoph Waltz venceu seu segundo prêmio, por Django Livre.

Enfim. O discurso de aceitação de Rylance foi ótimo, todo mundo aplaudiu, nem todo mundo entendeu, e seguimos em frente.

As coisas ficam mais e mais estranhas no final da noite

Nem tudo foi surpresa no Oscar. Alicia Vikander e Brie Larson confirmaram as expectativas e venceram os prêmios de atriz coadjuvante e atriz, respectivamente. Leonardo DiCaprio colocou fim a uma geração de piadas na Internet ao levar seu primeiro Oscar, por O Regresso, colocando milhões de pessoas em luto. Ele já havia sido indicado outras cinco vezes.

Mas, talvez, a coisa mais estranha do Oscar tenha sido o Oscar de Melhor Filme. Lembram-se da época em que grandes épicos ganhavam 11 Oscars na rota de ganhar Melhor Filme? Bons tempos, coisa boa. Isso não acontece mais. Ano passado, o melhor filme, Birdman, ganhou 4 prêmios. No ano anterior, 12 Anos de Escravidão levou 3. Argo, antes dele, levou 3 também. O que esses filmes tem em comum, além da sua mediocridade, é que eles ganharam a categoria mais importante em cima de filmes melhores e que levaram mais estatuetas no geral.

Foi estranho, portanto, que, numa noite dominada por Mad Max O Regresso, os votantes da academia tenham decidido escolher Spotlight como o melhor filme do ano. Me pareceu mais justo do que dar para O Regresso, assim como pareceu um tributo aos jornalistas e ao bom jornalismo (o que é sempre bem vindo). No entanto, o filme fica com uma marca histórica estranha: ele venceu apenas dois prêmios.

Os outros favoritos, O Regresso A Grande Aposta ficam chocados na beira da praia. Isso lembrou um pouco quando Crash deixou todo mundo meio perdido ao levar melhor filme em 2005: ninguém entendeu lá, ninguém entendeu aqui. Mas é preciso admitir que, ao menos, Spotlight é um bom filme.

  • Outras decepções ficaram a cargo da vitória de Sam Smith de melhor canção original por Spectre (ninguém entendeu essa também). Emmanuel Lubezki venceu melhor fotografia pelo terceiro ano seguido com O Regresso, mas Carol Sicario eram concorrentes mais interessantes. Aliás, ninguém gostou de Carol, né? Só eu.
  • Alguém mais achou que a apresentação de Chris Rock ficou devendo alguma coisa? Para uma personalidade tão irreverente, Rock pareceu tímido e restringido no Oscar 2016. Bom, quem não ficaria?

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  1. Spotlight me surpreendeu por ter ganhado um Oscar de melhor filme quanto existiam candidatos muito melhores e mais óbvios. Então fui assistir à bagaça e apesar de ser um filme pertinente quanto ao tema, com boas atuações, não merecia o prêmio. Minha cabeça de nerd apontaria para Mad Max sem sombra de dúvida, mas Spotlight? É um filme mediano, bem mediano. Eu também fiquei sem entender essa cerimonia.

    Melhor música pra Spectre? Afff!

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