Em Revival, King eletriza com argumento chocante

A eletricidade está na capa e no centro do novo romance de horror de Stephen King
A eletricidade está na capa e no centro do novo romance de horror de Stephen King

Nos Estados Unidos, o termo “revival” significa um tipo de culto religioso cristão itinerante, de tendência conservadora, mas também pode ser interpretado como “renascimento” ou “ressurreição”. Tudo isso ajuda o leitor brasileiro a compreender o título do novo livro de Stephen King.

Não à toa, ele é dedicado a vários autores clássicos de ficção científica e horror, especialmente Mary Shelley (de Frankenstein; de 1818), e H. P. Lovecraft, o criador de Cthulhu. A história é narrada em primeira pessoa por Jamie Morton, baseada em suas lembranças de mais de meio século atrás. O garoto Jamie, que cresceu numa cidadezinha do Maine, está brincando com um exército de soldadinhos de plástico, presente de aniversário de sua amada irmã Claire – é outubro de 1962 e o mundo se encaminha para o precipício por causa de uma ilha tropical chamada Cuba (durante a Crise dos Mísseis de Cuba). A batalha inventada por Jamie não está indo muito bem, porque a “Montanha da Caveira” que seus soldados precisam transpor é feita de areia, e quando ele faz buracos para criar cavernas, os grãos escorregam e as fecham. Nesse momento, surge a figura impressionante de Charles Jacobs, um jovem pastor metodista que habilidosamente molha a areia e mantém as cavernas abertas, além de conquistar o coração do pequeno Jamie e marcar para sempre todo o seu futuro.

Jacobs, sua esposa Patsy e o filhinho Morris (o “Chaveirinho”) logo conquistam toda a comunidade. Nos encontros da Juventude Metodista, às quintas-feiras, a garotada se reúne para discutir o Evangelho e cantar alguns hinos, mas também para jogos de baseball para os garotos, e softball para as garotas, e para ouvir a bela senhora Jacobs, no auge dos seus 23 anos, tocar no piano algumas músicas dos Beatles. Nessas ocasiões o pastor brinca com eletricidade para o deleite das crianças, entremeando noções de física com passagens religiosas. Nesse meio tempo, um irmão de Jamie perde a voz e o pastor consegue recuperá-la com o uso de um aparelhinho elétrico que ele inventou. Esse foi, por assim dizer, o primeiro passo de uma nova vocação.

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Quando um acidente horrível acontece com Patsy e o garotinho, o pastor decide renegar sua fé num sermão apelidado de “Terrível”, o que leva sua congregação a expulsá-lo da cidade e destruir para sempre as crenças de Jamie, embora não seu amor pelo reverendo que tanto significado trouxe à sua infância.

Anos depois, Jamie pega emprestado o violão do irmão Conrad, e aprende sozinho a tocar algumas canções. No colegial, ele é convidado por um grupo de veteranos para tocar guitarra-base, acaba caindo na estrada fazendo shows e é apresentado com todas as pompas ao cigarro de maconha. Num certo verão, ele faz amor com uma garota chamada Astrid, e vai cursar a Universidade do Maine. Nunca mais larga a guitarra, que virou o seu meio de vida. Nos anos 1980, ele se entrega à sua paixão pelo cinema e também à heroína. Uma década depois, ele está sem trabalho, em Tulsa, Oklahoma, e decide ir para Chicago, mas não sem antes passar numa feira estadual para conseguir drogas antes de pegar o ônibus no dia seguinte. Nessa feira, ele reencontra o reverendo Jacobs, agora “Dan Jacobs”, fazendo truques com fotografia e eletricidade.

Na sequência, Jacobs promete livrar Jamie das drogas, o que ele consegue. Mas existem efeitos colaterais imprevisíveis.  O tempo avança, Jamie passa a trabalhar num estúdio de gravação, e a vida melhora, mas ele é perseguido por visões onde as pessoas mortas de sua família o avisam que “alguma coisa aconteceu”. O fato é que a narrativa nos conduz para um final que não pode ser outro senão catastrófico.

A ausência da fé é na verdade a chave que abre uma porta para longe do Céu. Jacobs não é um vilão típico de Stephen King, é um homem tão impactado pela dor de sua perda, que acaba deixando escapar a única coisa que poderia tê-lo consolado: a fé. Essa perda o afasta dos outros seres humanos, a quem ele chama de “caipiras”. Ele os usa como cobaias para abrir uma porta que o possibilite reencontrar seus entes queridos. Mas se ele usa uma energia negra para alcançar o seu objetivo, o que vai poder iluminar além de uma dimensão de pesadelo ao estilo de H. P. Lovecraft e suas criaturas de milhões de anos que nos consideram mais insignificantes que insetos? Quando você se rende ao “lado negro da Força”, pode produzir alguns raios e, como no laboratório do Dr. Frankenstein, recriar a vida. Mas não vai se dirigir para a luz, já que o que Jacobs cria é uma visão do inferno a partir de fragmentos da mágoa, luto, medo, dor, desamparo e desesperança das pessoas a quem ele tocou durante a sua busca.

Este novo livro de Stephen King nos remete a vários temas que lhe são caros: a cidadezinha do Maine, o rock-‘n’-roll, o vício em drogas, as lembranças da infância, a melancolia, o fundamentalismo religioso, as perdas irreparáveis que todos sofremos pela vida. Seus personagens, como de costume, são verdadeiros, cheios de nuances e, é claro, imperfeitos. Mas sempre existem coisas boas como o amor da família, a amizade verdadeira, e a gratidão.

Revival é o tipo de livro que você não consegue largar até o final, já considerado um dos mais assustadores do autor. Eu o achei impressionante e perturbador, por não existir uma redenção clara, como na maioria das suas obras. É um romance capaz de provocar horas de discussão sobre intenções e resultados desta trama peculiar por oferecer apenas uma visão devastadora do além túmulo. Uma visão que, sem fé, contamina de desespero a própria vida.

Prova que Steve ainda tem muitos acordes em sua guitarra elétrica, e nunca se está velho demais para o rock-‘n’-roll.

–Finisia Fideli

Revival (Revival), de Stephen King. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015, 374 páginas. Tradução de Michel Teixeira. ISBN: 978-85-8105-310-3

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