Encrencas Jedi na Velha República

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Traições Jedi

"Cavaleiros da Antiga República 1" inaugura um novo ciclo na coleção Comics Star Wars
“Cavaleiros da Antiga República 1” inaugura um novo ciclo na coleção Comics Star Wars

A coleção Comics Star Wars, de livro em capa dura publicados pela Planeta DeAgostini com distribuição em bancas e livrarias, entrou numa nova fase com o seu número 13, o ciclo “Cavaleiros da Antiga República”, com situações ambientadas quase quatro mil anos antes dos eventos da Batalha de Yavin (narrada em Guerra nas Estrelas, de 1977, mais tarde rebatizado de Episódio IV: Uma Nova Esperança). O primeiro livro traz três histórias, todas escritas por John Jackson Miller, que atualmente escreve romances originais de Star Wars – em 2015, a Editora Aleph publicou o seu romance Kenobi, que conta o que Obi Wan aprontou enquanto esperava Luke Skywalker crescer em Tatooine.

A Wikipedia informa que a série de gibis Knights of the Old Republic teve cinquenta números nos Estados Unidos (entre 2006 e 2010), um sucesso bancado pela editora Dark Horse e lançado no rastro de um videogame com o mesmo título. Com certeza, é muito positivo que ela comece com uma premissa instigante e um roteiro de qualidade, embora a arte inicial de Brian Ching parecesse pouco ambiciosa. Os primeiros três episódios formam dão uma boa arrancada para a série, embora patinem um pouco.

Capa: Travis Charest
Capa: Travis Charest

Eu gosto da ideia de um grande recuo no tempo contando outros momentos em que o destino da galáxia esteve por um fio. Já houve uma guerra da República contra os mandalorianos, e uma eclosão prévia dos maquinações dos Sith – os Jedi do mal, por assim dizer. Um grupo de “cônsules” Jedi vê o futuro durante um exercício com seus aprendizes em uma lua bombardeada por meteoros, e enxergam o ressurgimento de um Lorde Negro dos Sith que vai pôr tudo em polvorosa mais uma vez, ameaçando tanto os Jedi quanto a República como um todo. Mas a visão os informa de que o Lorde Negro surgirá de entre um dos seus aprendizes. A solução é apunhalar todos eles pelas costas com os sabres de luz, durante a sua cerimônia de formatura. Uma decisão que mostra que os Jedi nunca foram flor que se cheire.

Mas o protagonista da aventura é o atrapalhado aprendiz Zayne Carrick, padawan exatamente do líder do esquadrão da morte Jedi. Zayne gasta tanto tempo em tentativas frustradas de capturar o contrabandista Marn “Gryph” Hierogryph – um alien com cara de cachorro ou macaco –, que chega atrasado para a cerimônia. Ele acha, inclusive, que será um dos vetados para se tornarem cavaleiros Jedi. Por se atrasar ele é o único aprendiz a escapar vivo, e imediatamente a camarilha Jedi põe a culpa das mortes nele. O que o torna um fugitivo da justiça, perseguido tanto pelos Jedi quanto por caça-prêmios. Não lhe resta alternativa além de aliar-se ao próprio Gryph, num primeiro momento, e num segundo, ao idoso meio gagá Camper e à bela Jarael, garota de traços “élficos” mas sempre disposta a dar um choque paralisante em Zayne – a ponto de ele a chamar de “Darth Sunshine”.

O último membro da troupe é um enorme robô de carga chamado Elbee. É um bando desengonçado, concebido para rivalizar com a combinação já acidentada de Luke Skywalker, Obi-Wan Kenobi, Han Solo, Chewbacca, Princesa Leia e os dois robôs, C3P0 e R2D2. Para coroar, a nave do grupo é ainda mais detonada do que o Millennium Falcon – a Último Recurso é uma fedorenta espaçonave de transporte de sucata.

Miller dá várias reviravoltas convincentes na trama, trabalha muito bem com o humor, reforça ou flexibiliza as posições dos personagens (não só dos heróis, mas dos vilões também, dando camadas à traição cometida), e usa habilmente símbolos recorrentes. A quadrinização varia muito, porém, e quando o habilidoso desenhista Brian Ching cede algumas páginas a Travel Foreman, a narrativa dá uma boa tropeçada. E quando Ching é substituído por Dustin Weaver, ela fica um pouco confusa, migrando para um formato mais ambicioso de quadrinhos amplos e ousados, mas que não acrescentaram muita coisa, só amparando mais uma colorização agora mais intensa. Ainda assim, o episódio divide bem a ação entre todos os heróis e traz muitas reviravoltas, agora com os heróis metidos no meio de uma invasão mandaloriana – com direito a um desertor que passa para o lado já suficientemente marginal dos heróis, e a cientista louca que tenta descobrir, por meio de tortura, o segredo dos poderes Jedi.

Nas duas trilogias de Star Wars e nos quadrinhos baseados diretamente nelas, naves, trajes, armas e até planetas são balizas visuais que ajudam os fãs a entenderem quem é quem e quando e onde as coisas acontecem. Como as situações de Cavaleiros da Antiga República se dão mais de três mil anos no passado, pode haver um estranhamento inicial, apesar dos esforços de Ching e dos outros em manter o clima da franquia – a questão talvez seja uma dos artistas trabalhando solitários em algo que ainda não foi visto, sem poderem contar com os inchados departamentos de arte e pré-produção que as produções para o cinema podem pagar. Eu me pergunto, por outro lado, com o que o videogame se parece…

Um dos aspectos mais interessantes da série está na ambiguidade que Miller lança sobre o seu protagonista. Ficamos do lado de Zayne e rejeitamos as razões para a traição dos mestres Jedi, mas mesmo assim o rapaz pode muito bem ser mesmo o embrião do Lorde Negro que será o flagelo da galáxia no futuro previsto por eles.

A nota mais crítica vai para o trabalho editorial da Planeta DeAgostini, que dispensou a ilustração original de Travis Charest para a capa da primeira edição da revista (o livro reúne o material dos números 0 a 10), não traz datas das edições originais nem introdução ou posfácio contextualizando, e deixa de mostrar os números de página na página 145. A tradução anônima foi provavelmente feita em algum muquifo espanhol, e apresenta vícios no uso de pronomes oblíquos, e muitas vezes é tosca. Quem entende a expressão “resmungando como um Hutt em plena reclamação”?

Incompetência Jedi Faz a Cama de Palpatine

Esse poderia ser o subtítulo do Episódio II, lançado no Brasil pela Panini Books, e eu me pergunto se John Jackson Miller, escrevendo Cavaleiros da Antiga República depois do final da segunda trilogia, expressou a suspeita de que, se os Jedi não faziam parte da solução, eles claramente faziam parte do problema.

O Ataque dos Clones é o segundo filme da segunda trilogia produzida (e neste caso, dirigida) por George Lucas, e narra como Anakin Skywalker, resgatado da escravidão no planeta Tatooine, cresce para se tornar um jovem padawan sendo treinado por Obi-Wan Kenobi, até que começa a derivar para o lado negro da força. Essa deriva é impelida em grande parte pela má-vontade e falta de visão do Conselho Jedi presidido por Mace Windu e ninguém menos que Yoda.

A adaptação para os quadrinhos feita por Henry Gilroy segue de perto o roteiro do filme mas encontra dificuldades para articular a profusão de linhas narrativas. Sem dúvida, um dos problemas dos filmes II e III da segunda trilogia é o enredo mais panorâmico e salteado, do que as outras quatro produções. A solução de Gilroy foi narrar as transições, apresentando cada situação e o que se passa no íntimo dos personagens com comentários de um narrador invisível. Se isso já é problemático na literatura, nos quadrinhos parece antiquado e desajeitado. Note-se que Gilroy não precisou usar o truque com tanta intensidade, na adaptação do Episódio I: A Ameaça Fantasma.

O desenho de Jan Duursema, com arte-final de Ray Kryssing, também buscou a panorâmica, com sua propensão a ancorar as páginas em painéis sobre os quais os demais quadrinhos aparecem sobrepostos. A arte é bem mais sombria do que a do álbum anterior, mas o resultado é mais áspero e desajeitado. A dupla se esforça demais para representar as fisionomias dos atores (raramente chegando perto dos traços de Natalie Portman) e para acertar todos os detalhes de naves e estruturas, resultando em páginas atulhadas e claustrofóbicas.

É difícil imaginar por que Lucas optou por representar o auge dos Jedi como um período marcado pela burocracia, pela miopia estratégica e pela carência de afeição. Provavelmente apenas porque era o recurso mais sintético para que o enredo se desenvolvesse com a velocidade que ele precisava.

Com mais liberdade e espaço (50 episódios!), Miller parece que pôde dar atenção às motivações e à alternância bem realizada dos lances de lado a lado. Ele também se livrou (pelo menos nos primeiros episódios) da pirotecnia ridícula de reflexos Jedi defletindo disparos na velocidade da luz e dos cavaleiros da ordem correndo tão rápido quanto os vampiros da Saga Crepúsculo, e que tanto poluíram a dinâmica da segunda trilogia.

A comparação da dinâmica entre os dois livros de quadrinhos analisados aqui me fez pensar que a elipse – a ausência de elementos que estão implícitos na ação ou no enredo –, recurso tão importante para o estilo naturalista de Lucas na primeira trilogia (e também para os filmes anteriores dele, como THX 1138 e Loucuras de Verão), virou-se contra ele na segunda. Às vezes, é preciso meter o pé no breque e mostrar o que motiva as decisões e inspira os comportamentos.

Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones traz no final do livro uma galeria com as capas originais de Tsuneo Sanda – estas sim com o clima épico e dramático que o filme e a HQ deveriam ter atingido.

–Roberto Causo

Capa: Tsuneo Sanda
Capa: Tsuneo Sanda

Comics Star Wars: Cavaleiros da Antiga República 1 (Star Wars: Knights of the Old Republic), de John Jackson Miller (texto) e Brian Ching, Travel Foreman & Dustin Weaver (arte). Embu das Artes, SP: Planeta DeAgostini do Brasil, 2015, 226 páginas.

Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones (Star Wars Episode II: Attack of the Clones), de Henry Gilroy (texto), e John Duursema & Ray Kryssing (arte). São Paulo: Panini Books, 2015, 144 páginas. Capa de Tsuneo Sanda. ISBN: 978-85-8368-044-4

Star Wars Episódio III A Vingança dos SithStar Wars Episódio III: A Vingança dos Sith também já está disponível pela Panini Books, nas livrarias e lojas especializadas.

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