Enders – Reviravoltas além da conta

endersEm um mundo distópico devastado por uma guerra biológica, só sobraram idosos, crianças e adolescentes, ao menos nos Estados Unidos. Callie e o irmão viviam nas ruas, depois da morte dos pais, mas ela se envolveu em uma conspiração de uma empresa de aluguéis de corpos e agora tem uma casa e dinheiro, herdados. Mesmo assim, os problemas estão longe de terminar. Na continuação de Starters, o livro Enders, Lissa Price começa a história no ponto em que parou: depois que Callie destruiu a Prime Destinations. Agora, ela, o irmão e o amigo Michael moram em uma mansão, herdada de Helena, a mulher que alugou o corpo de Callie. No entanto, a menina ouve uma voz dentro de sua cabeça que alega ser O Velho, o dono da empresa que ela destruiu. Além disso, o pequeno romance que teve anteriormente não foi real, era apenas o Velo mexendo com ela. Agora, ela está confusa com tudo isso e com medo de que Tyler possa ser usado para atingi-la novamente.

Outra preocupação de Callie é com seu chip, alterado para permitir que ela mate pessoas, mesmo controlada à distância. Além disso, ela tem de resolver os problemas com Blake, o menino com quem teve alguns encontros no meio de toda a confusão. Não sendo tudo isso o bastante, uma das outras doadoras morre em uma explosão no shopping e Callie é protegida por outro adolescente.

Ao encontrar Hyden, o menino que a salvou na explosão, ela descobre que o Velho está caçando os doadores, agora chamados de Metais por conta dos chips em seus cérebros. Ele diz ser filho do Velho e quer ajudá-la, mas Callie está receosa e confusa. Além disso, há outro grupo caçando Metais, mas eles não sabem quem são.

O segundo livro da série traz os mesmos problemas do anterior: uma narrativa confusa, enrolada e com uma personagem meio boba. Mesmo que Callie queira salvar o mundo, ela é teimosa, está sempre em dúvida e não decide por quem se apaixonar. O romance, agora um triângulo amoroso entre Michael, ela e Hyden, continua forçado. Já entendemos que Michael gosta dela, ele cuidou do irmão dela por meses! Mas, não, Callie não sabe o que quer.

Outro problema é a previsibilidade da narrativa: a história do pai dela é meio óbvia e mal apresentada. Se era para ser uma reviravolta, não deu certo. Em compensação, são tantas outras reviravoltas que essa fica até meio perdida. Toda a questão dos vilões, dos planos deles, entre outras coisas é mal explicado, mal apresentado e forçado. O livro tem muitas partes boas, mas alguns furos ou coisas mal explicadas fazem com que ele perca muitos pontos enquanto a narrativa avança.

Para não dar spoilers, não vou falar especificamente de detalhes da narrativa, mas ela é cansativa. Acontece coisa demais em um curto espaço de tempo, nada é analisado e parece que os fatos apenas foram jogados ali para resolver os furos narrativos e tentar dar uma reviravolta interessante na história. Mas é uma tentativa falha por parte da autora, que precisa amadurecer mais a escrita e ter mais calma na hora de apresentar os fatos, para não deixar essa confusão. Não sei se Enders pode ser considerado melhor ou pior do que o anterior, mas ao menos em Starters temos mais discussões sobre as questões éticas e morais de alugar corpos de adolescentes para idosos.

Aliás, essa é outra questão pouco explorada na história: os Enders. Basicamente, fica parecendo que todos eles são maus, ricos e não se importam com mais ninguém que não os próprios netos, com raríssimas exceções. Ao menos ela mostra um outro lado:os refugiados, com medo dos esporos que possam ter sobrado da guerra, que vivem escondidos e tentam sobreviver. Mas isso é pouco explorado e também dá a impressão de ter sido colocado ali só para tapar esse buraco. A própria Guerra dos Esporos não é bem explicada, o que pode ser um recurso interessante, mas a história acaba ficando fraca.

Lissa Price tem potencial e uma boa ideia nas mãos. Espero que o terceiro livro da série, se houver um, porque parece que não, seja mais bem construído e traga uma narrativa mais amadurecida. Do contrário, ela vai ser mais um autora que tentou pegar carona no bum das distopias, mas não conseguiu se destacar por falta de profundidade na história.

Lissa Price. Enders (Enders). Editora Novo Conceito. Tradução: Ivar Panazzolo Júnior. 288 páginas. 30 reais

Gabriela Colicigno

Jornalista, ruiva, nerd, geek e louca por chocolate. Passa a maior parte do tempo do dia no computador, vendo seriados no Netflix, lendo um livro, ouvindo música ou brincando com os gatos.

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