Escuridão Total Sem Estrelas: Um Mergulho nas Trevas

122236126_1GG-208x300

Todos reconhecem Stephen King como o melhor escritor de terror de sua geração. Dezenas de livros e outros tanto filmes baseados em suas histórias têm instigado e perturbado milhões de pessoas. Muitas dessas histórias são verdadeiras obras-primas, reconhecidas por quase todo mundo, como Carrie, a Estranha; O Iluminado; Conta Comigo; O Perfeito Aprendiz; O Nevoeiro; Cemitério Maldito; O Apanhador de Sonhos etc., só para mencionar algumas obras vertidas para o cinema.

Contudo, é na literatura que Stephen King se destaca. Seu estilo é claro, objetivo, fluido e muitas vezes bem humorado, capaz de enganar um crítico desavisado que confunda simples com pobre ou medíocre. Coisas que ele certamente não é.

Muitas de suas obras ficam para sempre marcadas em nossa memória de maneira afetiva, por mais terrível que seja o tema abordado. Isso acontece porque o velho Steve ama seus personagens. Inclusive os vilões, sobre os quais ele sempre joga um olhar de compreensão e benevolência. Além disso, ninguém consegue dar voz às mulheres e às crianças como ele. Se duvidar, leia Rose Madder e O Talismã, e você irá concordar comigo imediatamente.

Depois de finalizar uma das melhores sagas americanas de todos os tempos, que ele começou com a nada humilde intenção de escrever O Senhor dos Anéis moderno (estou falando de A Torre Negra), King ele sofreu um atropelamento que quase o matou, e ameaçou parar de escrever repetidas vezes. Mas, felizmente, parece que não conseguiu largar o vício da escrita, embora sua dependência em álcool e drogas tenha sido abandonada sem que seu cérebro incrível sofresse um apagamento definitivo.

Escuridão Total Sem Estrelas, recém-lançado no Brasil, faz jus ao nome. São quatro contos longos – ou novelas – que abordam o que há de pior na espécie humana. Todos são canalhas. É tanta gente malvada reunida, que fica difícil distinguir quem é vilão e quem é vítima. Não há bondade, consciência ou perdão. E cada história aborda um tipo de sordidez.

Em “1922”, King trata de ganância. O agricultor Wilfred, por conta de uma disputa de terras, não hesita em destruir toda a família e trazer a desgraça e a infelicidade para um monte de gente, por não parar para pensar antes de tomar uma decisão errada atrás da outra. Em “Gigante ao Volante”, temos uma situação de vingança. Tess é uma autora de livros de suspense que acaba estuprada e tem uma reação motivada pelo seu lado mais negro.

“Extensão Justa” fala de egoísmo. Um doente terminal faz um pacto que pode salvar sua vida se destruir a vida de outra pessoa. E nem se pergunta se isso é válido. E, finalmente, “Um Bom Casamento” é sobre ignorância. Uma esposa e dona de casa acidentalmente descobre quem é na verdade o homem com quem viveu por mais de vinte anos. Sabe aquela história do pior cego é aquele que não quer ver? Pois é.

Esta é a mais uma coletânea de histórias reunindo quatro novelas, como as anteriores Quatro Estações e Depois da Meia-Noite. É um livro difícil que fala de temas difíceis, bem ao estilo de Stephen King. Mas o que diferencia de seus outros livros é que neles o final sempre nos leva para a luz. Nestas histórias, você permanece nas trevas. O que terá acontecido? Será que o autor perdeu a esperança diante das maldades do mundo? Da situação política cada vez mais desprovida de ética? Sabemos que ele é um marido dedicado e um pai orgulhoso de dois filhos escritores (Joe Hill, um deles, escreve terror como gente grande).

Sabemos que seu senso de humanidade o coloca do lado daqueles que não têm uma voz, equilibrada por eles. Talvez ele esteja nos empurrando para baixo para que, ao emergir, possamos valorizar ainda mais um dia de sol. Certamente ele ainda é o melhor guia.

por Finisia Fideli

Escuridão Total Sem Estrelas (Full Dark, No Stars), de Stephen King. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015, 392 páginas. Tradução de Viviane Diniz. ISBN: 9788581052755

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *