Expresso do Amanhã: Futuro congelado

Imagine um futuro não muito distante em que uma substância recém-descoberta usada para controlar o aquecimento global transforma o planeta em uma pedra de gelo, matando quase todos os membros da raça humana. Imagine que os únicos sobreviventes da Terra vivem em um trem que percorre o mundo interruptamente há 17 anos. Imagine um microcosmo da nossa sociedade nesse trem, com os pobres vivendo na cauda, amontoados e famintos, enquanto os ricos vivem na frente em luxo e confronto.

Esse é o cenário do filme Expresso do Amanhã (Snowpiercer, EUA/ING/COR/FRA, 2013) o primeiro longa-metragem em inglês do mestre do cinema sul coreano, Joon-ho Bong (de O Hospedeiro Mother – A Busca pela Verdade). Baseado numa graphic novell francesa chamada Le Transperceneige, essa produção internacional narra a tentativa de um grupo de integrantes da cauda do trem de usurpar o poder dos passageiros da frente, liderados por Curtis (um espetacular Chris Evans, que leva seu personagem do Capitão América para o lado negro da força) e seu mentor, Gilliam (um sempre perfeito John Hurt).

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As coisas começam a ficar feitas quando o grupo de revolucionários liberta um especialista em segurança do trem e ex-viciado chamado Namgoong Minsoo (Kang-ho Song) para abrir as portas dos vagões e batem de frente com a Mason (Tilda Swinton fazendo uma interpretação esquizofrênica da Maggie Thatcher) a representante oficial do construtor do motor infinito do trem, Wilford (Ed Harris). Uma luta dentro de um dos vagões sem nenhuma luz é uma das sequências mais impressionantes de 2013 e, conforme os revolucionários seguem para a frente do trem, cada claustrofóbico cenário é uma pequena obra-prima de design e cinematografia.

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Mesclando fantásticas atuações por parte de todo o elenco e imagens que igualam as performances dos difíceis personagens orquestrados por Bong, O Expresso do Amanhã consegue uma façanha impressionante; derrotar os blockbusters norte-americanos em seu próprio terreno. Ele é tudo o que Transformers: Era da Extinção gostaria de ser, e nunca será. É um filme de ação que consegue manter um nível intelectual e estético que só os filmes de arte possuem. É uma “montanha russa” de emoções e de violência perturbadora, um retrato insano do mundo insano em que nós vivemos hoje.

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Eu admito, nem tudo é perfeito. Por exemplo, o final é de coçar a cabeça. Mas os excessos de Bong podem ser perdoados, pois Expresso do Amanhã é um filme de ficção-científica com coração, alma e imagens que ficam com você. Que bebe diretamente da fonte preenchida pelos mestres do cinema de ficção-científica, como Terry Gilliam e Stanley Kubrick. Que te provoca que te faz pensar, e que possivelmente é o filme mais cool do ano passado. Prepare-se para uma viagem de tirar o fôlego.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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