Filhos da Esperança: Um Espelho do Século XXI

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Talvez não exista um filme de ficção científica tão realista, contemporâneo e que reflita o século XXI tão bem quanto Filhos da Esperança (Children of Men, EUA/ING/MEX, 2007) do diretor mexicano Alfonso Cuarón. Criticado por ter tomado excesso de liberdades criativas em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e por ter criado um filme sem história e cientificamente incorreto com Gravidade (2014), este é o seu melhor trabalho e talvez seja seu menos conhecido. No entanto, parece que o filme tem ganhado novo fôlego nos últimos anos e aparece constantemente em listas dos melhores filmes de ficção científica do século XXI (normalmente em primeiro lugar – confira aqui, um exemplo).

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Filhos da Esperança é baseado em um romance da escritora P.D. James publicado em 1992, embora possua diferenças consideráveis em relação ao livro. Em um futuro próximo, as mulheres não conseguem mais ter filhos e a causa da infertilidade permanece desconhecida dos cientistas do mundo: nenhuma criança nasceu nos últimos dezoito anos. O mundo transformou-se em um caos interminável de guerras, terrorismo, fome, doenças e imigração ilegal. Somente uma visão ampliada e não muito diferente do mundo em que vivemos hoje.

Theo (Clive Owen) um burocrata que trabalha na Londres do ano 2027 é contactado por sua ex-esposa, Julian (Julianne Moore), uma extremista política com conexões com o terrorismo local, para escoltar uma jovem imigrante ilegal que está carregando a primeira criança em quase duas décadas.

Um Filme Para o Nosso Milênio

A ficção científica “popular” do século XXI parece estar preocupada com distopias, muitas vezes com protagonistas femininas e adolescentes onde grupos políticos e sociais são separados por castas em sociedades pós-apocalípticas, como uma maneira de prevenir novos desastres. Esse tipo de ficção científica se alastrou pelos cinemas em obras como Jogos Vorazes, Divergente O Doador de Memórias. 

Outro tipo de FC consideravelmente popular é a de viagens no tempo. Seja aquelas que fazem algum tipo de releitura histórica ou onde o personagem principal realmente volta no tempo, normalmente construindo paradoxos mal resolvidos como Looper – Assassinos do Futuro, No Limite do Amanhã e Interestelar. 

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Paralelamente, a ficção científica do movimento pós-modernista na literatura, tem preocupações voltadas para tecnologia de inteligência artificial, interface, transexualidade, bioegenharia e metalinguagem. Tal como Rainbow’s End do escritor Venor Vinge, o livro vencedor do prêmio Hugo (talvez o mais importante da ficção científica) de 2007, ano em que Filhos da Esperança foi lançado. Também há um movimento literário na ficção científica que lida, principalmente, com space opera militar, a grande moda do momento.

E, embora esses sejam temas que estão constantemente presentes em nossa contemporaneidade, nenhum filme de ficção científica retratou o novo milênio de forma tão realista e complexa como Filhos da Esperança. É um filme sobre nosso milênio, que é fraturado, repleto de políticas temerosas, ultraconservadorismo, extremismo religioso e erupções aleatórias de ondas de violência e terror.

À parte do brilhante roteiro (que trabalha com uma premissa muito simples), Filhos da Esperança destaca-se pela maneira como ele é construído: de forma palpável, com uma beleza abstrata e um realismo poético que são cortesia da maravilhosa fotografia do também mexicano Emmanuel Lubezki (que trabalhou em Gravidade Birdman), da complexa e detalhada direção de arte e do desempenho dos atores que são capazes de interiorizar o mundo devastador em que seus personagens vivem.

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Os “peixes”, imigrantes ilegais que são sumariamente caçados por um sistema político totalitário de um Reino Unido transformado pelo caos, lembram com assustadora similaridade a crise da imigração europeia que começou em 2015. E cena inicial no qual o protagonista sai de um café segundos antes de ele ser mandado pelos ares, nos remete à avassaladora força do terror brutal e aleatório do Estado Islâmico com uma precisão quase profética.

Eis que Filhos da Esperança tornou-se um fenômeno curioso no cinema contemporâneo. Em 2007, o filme fracassou nas bilheterias e caiu no esquecimento. Tendo sido rotulado como um filme depressivo, ele não atraiu quase ninguém, nem quando foi lançado em DVD. O que é uma pena. Mais do que um filme surpreendentemente bem feito, e mais do que uma obra que possui semelhanças arrasadoras com o mundo no qual vivemos hoje, quase dez anos depois, Filhos da Esperança é, na verdade, um filme sobre esperança. E, hoje, esperança é a coisa que mais precisamos.

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