Game of Thrones é uma Alegoria para o Aquecimento Global

*Atenção: Este texto contém spoilers da 5ª temporada de Game of Thrones*

Boa literatura é capaz de sugerir e problematizar diversos elementos do mundo contemporâneo, às vezes mais do que o próprio autor pretendia. A série de livros adaptada para a HBO, Game of Thrones escrita pelo norte-americano George R.R. Martin, por sua alta complexidade, é capaz de elaborar críticas interessantes, às vezes nos lugares mais inusitados.

De todas as discussões possíveis de se extrair em Game of Thrones, essa parece descabida. Não obstante, a literatura de ficção científica e fantasia nunca fala sobre terras imaginárias e tempos futuros: ao contrário, ela se usa de novas e imaginárias perspectivas para problematizar questões contemporâneas, e a obra de George R.R. Martin não é exceção.

Nos livros e seriados, os reinos estão divididos e uma luta fervorosa que envolve manipulações e traições políticas tanto quanto assassinatos e combates entre exércitos ocorre para ver quem ficará com o Trono de Ferro, um trono feito de espadas aparentemente muito desconfortável. Enquanto travam seus embates e picuinhas internas, os principais personagens dessa elaborada trama deixam de lado uma questão mais importante: uma orda de zumbis que avança do norte, comandadas por criaturas das trevas referidas como White Walkers.

A origem desses “Caminhantes Brancos” é desconhecida, mas seu objetivo parece curiosamente singular: a aniquilação total de tudo o que estiver em seu caminho. E assim eles o fazem, de forma aterradora nos últimos episódios da quinta temporada do seriado de televisão.

E, enquanto esses antagonistas destróem tudo por onde eles passam, os reinos do sul continuam a se enfrentar em tramas políticas que envolvem incesto, religião e assassinato. Os comandantes mais capazes de deter essa iminente ameaça, Stannis Baratheon e Jon Snow são derrotados. O primeiro pela própria cobiça e insanidade, e o segundo pela traição de seus próprios companheiros no season finale. Eis que a grande Muralha do Norte, talvez o único entrave entre a orda de criaturas e o mundo humano, seguirá para a sexta temporada e livro desprovida de seu maior líder.

Assim como em Game of Thrones, o mundo do século XXI também parece carecer de observações mais pragmáticas acerca de problemas complexos – como o aquecimento global e a distribuição geopolítica das armas de destruição em massa – que são deixados de lado em detrimento de outras questões, como embates religiosos e o casamento gay.

Talvez não tenha sido a intenção do autor tratar especificamente desses assuntos, mas a crítica feita por George R.R. Martin é bem fundada: vivemos em uma sociedade que se preocupa com coisas altamente triviais, frente a uma possível orda “desconhecida” que virá em um futuro próximo, sendo capaz de aniquilar tudo o que conhecemos.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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