Ghost in the Shell – Muito shell, nenhum ghost

Desde seus primeiros estágios de seu desenvolvimento, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell, EUA/JAP, 2017) baseado no lendário mangá escrito e ilustrado por Masarume Shirow, em 1989, e no longa-metragem de animação produzido em 1995 e dirigido por Mamoru Oshii, esteve envolvida em polêmicas. A principal delas foi a escolha da atriz principal, Scarlett Johansson no papel da Major Motoko Kusanagi, no que foi descrito como um caso de white washing: uma atriz ocidental que foi escolhida para interpretar uma personagem japonesa.

Em outras preocupações estavam como esse material oriental seria traduzido para o mercado norte-americano e que liberdades criativas seriam tomadas pelos cineastas envolvidos. Bom, vamos começar dizendo que Ghost in the Shell (me recuso a usar o título A Vigilante do Amanhã, desculpem) é tudo aquilo que nós temíamos que ele fosse: longo, bobo e incoerente, uma versão traduzida e simplificada da obra original. Porém, antes de escrachar o filme, acho necessário apontar alguns fatos importantes sobre a franquia em si.

O Mangá e o Anime não são a mesma coisa – e não são perfeitos

Ghost in the Shell é considerado para muitos fãs de ficção científica, o suprassumo do gênero cyberpunk no Japão. Cyberpunk se tornou uma corrente dentro da ficção científica nos anos 1980, liderada por autores como William Gibson e Bruce Sterling. Se preocupava em como nossa interação com as novas tecnologias emergentes afetavam nossas próprias características que nos tornavam humanos.

Quando Ghost in the Shell foi publicado em formato de mangá, em 1989, e o filme foi lançado, seis anos depois, o Japão era líder no desenvolvimento de tecnologias nos campos da robótica e os eletroeletrônicos, e por isso o mangá e o anime funcionaram tão bem no contexto japonês. Mas o mangá e a animação são obras bastante diferentes, produzidas por pessoas com visões diferentes sobre o mesmo assunto.

A animação dirigida por Mamoru Oshii em 1995 é mais austera, fria e compacta do que o mangá original. Ela substitui a sensualidade da protagonista,  a Major Motoko Kusunagi, por uma série de maneirismos robóticos que obscurecem a linha que separa a máquina do humano e introduz uma série de questionamentos filosóficos pesados sobre a natureza do ser-humano e a identidade do indivíduo. É menos acessível do que o mangá, que foi recentemente publicado no Brasil pela editora JBC, às vezes tedioso, prepotente e seu tempo de duração demasiado curto (1h23min.) permite pouco aprofundamento dos personagens e das situações dramatizadas.

Além disso, apesar de seu aspecto estético impressionante, nem o mangá, nem a animação trilham novos caminhos ou trazem coisas novas dentro do gênero cyberpunk, ou na ficção científica em geral, funcionando melhor como thrillers provocadores de FC.

O filme, apesar de suas qualidades, não honra o espírito da animação e do mangá

Ghost in the Shell acompanha a Major (e, para evitar problemas, vou chamá-la aqui somente de “Major”) que faz parte de uma organização especial chamada de Sessão 9. A história se passa em um futuro no qual grande parte da humanidade se tornou adepta de melhoramentos cibernéticos que são introduzidos no próprio corpo. A Major, porém, é um tipo diferente de androide: seu corpo é 100% sintético, mas sua mente é humana. Junto de seus colegas, Batou, Aramaki, Han, Ladriya, Ishikawa e Saito (você não será capaz de distinguir um do outro, então, não se preocupe) ela investigará uma série de assassinatos cometidos por um ciber-terrorista chamado Kuze. E, durante sua investigação, começará a desvendar segredos sobre seu passado que foram escondidos pela empresa que desenvolveu seu corpo.

Em termos simples, Ghost in the Shell é um filme lindo de se ver. De certa forma, ele reproduz a qualidade estética do filme de 1995, mas adicionando mais cores e criando um universo complexo e multifacetado comparável ao que James Cameron fez em Avatar. É uma experiência envolvente assistir Ghost in the Shell em uma sala de cinema grande, como o IMAX, com um sistema de som potente para que todos os efeitos sejam apropriadamente apreciados. A trilha sonora de Clint Mansell é outro ponto alto, sendo que a música faz breves referências à trilha original composta por Kenji Kawai.

É uma pena, portanto, que as qualidades do filme terminem por aí, pois o longa-metragem dirigido por Rupert Sanders começa a acumular problemas mais rápido do que você pode dizer “Motoko”.

O primeiro grande problema do filme, está na atriz principal Scarlett Johansson. Muito se falou sobre a polêmica envolvendo sua escolha e, de fato, o longa-metragem tem um problema grave de apresentar personagens japoneses com rostos ocidentais. Porém, mais preocupante ainda, é a total falta de personalidade nesta encarnação da Major Motoko Kusunagi. Os maneirismos robóticos da personagem que funcionavam tão bem na animação e que serviam a um propósito narrativo, não se traduziram bem no cinema e a inexpressividade de Johansson (que passa a maior parte do filme com cara de tédio) incomoda muito.

Eu presumo, também, que o filme continha um roteiro, supostamente escrito por Jamie Moss, Whiliam Wheeler e Ehren Kruger, mas eu não o vi em lugar algum. Rupert Sanders dirige sequências de ação interessantes, amparadas pela ótima direção de fotografia, mas não consegue articulá-las em uma trama coerente. O roteiro é confuso e caótico, ao mesmo tempo em que remove todas as características que tornaram a animação tão importante 22 anos atrás: o mistério, os questionamentos e a escuridão que cercava aquela história, nos dando, ao invés, respostas fáceis e simplistas, emolduradas em planos de fundo bonitos com discursos inspiradores. Uma versão simplificada e pasteurizada de uma obra oriental complexa, para um mercado americano.

Ou seja, tudo o que nós temíamos.

É uma pena, mas não uma surpresa. Em defesa do diretor Rupert Sanders, consigo pensar em pouquíssimos cineastas que poderiam ter traduzido esse material de forma inteligente para o mercado ocidental. Porém, o que temos é o que eu preciso analisar aqui:

Conforme as sequências de ação se acumulam em um festival gratuito de computação gráfica, você vai lentamente percebendo que não há nada de interessante por detrás dos cenários bem desenhados e a fotografia bem trabalhada. É como se este Ghost in the Shell tivesse todo o brilho, mas nada do conteúdo da obra original:  o exterior é lindo, mas seu espírito não foi encontrado.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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