Godzilla: Muito barulho por pouco

Em Godzilla (Godzilla, EUA/JAP, 2014), a 28ª produção cinematográfica do monstro criado pela empresa Toho no Japão em 1954, o diretor Gareth Edwards (de Monstros) usa a mesma técnica usada por Steven Spielberg em Tubarão para construir o suspense: não mostrar a criatura de cara. Portanto, o que temos por grandes porções do filme são sombras e silhuetas de um monstro maior. Parece inteligente, mas o que funcionou para Spielberg não funcionou para Edwards.

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Não funcionou pois o diretor, usando um roteiro de Max Borenstein, e uma ideia de Dave Callahan, não consegue tornar seus protagonistas engajantes o suficiente para que o espectador se importe com eles. Joe Brody (Bryan Craston de Breaking Bad) é um engenheiro nuclear que viu sua esposa ser morta quando um misterioso terremoto destruiu a usina em que eles trabalhavam no Japão. Quinze anos depois, os mesmos padrões sísmicos que abalaram a cidade naquele ano voltaram a aparecer e Joe decide fazer uma investigação por conta própria para descobrir o que está acontecendo.

Preso neste drama familiar pouco convincente de dor e perda, está Ford Brody (Aaron Taylor Johnson de Kick-Ass). Ford tornou-se um militar especializado em desarmamento de bombas e está indo para o Japão buscar o pai que foi preso ultrapassando ilegalmente uma área controlada pelo governo. Ele tem uma esposa chamada Elle (Elizabeth Olsen) e um filho pequeno a quem precisa voltar.

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Quando vai para o Japão, Joe e Ford Brody descobrem que segredos militares estão sendo escondidos: na área abandonada da cidade, uma misteriosa criatura começou a crescer, se alimentando dos restos radioativos deixados pela Usina em que Joe trabalhava. Trata-se de um MUTO, uma criatura gigantesca e pré-histórica que se alimenta de radiação e que despertou causando pandemônios pelas cidades em que passa.

E lá vem Godzilla, uma força incontestável e incontrolável da natureza que também despertou de seu sono primordial para reestabelecer o equilíbrio ameaçado pelo MUTO. Se a premissa já é bastante frágil, ela fica pior conforme a narrativa avança e os militares se intrometem no assunto. David Strathairn (O Ultimato Bourne) interpreta o Almirante William Stenz que em ponto algum é competente em seu trabalho, enquanto Ken Watanabe (O Último Samurai) assume o papel do Dr. Ishiro Serizawa, um homem com perpétuo olhar de perplexidade. Em nenhum momento, os atores se sentem confortáveis em seus papéis, e tampouco o diretor quanto os roteiristas parecem acreditar no material que eles possuem em mãos. Um erro fatal.

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É complicado, principalmente, afirmar que criaturas colossais e nada parecidas com a história da biologia terrestre existem no nosso planeta há milhões de anos. Os MUTO’s não possuem uma função orgâniza, somente estética, ao contrário do que a biologia nos ensinou. Da primeira vez que vi o trailer, imaginei que se tratavam (isso inclui o Godzilla) de alienígenas, o que parece uma premissa mais plausível, ainda que semelhante ao filme Círculo de Fogo (2013) do diretor Guilhermo del Toro.

Godzilla e seus monstros companheiros precisam ser atualizados: uma premissa como esta teria sido admissível em 1954, mas os tempos mudaram, assim como as exigências do público. O mundo atual não precisa de monstros gigantes. A incompetência e corrupção de políticos mundo afora, somadas as calamidades como o Tsunami, e o desastre atômico de Fukushima, já causam estrago o bastante.

O maior problema do filme continua sendo um roteiro fraco, somado a personagens ainda mais fracos. Nem Edwards, possivelmente um diretor imaturo que recebeu dinheiro demais nas mãos, nem o roteirista acreditaram no material que tinham em mãos, o que é um erro imperdoável. Godzilla é um filme acelerado demais, que possui sequencias muito interessantes mas que não são desenvolvidas, enquanto, ao mesmo tempo, é um filme atravancado por dramas familiares pouco interessantes. No fim, a melhor coisa sobre Godzilla é o Godzilla. E isso não é nada bom.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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