Guerra do Velho – Onde os velhos não têm vez

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O balado e premiado romance de estréia do escritor John Scalzi, Guerra do Velho (Old Man’s War, EUA, 2005), finalmente chega ao Brasil pela editora Aleph. Com tradução de Pete Rissatti o livro se destaca muito pela qualidade de seu projeto gráfico – uma característica marcante da editora – e pelo trabalho de capa que é, realmente, maravilhoso. Já, a história… Nem tanto.

Guerra do Velho é o primeiro romance de John Scalzi, publicado originalmente no site do autor em 2002. O livro foi lançado nos Estados Unidos em 2005 pela Tor Books, e indicado ao prêmio Hugo em 2006, vencendo o John W. Campbell Award de melhor romance de estréia naquele mesmo ano. Desde então, Scalzi tem sido repetidamente indicado ao Hugo, tendo vencido em 2012 com o livro Redshirts.

Guerra do Velho possui uma premissa consideravelmente simples, mas interessante. Muitos anos no futuro a humanidade dominou a viagem espacial e colonizou diversos mundos. Não obstante, ela precisa enfrentar diversas raças alienígenas numa corrida de colonização, para estabelecer qual é a espécie dominante da galáxia. Para conseguir soldados, os governos da Terra implementaram o seguinte programa militar: ao completar 75 anos, o cidadão, independentemente do sexo ou condição física, tem a oportunidade de ingressar para o exército. Lá, ele passará por um processo de rejuvenescimento e servirá por dois anos, com a possibilidade de ficar por mais oito.

É isso o que o protagonista, um homem chamado John Perry, faz. No seu 75º aniversário ele visita o túmulo da esposa e ingressa no exército. Sentindo que não tem nada a perder, ele decide embarcar nessa aventura que lhe dará a oportunidade de viver uma nova vida e fazer algo de significativo com ela. É uma constatação interessante e o livro começa de forma promissora. No entanto, depois que ele passa pelo seu processo de rejuvenescimento, não há, efetivamente uma problematização da nova condição do protagonista fornecida pelo autor e Guerra do Velho, a partir daí, se torna uma sucessão de missões das quais o herói participa.

Uma série de escolhas ruins por parte do autor, impede que Guerra do Velho atinja o máximo do seu potencial. O maior problema do livro é que não há velhos lutando na “Guerra do Velho”. Em nenhum momento, o autor convence o leitor que os protagonistas de sua história são homens e mulheres como a vivência de alguém com 75 anos de idade. E escolha de narrar o livro em primeira pessoa não ajuda, pois a linguagem do protagonista não deixa transparecer essa vivência.

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A falta de aprofundamento de conceitos interessantes que ele conjectura, também não ajuda e tudo fica muito superficial: o processo de rejuvenescimento pelo qual os protagonistas passam, principalmente, carece de aprofundamento e o autor lida com ele como se e este fosse a solução definitiva para todos os problemas da condição humana.

guerradovelho2Apesar dos problemas, não dá para se dizer que o livro é de inteiro ruim. O uso de humor é bem vindo, mas às vezes Scalzi perde a mão e cria situações tão ridículas que elas não condizem com o restante do livro. Um bom momento na história acontece mais para o final quando o protagonista John Perry encontra uma mulher chamada Jane que se parece com sua ex-esposa. A introdução dessa personagem aumenta a carga dramática sobre o protagonista e o envolvimento do leitor com a história, mas não salva o livro de uma conclusão decepcionante.

Dizer que Guerra do Velho é “ruim”, talvez seja um pouco injusto. Como romance de estréia ele é “ok”. Mas, seria ele merecedor de toda a badalação em seu entorno, dos prêmios que ganhou e aos quais ele foi indicado? O que no fim levanta a pergunta: o que está sendo escrito por aí afora hoje em dia?

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  1. Compartilho da mesma opinião.

    Fui ler “Guerra do Velho” acreditando que ia encontrar algo interessante, já que foi elogiado em todo canto. O que encontrei foi uma trama simples e rasa, que tem muita “guerra” e praticamente nenhum “velho”. Me incomodou bastante o fato dos personagens supostamente idosos parecerem só mais um grupo de adolescentes (genéricos, ainda por cima, afinal o autor não consegue dar personalidade a nenhum deles). Ao menos achei interessante o universo construído pelo autor, por mais que mal explorado. E a conclusão é truncada, dá uma sensação de que o autor simplesmente cansou e inventou algo pra fechar de qualquer jeito.

    No fim das contas, também achei só “ok”. A sequência parece até ser interessante (principalmente por não se apoiar no artifício de “velhos lutando na guerra”), mas tenho dúvidas se o autor consegue superar seus problemas de escrita nesse segundo livro.

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