HQs de História Alternativa pela Devir Brasil

Leandro Luigi Del Manto, o editor de quadrinhos da Devir Brasil, é um apreciador de história alternativa, o subgênero da ficção científica que imagina caminhos diferentes para a História. Leandro teve a sorte de trabalhar em duas HQs dentro desse subgênero, ambas girando em torno da II Guerra Mundial e lançadas neste ano em que se completam sete décadas do Armistício.

 Império Espacial

Capa: Chris Weston
Capa: Chris Weston

Ministério do Espaço, de Warren Ellis (roteiro) e Chris Weston (arte), com prefácio de Mark Millar, apareceu originalmente em 2009 pela Image. É uma história alternativa da Conquista do Espaço – aqui realizada pelos ingleses e não pelos soviéticos e americanos. A questão de como os ingleses teriam saído na frente perpassa a competente narrativa, e a primeira pista oferecida é um bombardeio inglês sobre tropas americanas que haviam liberado uma instalação alemã capturada no final da guerra. A tensão entre ingleses e americanos substitui, nessa história alternativa, a tensão entre americanos e soviéticos, na corrida espacial.

Ingleses e americanos foram aliados no conflito, é claro, e essa ação secreta prenuncia uma vasta canalhice britânica cujo sentido mais profundo é revelado apenas no final do livro. O fio condutor é Jacko Dashwood, oficial aviador obcecado em ir ao espaço. Já no pós-guerra, essa obsessão vem a lhe custar as pernas no acidente com um avião-foguete semelhante à série X que os americanos desenvolveram na nossa linha temporal. Costumamos esquecer que os pilotos do X-15, avião-foguete que alcançou altitudes de 80 quilômetros, podem muito bem terem sido os primeiros a ir ao espaço.

Dashwood, um perfeito bastardo, socialmente espinhoso e politicamente cínico, não cabe bem no modelo do pioneiro da viagem espacial. Em grande parte, a narrativa em flashbacks de Ministério do Espaço funciona como exame da sua personalidade implacável. Mas é claro, um homem só, por mais determinado que seja, não realiza uma revolução tecnológica sozinho. O primeiro-ministro Winston Churchill aparece no livro, assim como um Werner Von Braun (chamado apenas de “Doutor”) recrutado pelos ingleses e não pelos americanos.

O livro acompanha os primeiros passos do programa espacial conduzido pelo Ministério do Espaço sob o comando de Dashwood, e termina com uma grande revoada de espaçonaves a caminho de Marte. Visualmente, essa história alternativa da conquista do espaço dá a Weston a oportunidade de produzir um fascinante exercício de retrofuturismo, com a criação de foguetes, naves e estações espaciais muito afinadas com as especulações científicas das décadas de 1950 e 60. E certamente a narrativa valoriza esse empenho retrofuturista com sequências ou quadros de página inteira.

A seção com desenhos técnicos incluída no final do livro revela que Weston chegou aos designs das naves e estruturas utilizando recursos de computação gráfica, mas perfeitamente integrados ao seu estilo de desenho. O projeto da HQ também inclui elementos de design gráfico, como brasões e logotipos do Ministério do Espaço. Isso contribui muito para reforçar a sensação de estarmos de fato diante de uma realidade alternativa. Denotando mais habilidade e sutileza, porém, Weston realiza o roteiro de Ellis pontuando a narrativa com uma estética do heroico e do épico – mas reservando ao leitor uma reviravolta contundente no final, sugerindo que o caráter épico da presença da humanidade no espaço não implica na resolução de graves problemas sociais e humanos.

O premiado roteirista inglês Warren Ellis é conhecido pela violência e pelo cinismo, vistos especialmente no seu A Autoridade, uma subversiva HQ de super-heróis. Aqui vemos seu compromisso com o programa pós-modernista justamente no revisionismo histórico e no empenho de sangrar o glamour da história e nas alusões ao seu custo humano. A HQ ganha um força especial nesse comentário sutil da permanência do conservadorismo e do preconceito, na sociedade inglesa. O posfácio de Ellis no fim de Ministério do Espaço trata de como ele foi inspirado pelas HQs de Dan Dare, o herói espacial dos quadrinhos britânicos, criado por Frank Hampson em 1950 (com consultoria científica de Arthur C. Clarke). Em vistosa edição em capa dura, Ministério do Espaço é altamente recomendado.

Horror Atômico

PM Projeto ManhattanA proposta de Projeto Manhattan, de Jonathan Hickman & Nick Pitarra, é semelhante, mas seu mergulho no bizarro é mais profundo e extenso. Inclusive na estética que foge da tradição das HQs realistas, e que busca intencionalmente o feio. Nessa realidade alternativa, o Projeto Manhattan – da construção da bomba atômica pelos americanos durante a II Guerra Mundial – é conduzido por um General Grooves (Leslie Groves, em nossa realidade), desenhado por Pitarra como tendo a cara e o físico de Jesse Ventura, com as três estrelas de general nos ombros e divisas de sargento na manga do uniforme… Tá na cara que, ao contrário de Weston, Pitarra não busca coerência visual histórica…

Apesar disso, Projeto Manhattan é um desfile de importantes figuras históricas: Albert Einstein (como um duplo vindo de outra linha temporal), Werner Von Braun (idem), J. Robert Oppenheimer, Enrico Fermi, Richard Feynman, Franklin D. Roosevelt e Harry Truman. Todas elas sujeitas a ataques revisionistas que apelam para o místico, para o demencial e para o absurdo. Desse modo, até mesmo Einstein, apesar de sua figura de vovô bem-humorado, aparece como um assassino, enquanto Oppenheimer foi substituído por um gêmeo fictício que é um serial killer canibal. Feynman é descrito como um megalomaníaco narcisista, enquanto Von Braun tem um braço robô e deserta da Alemanha envenenando todos os seus colegas do programa científico nazista. Roosevelt, depois de morto, se transforma em uma inteligência artificial armazenada em computadores primitivos, enquanto seu vice Truman é arrancado de uma cerimônia maçônica para ser informado sobre a verdadeira face do Projeto Manhattan.

Na versão de Hickman & Pitarra, o projeto secretamente destinado a abrir portais que levam dimensões místicas ou alienígenas. Uma guerra sobrenatural secreta ocorre nos bastidores do conflito bélico. A teoria de conspiração de que as autoridades estariam em contato com ufonautas também é representada, e tudo se complica quando a atividade de abertura de portais chama atenção de E.T.s que querem usá-la para vencer as distâncias cósmicas.

Também publicado originalmente pela Image, Projeto Manhattan reflete o interesse da ficção pós-modernista americana com a bomba atômica e o momento histórico que a pariu. Seu revisionismo busca ampliar a face monstruosa dessa arma. Às vezes, o caráter monstruoso de algumas coisas só se estabelece em nossa consciência pelo exagero da arte visual e da ficção.

–Roberto Causo

Ministério do Espaço (Ministry of Space). Texto de Warren Ellis, arte de Chris Weston e cores de Laura Martin. Introdução de Mark Millar e posfácio de Warren Ellis. São Paulo: Devir Livraria, 2015, 96 páginas. Capa de Chris Weston. Capa dura. Tradução de Marquito Maia. ISBN: 978-85-7532-592-6

Projeto Manhattan Volume 1 (The Manhattan Projects Volume 1). Texto de Jonathan Hickman, arte de Nick Pitarra e cores de Cris Peter. São Paulo: Devir Livraria, 2015, 150 páginas. Brochura. Tradução de Marquito Maia. ISBN: 978-85-7532-599-5

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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