Inferno

“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
Dante Alighieri

Robert Langdon está de volta para resolver um mistério envolvendo obras de arte, Europa, a Igreja católica e uma mulher atraente. Até aí, nenhuma novidade e nada que diferenciasse Inferno dos livros anteriores. Mas dessa vez o perigo não é um supervilão disposto a matar todo mundo de formas aterrorizantes, nem uma sociedade secreta. A própria humanidade é a vilã de todo o livro.Em uma corrida contra o tempo em Floreça, na Itália, Dan Brown coloca em cena A Divina Comédia, de Dante Alighieri, junto com a polêmica questão da superpopulação mundial. Ao lado de Siena Brooks, uma médica com inteligência muito acima da média, o professor de Harvard precisa solucionar o mistério envolvendo um quadro do Inferno e sua falta de memória. Aparentemente, ele esqueceu tudo o que passou nos últimos dois dias.

O livro é como todos os outros do autor: corridas desenfreadas, capítulos curtos, personagens bem construídos, longas explicações sobre locais e obras de arte, e a necessidade de ler ao lado do computador, para consultar o Google a cada momento e ter ideia do que ele está falando. No entanto, apesar de trazer a obra de Dante, que retrata o Inferno, o Purgatório e o Paraíso católicos, o autor dirige apenas uma crítica à Igreja, talvez cansado de bater de frente com ela. Dessa vez, apenas sugere que os religiosos deveriam ter uma mente mais aberta em relação à sexualidade e contraceptivos.

Um ponto negativo do livro é como ele é conduzido: não dá para você chegar à conclusão nenhuma e tudo o que imaginava ser correto é virado de ponta cabeça no final da história. Ou seja, por mais inteligente e perspicaz que seja o leitor, ele não vai resolver o enigma com as pistas colocadas ali, pois o autor joga migalhas e guarda o resto para as últimas cinquenta páginas. Não é necessariamente ruim, mas parece que o leitor é subestimado.

Mesmo assim, Dan Brown, ao trazer A Divina Comédia para as páginas de seu livro, fazendo tantas alusões a ela, quem sabe não instiga leitores que talvez nunca tivessem a oportunidade ou curiosidade a ler a obra completa. Escrita em forma de versos no início do século 14 e dividida em três partes, foi escrita por Dante Alighieri em no dialeto da Toscana, região do autor, que mais tarde deu origem à língua italiana falada hoje.

Informação e cultura nunca são demais, mesmo que venham no formato de livros com histórias previsíveis e um tanto quanto clichês. Assim como em seus outros livros, por trazer temas polêmicos, ele consegue instigar o debate.Aliás, a temática do livro, como já dito, é a superpopulação. Com cálculos matemáticos, o vilão expõe uma verdade inquestionável: os seres humanos se reproduzem muito rápido e o planeta não está dando conta de todo mundo. Dessa forma, ele procura um meio de resolver o problema usando meios biológicos. Aficionado pelo livro de Dante e pelo período da Peste Negra, ele encontra a solução para o problema, ou pelo menos o que ele acha que deve ser a solução.É preciso admitir que, apesar de todos os clichês da obra, ela faz o leitor para e pensar sobre o planeta. E pensar também sobre as doenças e sua razão de existência, que é o controle da população. Não dá para terminar o livro e não refletir sobre as informações ali colocadas e sobre a solução encontrada pelo vilão. Haverá outra saída para a humanidade ou ela vai ser autoextinguir nos próximos anos?

Fica complicado permanecer sempre do lado do bem nessa história. Em alguns momentos, o mal faz tanto sentido e parece tão certo que dá até mesmo para se pegar torcendo para Langdon fracassar em sua busca. Até mesmo concordar com alguns pontos colocados pelo vilão, ou com a solução encontrada por ele. Se estamos em crise, é hora de escolher um lado. O que é mais complicado do que realmente parece, pois as implicações de cada um são complexas e, às vezes, um pouco extremistas ou consideradas moralmente inaceitáveis.

“(…) A negação é um elemento essencial do mecanismo de defesa humano. Sem ela, todas as manhãs acordaríamos apavorados só de pensar em todas as maneiras como poderíamos morrer. Em vez disso, nossa mente bloqueia o medo existencial, concentrando-se em estresses com os quais podemos lidar: como não chegar atrasado no trabalho ou como pagar as contas em dia. Mesmo que tenhamos medos mais graves, de natureza existencial, nós os descartamos bem rápido para nos concentrar em tarefas simples e banalidades cotidianas (…)”.
Inferno – Dan Brown

Dan Brown, Inferno (Inferno). Editora Arqueiro. Tradução: Fernanda Abreu e Fabiano Morais. 448 páginas. 

Gabriela Colicigno

Jornalista, ruiva, nerd, geek e louca por chocolate. Passa a maior parte do tempo do dia no computador, vendo seriados no Netflix, lendo um livro, ouvindo música ou brincando com os gatos.

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