La La Land – Cantando Estações

Por não gostar de musicais, a experiência de assistir a La La Land: Cantando Estações (La La Land, EUA, 2016), do diretor Damien Chazelle, se mostrou uma ótima oportunidade para colocar em prática certos preconceitos e escrever uma resenha cheia de adjetivos falando mal do filme. Desse modo, sinto que devo começar este texto dizendo o seguinte: para todos os efeitos, La La Land é, na verdade, um bom filme.

Ele tem um elenco de atores carismáticos, centrado essencialmente nas figuras de Ryan Gosling e Emma Stone, como Sebastian e Mia respectivamente, uma fotografia esplêndida, uma excelente trilha sonora cheia de músicas cativantes e uma direção impetuosa de Damien Chazelle. É, provavelmente, o melhor musical que eu vi em anos, o que, levando-se em conta que eu fiquei muito pouco impressionado com os grandes musicais recentes – Chicago, Moulin Rouge, Os Miseráveis –, é uma vitória por si só.

La La Land também é um filme projetado para ganhar o Oscar. Ele tem todos os elementos que agradam a Academia, principalmente o fato de que ele se refere constantemente à própria indústria do cinema. É esse, porém, seu maior problema.

Tudo no longa-metragem é milimetricamente calculado. Sua fotografia com cores vibrantes e um clima retrô é uma referência aos grandes musicais dos anos 1950 e 1960 e as músicas também funcionam de modo a criar um clima nostálgico. Certamente são músicas cativantes. Fáceis de cantarolar e que vão do vibrante ao romântico com uma excepcional qualidade de orquestração. Agradarão e muito ao público do mesmo modo que agradou à crítica, nacional e internacional. Mas todas as qualidades técnicas de La La Land não compensam sua total falta de originalidade.

Não há nada de novo ou excepcional no romance entre os personagens principais Mia e Sebastian, e, consequentemente, em todo La La Land. Ambos são personagens estereotipados: ela, uma atriz que não consegue emprego em Hollywood. Ele, um pianista de jazz que sente ultrapassado, que quer construir seu próprio clube e não consegue. Ambos são representações superficiais das dificuldades de jovens artistas na indústria do entretenimento, que encontrarão percalços e finais agridoces em suas respectivas jornadas.

De fato, La La Land é menos ingênuo do que eu pensei que seria, mas ele tem algumas dificuldades em encontrar seu próprio argumento. Ele é uma crítica ao modo como a Indústria em si funciona, uma sátira, ou uma homenagem? É possível que ele seja todas essas coisas ao mesmo tempo, mas, se for o caso, isso o torna um filme bastante paradoxal.

Em um nível técnico, como mencionado anteriormente, o filme é amparado pela ótima trilha sonora e por atores carismáticos, embora seja importante ressaltar que Emma Stone se sobressai em relação ao seu colega masculino nas partes do longa em que é necessário cantar. E a direção energética de Damien Chazelle, que pouco me impressionou em Whiplash, de 2014, parece mais refinada em La La Land (embora a insistência em planos-sequência pareça cansativa e batida a este ponto). Pena, portanto, que a história contada não esteja à altura da qualidade técnica do filme e que ele não traga nada de novo ao enorme panteão de musicais que marcaram sua presença na longa história de Hollywood.

Já faz muitos anos – grande porção da última década – que a Academia tem premiado filmes com base em duas propostas que se repetem, ad infinitum: filmes que retratam uma determinada conjuntura histórica-social (como Quem Quer ser um Milionário, Guerra ao Terror, 12 Anos de Escravidão e Spotlight) ou filmes que falam sobre a própria Indústria (como O Artista, Argo e Birdman). La La Land se encaixa na segunda categoria. E já faz um bom tempo desde que filmes únicos e verdadeiramente ousados (como O Senhor dos Anéis, de 2003, e Titanic, de 1997) não encontram seu caminho até a estatueta mais importante da premiação.

O desdém especial da Academia para com filmes de gênero, privou grandes longas-metragens como Mad Max, Avatar, O Labirinto do Fauno, O Curioso Caso de Benjamin Button, O Cavaleiro das Trevas e Gravidade de serem justamente coroados como o melhor filme de seus respectivos anos. Sempre defendi que a estatueta de Melhor Filme deveria ser entregue a obras que se destacam, que são novas, que trazem avanços tecnológicos sem os quais elas não seriam feitas. Que são atemporais. Que não são esquecidas, justamente por que se destacam.

A bola da vez está com A Chegada (Arrival) do diretor Denis Villeneuve, o filme que mais me fez pensar, que mais me provocou e que mais fez com que eu me sentisse dentro de uma experiência diferente de todas as outras que eu já tive em uma sala de cinema. Pena que é uma obra de ficção científica, e a Academia já demonstrou incontáveis vezes que esse tipo de filme não merece seu lugar entre os vencedores de seu mais prestigiado prêmio (não importando quanta discussão eles geram, quanto dinheiro eles rendem ou quanto a crítica gosta deles). Decerto, La La Land levará todos os prêmios, assim como o fez nos Globos de Ouro, mas ele é só mais um entre outros. É um bom filme, mas, desde quando “bom” deveria ser o bastante?

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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