Logan: A Redenção de Wolverine

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Há oito anos que eu e os demais fãs da franquia X-Men esperamos por um filme decente do personagem Wolverine, que talvez seja um dos mais queridos de todos os universos de histórias em quadrinhos. A primeira tentativa de fazer um filme solo do herói, resultou no grotesco X-Men Origens: Wolverine, dirigido por Gavin Hood (que também capitaneou O Jogo do Exterminador). Desde então, o personagem não encontrou sua luz ao sol: Wolverine: Imortal de 2013, dirigido por James Mangold, foi uma tentativa válida, porém mal-sucedida de transformar a saga do Carcajú em algo sombrio, violento e, digamos, digno do personagem. As coisas andavam bem até o terço final, quando o CGI emplacou e o rendimento do roteiro caiu.

A própria franquia dos X-Men como um todo, sofre do fator oito ou oitenta: alguns filmes são muito bons (como X-Men X-Men: Dias de um Futuro Esquecido), enquanto outros são muito ruins (como X-Men: O Confronto Final X-Men: Apocalipse). Mais eis que o próprio James Mangold, que dirigiu o último filme do Wolverine, retornou vingativo este ano com Logan (Logan, EUA, 2017), que talvez seja o mais brutal, sombrio, adulto e melhor filme de super-heróis dos quadrinhos da história do cinema.

O futuro dos X-Men é sombrio em Logan. O filme se passa no futuro distópico de 2029: nenhum novo mutante nasceu em 25 anos e algo terrível aconteceu com o grupo de mutantes comandados pelo professor Xavier (Patrick Stewart). Xavier, por sinal, está com Alzheimer, o que pode ser muito perigoso para um mutante com poderes telepáticos como os dele. Às vezes ele tem crises convulsionais que são potencialmente letais para as pessoas que estão próximas: desse modo, é mantido em isolamento dentro de uma fábrica abandonada.

John Logan (Hugh Jackman), ou, como gostamos de chamá-lo, Wolverine, também enfrenta seus próprios problemas. Ele já não consegue mais de regenerar tão bem, rendeu-se totalmente ao álcool e trabalha como chofer para juntar dinheiro e comprar um barco, levando ele e o professor para o meio do oceano, onde os dois poderão viver em paz.

Mas eis que Logan é chamado de volta à ação com o aparecimento de uma misteriosa garota chamada Laura (Dafne Keen), que tem super-poderes parecidos com os do próprio Logan. Juntos, ele, ela e o professor Xavier fugirão de um grupo de perseguidores comandados por Pierce (Boyd Holbrook) que quer recuperar a criança a qualquer custo.

Logan é um filme diferente de todos os outros longas da Marvel. Para começar, ele  é muito mais violento — até mesmo que Deadpool, o último grande lançamento do estúdio a ser classificado para maiores nos Estados Unidos. Mas ao contrário de seu predecessor, Logan é um filme sério,  sombrio e esmagadoramente triste, que confia em atuações sólidas e dramáticas, ao invés do humor bobo e irreverente de Ryan Reynolds (que tem seus méritos, mas que pode dar uma impressão errada à quem for ver Logan esperando a mesma coisa).

James Mangold criou para o longa-metragem um clima parecido com o de um faroeste, confiando muito pouco em CGI e criando imagens etéreas com aquela qualidade austera conhecida dos filmes western americanos. Ele também faz constantes alusões à Os Brutos Também Amam (1953), no qual o protagonista, Shane, um pistoleiro renegado que busca mudar de vida é chamado por uma família para ajudá-los – muito parecido com Logan.

O resultado é um filme cru e sóbrio, mas não desprovido de calor humano. Com 137 minutos, é o segundo X-Men mais longo da história da franquia, e os fãs mais ávidos pelo Carcajú e suas habilidades em fatiar humanos podem se decepcionar com a falta de ação no filme. Porém, essa talvez seja sua maior qualidade: Logan é focado em seus personagens e suas relações, não em elaboradas sequências de ação. Essa é uma qualidade rara em filmes de super-heróis e que merece ser apreciada: são os momentos protagonizados pelos três atores principais que valem o filme, e o que o diferenciam de outras obras do tipo.

Aconselho cautela a quem for assistir Logan . É um filme diferente, violento em mais de um sentido e que lida com questões muito séries sobre abuso infantil, envelhecimento, mal-uso da ciência e o verdadeiro peso de estar destacado do restante da humanidade. Aqueles que buscam um filme divertido e emocionalmente opaco devem se decepcionar, enquanto os que querem um longa-metragem com personagens densos e bem-explorados com um forte impacto emocional enxergarão em Logan um dos melhores filmes de super-heróis da história do cinema.

Logan A Chegada provam está na hora de pararmos de achar que filmes de gênero são bobos

Uma coisa que eu sempre falo no Who’s Geek é que os filmes de gênero — ficção científica, fantasia e horror — precisam, um dia, escapar do estigma de serem considerados pela crítica e público como filmes “bobos”. Incontáveis são os exemplos de obras que desafiam nossas mentes e nos comunicam lições importantes sobre a humanidade e a condição humana, às vezes com mais eficiência do que filmes, ditos, “sérios”. Exemplos vão desde O Dia em Que a Terra Parou (1951), O Incrível Homem que Encolheu (1957) e 2001 Uma Odisseia no Espaço (1968), até Gravidade (2013) e Mad Max: Estrada da Fúria (2015), entre tantos outros produzidas desde que o cinema surgiu.

Mais recentemente, A Chegada (Arrival, EUA/CAN, 2016) e Logan (Logan, EUA, 2017) provaram que filmes de ficção científica são muito bons para analisar nossa sociedade contemporânea, ao mesmo tempo em que comunicam com incrível potência, histórias sobre as mais pessoais, profundas e dolorosas experiências humanas. São ambos filmes memoráveis que também falam sobre paternidade, comunicação e responsabilidade, que elevaram até mesmo nossos padrões do que esperar desses filmes. Logan, por sua vez, tem sido chamado por fãs e membros da imprensa especializada como o melhor filme baseado em histórias em quadrinhos de todos os tempos, com razão. Nenhum outro filme desse tipo, tratou de personagens de HQs de forma tão adulta e profunda, nem mesmo O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan, que, apesar de ser um filme espetacular, desbarranca um pouco em seu terço final. Logan, assim como A Chegada, é um longa-metragem econômico, mais focado em personagens e seus dilemas do que em tramas e subtramas repletas de ação e efeitos especiais.

Este ano, A Chegada foi indicado aos Oscars de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado, mas perdeu nas três categorias. Como comentei aqui na resenha de La La Land (que também perdeu Melhor Filme), a Academia tende a ignorar grandes filmes de gênero em suas principais premiações, não importando quanta discussão, bilheteria e críticas positivas eles geram. Filmes maravilhosos como Gravidade, O Cavaleiro das Trevas, O Curioso Caso de Benjamin Button Mad Max não receberam a honra do prêmio de melhor filme do ano simplesmente por serem de ficção científica. O último a quebrar esse ciclo foi O Senhor dos Anéis, épico de fantasia dirigido por Peter Jackson e baseado na obra de J.R.R. Tolkien, que, em 2004 abocanhou 11 prêmios — incluindo melhor filme. Além dele, somente o filme de terror O Silêncio dos Inocentes (1991) recebeu tal honraria.

Eu vejo que Logan elevou o padrão do que devemos esperar de filmes baseados em HQs. Demorará um tempo até que os cineastas enxerguem o verdadeiro potencial de seus trabalhos, mas acredito que este filme criou um precedente positivo. E, ao lado de A Chegada, mostrou mais uma vez que filmes de gênero, quando nas mãos certas e com liberdade criativa, são muito bons em criar discursos fidedignos acerca do ser humano e da condição humana neste violento e dividido mundo em que vivemos hoje. A audiência generalizada e os críticos estão lentamente percebendo isso. Quanto à Academia… bom, essa é uma tarefa mais difícil.

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