Mad Max Estrada da Fúria: Que Dia Adorável

Em 2014 eu reclamei que nenhum filme realmente me surpreendeu, de modo que eu saí do cinema pensando ter passado por uma experiência inesquecível. Eu pensei que Interestelar de Christopher Nolan seria essa experiência, mas sua imaginação visual foi seriamente prejudicada por constantes diálogos ruins e problemas de narrativa. Eu pensei que o eventual vencedor do Oscar, Birdmanseria essa experiência, mas ele se mostrou um filme presunçoso e pouco profundo, apesar de ser brilhantemente filmado.

Então é de se surpreender que Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, AUS, 2015) seja justamente esse filme. Dirigido por George Miller, que por quase 30 anos dedicou sua carreira a filmes infantis (Babe: O Porquinho Atrapalhado de 1995 e Happy Feet, o Pinguin, de 2006 por exemplo), Mad Max retornou ao cinema de ação para mostrar ao restante dos cineastas como se faz. Sente-se e contemple, pois a carreira de Miller como cineasta começou justamente com a trilogia de Mad Max que foi lançada entre 1979 e 1985. Trata-se de um diretor que sabe o que está fazendo.

Mad Max 6 CortadoMax (Tom Hardy) é um ex-policial que perdeu a família pouco tempo antes do planeta ser devastado por uma guerra nuclear. De certa forma, o mundo exterior é uma representação do interior do personagem, um indivíduo que segue a esmo pelo deserto, sem razão nem propósito, reduzido unicamente ao instinto de sobrevivência. Ele acaba sendo capturado logo no começo do filme pelos guerreiros de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne que, no filme original de 1979 interpretou o vilão “Cortapé”) que controla a distribuição de água e de combustível da região.

Eventualmente a concubina de Immortan Joe, Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) fica descontrola e rouba um caminhão de guerra com uma carga preciosa, e Max é usado como bolsa de sangue viva para Nux, interpretado por um formidável Nicholas Hoult, durante a perseguição. No entanto, seu papel na história se tornará muito mais importante conforme a narrativa avança: Furiosa busca chegar à sua terra natal e, consequentemente, dará um novo significado à vida aparentemente perdida de Max.

Mad Max 3 CortadoQuando os dois se encontram pela primeira vez, Max está usando uma máscara e parece um animal selvagem, e ela diz a ele: “Aposto que você quer tirar isso da sua cara”. Quando os dois se enxergam pela primeira vez sem máscaras, Tom Hardy e Charlize Theron em dois dos melhores papéis de suas carreiras formam um vínculo que se encontra somente em seus olhos. Esqueçam os diálogos, George Miller não precisa deles.

Ele não precisa de computação gráfica também. As coisas em Mad Max são reais, em sequências propulsionadas por um ímpeto incontrolável, brilhantemente fotografadas por John Seale – que foi tirado da aposentadoria para fazer este filme – e editadas por Margaret Sixel, esposa do diretor. E no fundo a impetuosa trilha sonora de Junkie XL define o tom do filme.

Mad_Max_2Mad Max: Estrada da Fúria poderia ser somente um filme de ação – e se fosse já seria um notável, mas George Miller tinha algo a mais em mente. Aos 70 anos ele mostra uma energia admirável, mas, simultaneamente muita disciplina criativa. Todo seu mundo, por mais absurdo e extravagante que seja, possui coerência. Não é somente uma questão de física, mas como de ética também: existe ação e reação, escolhas e consequências.

Seu núcleo feminista, talvez um dos mais marcantes da história da ficção científica moderna, pode surpreender alguns, mas não será a única surpresa de Mad Max. Os trailers até então enfatizaram ao máximo o aspecto “insano” do filme, mas há mais do que isso em Estrada da Fúria. Mesmo no cruel universo criado por George Miller, ainda há espaço para evolução, redenção e até mesmo ternura: em um mundo agravado pelas mais devastadoras das adversidades, humanidade é algo difícil de extinguir.

Mad Max: Estrada da Fúria

 

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

Um comentário em “Mad Max Estrada da Fúria: Que Dia Adorável

  • 24/05/2015 em 20:39
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    Gostei, bastante. Aumentou a minha vontade de ver o filme. O blog é ótimo 🙂

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