Devir traz de volta HQs do mestre Watson Portela

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paralelas_2Nenhum artista brasileiro de quadrinhos marcou mais a agitada cena dos anos 1980 do que o pernambucano Watson Portela. Com suas HQs de ficção científica surrealista e cyberpunk, muito influenciadas pelo francês Moebius (1938-2012) e pela estética da revista Heavy Metal, teve impacto maior até do que o do virtuoso do pincel, Mozart Couto. A recente publicação do álbum de 136 páginas Paralelas, pela Devir Brasil, nos dá a oportunidade de conferir o trabalho desse artista que recebeu em 2015 o Troféu HQ Mix de Grande Mestre dos Quadrinhos.

Nos anos oitenta, as histórias episódicas, contestadoras e de grande exuberância visual presentes nas páginas de Heavy Metal e sua revista-irmã (e primogênita), a francesa Metal Hurlant, eram o máximo na cabeça de muitos fãs de quadrinhos. Uma explosão de revistas brasileiras tentava seguir esquemas narrativos semelhantes — especialmente os muitos títulos das editora Grafipar (num ciclo de publicações que rendeu o estudo de Gian Danton, Grafipar: A Editora que Saiu do Eixo) e Press.

Os trabalhos de Watson Portela foram uma constante então, aparecendo em muitas revistas e em fanzines de quadrinhos, que também tiveram uma explosão na época. Todo esse movimento iria redundar em um know-how de nível elevado, e muitos artistas brasileiros se viram trabalhando para o exterior (Europa, principalmente) ou abrindo escolas de desenho. Certamente não teríamos o quadro atual de tantos brasileiros trabalhando para as gigantes Marvel e DC, não fosse pelos fundamentos fincados naquela década. E Watson foi um dos principais nomes daquele momento.

A maioria das suas HQs de cunho surrealista e metalinguístico, com espetadas satíricas dirigidas à indústria internacional dos quadrinhos, apareceu em revistas da Grafipar e Press, mas também em revistas coloridas que buscavam o visual da Heavy Metal — como a Inter Quadrinhos –, e faziam parte da série “Voo Livre”. Watson também teve revista própria, Paralelas, com meia dúzia de números. O artista não ficou preso lá atrás na década de 1980, porém — ele é muito lembrado, e no começo dos anos 2000 a Opera Graphica publicou dois álbuns com histórias de Paralelas. Boa parte dessa produção está reunida no robusto álbum publicado pela Devir (que não traz, a propósito, informações sobre em quais veículos e em quais anos cada história foi publicada, o que teria sido informativo e esclarecedor).

paralelasMuitas das HQs de Watson tentam jogar com a estrutura narrativa dos quadrinhos, invertendo páginas (como na história “Alice no País da Loucura”, que abre o livro), criando transições abruptas, mudando a estilização dos personagens no meio da narrativa (como em “Silêncio Eterno”) ou dirigindo-se diretamente ao leitor. E ainda, com uma história com balões vazios ou de texto aleatório, recortado de revistas e jornais (a inquietante “Voo Livre 9”). Em alguns casos, o cenário urbano cyberpunk cede a espaços rurais, áridos, em histórias de horror. Também é comum a intrusão de fisionomias brasileiras — e de personagens com caras estilizadas na tendência europeia de Tintin, por exemplo –, e a longa HQ “O Rei Orobó IV” é uma sátira da politicagem cangaceira, oligárquica e evangélica que a gente vê em tantos rincões brasileiros.

A arte de Watson também é fruto de um momento pós-Abertura Política e pós-ditadura militar, época em que o regime tentava regular a sexualidade do brasileiro, e por isso tem um forte elemento de “sexploitation” como qualidade transgressiva e libertária. Versátil e muitas vezes metalinguístico, Watson tem histórias que são quase-Moebius, como “Voo Livre 2”, enquanto “…Zero! Instante Um” parece parodiar, também de maneira subversiva, as aventuras de Valérian e Laureline, série de ficção científica criada pelos franceses Pierre Christin & Jean-Claude Mézières. Tais histórias são sempre uma correria contra ameaças que se alternam quadrinho a quadrinho. Cansa um pouco, mas tem-se neste livro uma nova oportunidade de se apreciar a obra desse artista tão característico de um momento especial na história dos quadrinhos nacionais.

Paralelas, Watson Portela. São Paulo: Devir Brasil, 2015, 136 páginas. Capa de Watson Portela. ISBN: 978-85-7532-610-7

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