Missão espacial secreta para primeiro contato com E.T.s

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Sintonizada com a atenção que o recente filme A Chegada traz ao tema do primeiro contato, a Devir Brasil lançou em 2016 uma ótima história em quadrinhos dentro do tema: Carta 44 Volume 1: Velocidade de Escape. Escrita por Charles Soule e desenhada por Alberto Jiménez Albuquerque, apareceu originalmente pela Oni Press em 2014 e 2015.

O álbum de 160 páginas acompanha o presidente eleito dos Estados Unidos, Stephen Blades, quando ele assume o cargo e descobre a existência de uma missão secreta da NASA. Nela, uma tripulação mista de cientistas e militares composta de nove homens e mulheres, viaja até o Cinturão de Asteroides. A jornada dura mais de três anos, e busca investigar a presença de um artefato alienígena nessa região do Sistema Solar. Mais do que as duas guerras em andamento e as dificuldades econômicas e sociais sofridas pelos EUA nesse instante, é essa missão secreta o assunto de Estado que mais preocupa Blades.

A presidência dos Estados Unidos virou assunto de romances, filmes e séries de TV desde que Bill Clinton se tornou um presidente polêmico e pop na década de 1990. O presidente americano – que controla arsenais nucleares e outras armas estratégicas como porta-aviões capazes de derrubar governos de um dia para o outro, e administra a maior economia do mundo – é a autoridade mais importante do planeta. Ler Carta 44 neste momento, posterior à eleição de Donald Trump, traz uma outra sincronicidade interessante a esta HQ de fôlego e complexidade.

O roteirista Soule trabalha com interesse o seu presidente: Stephen Blades é um ex-lutador de boxe casado com uma mulher latina. Soule o caracteriza bem como presidente, fazendo-o aparecer em reuniões ministeriais, conversas com assessores, e em confrontos com o seu antecessor, o matreiro e cínico Francis T. Carroll. Faltou apenas mostrar Blades tratando com o vice-presidente (nunca mencionado) e com membros do seu partido ou do partido adversário. Carroll, a propósito, funciona como o deflagrador das situações desta competente história em quadrinhos: ele deixa a Blades uma carta – a “Carta 44” do título, com o número em referência ao 44.º Presidente dos Estados Unidos –, tratando quase que exclusivamente desse segredo de Estado.

Enquanto isso, no espaço, há descrições também consistentes do que a tripulação da espaçonave Clarke (numa de várias referências ao filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço, co-escrito pelo mestre inglês da ficção científica hard, Arthur C. Clarke) faz em sua missão. Incluindo algumas surpresas.

Essas surpresas têm a ver com o fato de Soule construir Carta 44 como uma HQ adulta, no sentido de admitir que personagens de quadrinhos tenham sexualidade e comportamentos idiossincráticos. Por exemplo, na Clarke se estabelece um regime de amor livre, com as duas mulheres e um rapaz gay da tripulação dando conta do recado. Inclusive, a comandante da missão, Charlotte Hayden, está grávida e não sabe (nem quer saber) quem é o pai da criança. É claro, quando a sua bolsa amniótica rompe – e em gravidade zero –, não dá mais pra segurar essa revelação. E mesmo aí, Soule reserva uma surpresa muito bem armada. Agradavelmente inovadora, essa dinâmica entre os tripulantes da nave pesa mais neste primeiro volume, do que a tecnologia alienígena com que eles se deparam.

Também há surpresas na Terra, com um assassino profissional bastante incomum, acionado para complicar o desejo de Blades de revelar ao público americano – e global – a existência da missão secreta e do seu extraordinário objetivo. Esse objetivo, e o caráter circunspecto do presidente, lembram algo da sua contraparte do romance de Greg Bear, The Forge of God (1987), em que máquinas alienígenas pousam em várias partes da Terra para destruir o planeta, partindo a crosta terrestre feito uma broa de milho.

Parte das ambições de Blades é utilizar a tecnologia bélica dos cientistas que acompanham a missão da Clarke – criada para enfrentar a ameaça alienígena se ela se firmar como hostil – para riscar da pauta as duas guerras em curso na Terra. Para além da órbita de Marte, os exploradores espaciais têm momentos de aventura e sacrifício na superfície de um asteroide tomado por máquinas alienígenas. Há algumas ideias científicas saborosas, nesse ponto.

Desenhos de Alberto Jiménez Albuquerque
Desenhos de Alberto Jiménez Albuquerque

Bem traduzido pelo experiente Marquito Maia, Carta 44 tem como destaque o roteiro sólido, inteligente e vigoroso de Soule. (Exceto por uma estranha gafe de continuidade, que chama a atenção, embora possa ser reparada num volume posterior: o astronauta Cary Rowan é dado como morto em ação, mas o leitor não testemunha a sua morte; ele apenas desaparece do enredo.) Não apenas Soule alterna habilmente as situações, como lida bem com o lado FC hard da história, que reserva revelações interessantes sobre a natureza da tecnologia alienígena no Cinturão de Asteroides. O desenho tosco e caricato de Albuquerque, porém, é menos hábil. Ele até que funciona com o roteiro, e às vezes é inesperadamente expressivo, mas o leitor fica imaginando quantas dimensões a história ganharia, se no lugar dele estivesse um desenhista com domínio anatômico e habilidade com design de máquinas, trajes e estruturas. Stuart Immonen ou Jerome Opeña – até mesmo um Yukinobu Hoshino.

Velocidade de Escape termina com situações fechadas, mas basicamente acaba em um momento de suspense, tanto na Terra quanto no Espaço. Aguardamos ansiosamente o segundo volume.

— Roberto Causo

Carta 44 Volume 1: Velocidade de Escape (Letter 44 Volume 1: Escape Velocity), de Charles Soule e Alberto Jiménez Albuquerque, com cores de Guy Major e Dan Jackson. Tradução de Marquito Maia. São Paulo: Devir Brasil, 2016, 160 páginas. ISBN: 978-85-7532-623-7

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