No Limite do Amanhã: O Inferno é a Repetição

Stephen King disse uma vez, que o inferno é a repetição. Não podia estar mais certo. A premissa de No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, EUA, 2014), baseado no mangá All You Need is Kill de Hiroshi Sakurazaka já é manjada. Foi tema do conto de Stephen King, “Aquela Expressão Que Só Pode ser Dita em Francês”, do filme estrelado por Bill Murray, O Feitiço do Tempo, de 1993 e de Contra o Tempo, com Jake Gyllenhaal.

No Limite do Amanhã

Em O Feitiço de Tempo, um meteorologista rabugento revive o mesmo dia eternamente. Algo semelhante acontece com Tom Cruise em No Limite do Amanhã. Diante de uma invasão alienígena, o Major Bill Cage, é responsável pela publicidade de uma missão que deveria dar cabo dos invasores. No entanto, quando Cage chega nas praias de uma Inglaterra ocupada, ele descobre que os inimigos já estavam esperando por eles. O resultado é um massacre que termina com Cage morrendo e acordando de novo, exatamente um dia antes.

No Limite do Amanhã

Cage descobre ter sequestrado o poder dos alienígenas de manipular o tempo. Toda vez que ele morrer, acorda um dia antes. Conforme as batalhas vão se acumulando, ele se torna um guerreiro mais habilidoso. Ele encontra uma mulher chamada Rita (Emily Blunt), também conhecida como “A Megera de Ferro” que experimentou o mesmo fenômeno de Cage em um outro momento.

Juntos, eles procurarão uma maneira de derrotar o inimigo uma vez por todas. O relacionamento dos dois é muito divertido, mas, do ponto de vista de Cage, que vê a colega morrer repetidas vezes sem conseguir salvá-la, ele se torna simbólico conforme a narrativa avança. Cruise, depois de sua incursão no universo da ficção-científica com Oblivion (2013) parece ter melhorado como ator. Em um curto espaço de tempo, ele consegue dar uma profundidade e um desenvolvimento de personagem de forma inesperada. É em seus olhos que o espectador contempla a interminável sequência de repetições, a tristeza e o cansaço que elas trazem.

Emily Blunt também está surpreendente, mesclando atitude e vulnerabilidade de forma equilibrada, e responsável pelo desenvolvimento do personagem de Cage, conforme sua espiral de violência se aproxima de conclusão. Bill Paxton (de Titanic), como um sargento com forte sotaque americano e Brendan Gleeson (de Harry Potter e o Cálice de Fogo) como um general teimoso, têm participações marcantes.

No Limite do Amanhã

A narrativa de No Limite do Amanhã traz todos os componentes de um videogame. Para avançar no percurso, o jogador, ou neste caso, o soldado, precisa passar por diversas fazes e desafios. Toda vez que ele morre, começa de novo, até que chegue na última fase. Esse tipo de narrativa é dinâmica, mas causa um problema. A prerrogativa da viagem do tempo costuma ser um dos temas mais difíceis de se trabalhar pelos escritores de ficção-científica, e é muito difícil de amarrar. No fim, No Limite do Amanhã sofre de um problema recorrente: propõe mais do que cumpre.

É verdade também que o filme merecia um final melhor do que ele recebeu. Mas No Limite do Amanhã é uma ficção-científica inteligente, com bons diálogos, boas atuações, sequências intensas de ação intercaladas por momentos humanos e que melhora conforme avança. E, para um filme sobre repetição, ele nunca parece cansado nem repetitivo.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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