Nova Edição de ‘O Planeta dos Macacos’ Lembra a Importância da Franquia

Será que a gente ainda se lembra que, antes de Star Wars, O Planeta dos Macacos foi uma das primeiras franquias marcantes – com cinco longa metragens, uma série de TV, uma série de animação (de qualidade incomum na época), histórias em quadrinhos, álbuns de figurinhas e, no Brasil, paródias e pastiches, incluindo um programa humorístico de sucesso, O Planeta dos Homens? A franquia até gerou um especialista brasileiro, o jornalista, fã e fanzineiro Saulo Adami, autor de O Único Humano Bom É Aquele que Está Morto! (Aleph, 1996) e de Homem Não Entende Nada! (Estronho, 2015).

O Planeta dos Macacos passou por um reboot recente nos cinemas, trazendo de volta às praias brasileiras o livro que deu origem ao filme, um romance de 1963 escrito pelo francês Pierre Boulle – autor do romance base para o clássico do cinema, A Ponte do Rio Kwai (1957), dirigido por David Lean. A nova edição do romance de FC de Boulle, pela Editora Aleph, de São Paulo, revisita uma competente tradução de André Telles, publicada antes em 2005. Traz um bom conteúdo extra, com destaque para o ótimo comentário de Braulio Tavares, comparando as características da FC francesa com a americana.

Blockb Planeta dos Macacos
“Planeta dos Macacos: O Confronto” é um bom momento no reboot da franquia

Tudo começou com o livro, evidentemente. Mas o verdadeiro motor do sucesso da franquia foi o filme de 1968 dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Charlton Heston, com roteiro de Michael Wilson e do lendário Rod Serling, criador da série de TV Além da Imaginação. Logo gerou continuações e tudo o mais listado acima. Sua uma estética cenográfica e de maquiagem e figurino engenhosos marcou época e produziu uma iconografia impactante e duradoura – como a imagem final com a Estátua da Liberdade como um destroço afundado na areia de uma praia. As suas digitais estão até em uma produção recente – Oblivion (2013), escrito e dirigido por Joseph Kosinski.

Ao contrário do filme de Schaffner, porém, o romance de Boulle é uma sátira e não uma aventura de tons naturalistas. Para funcionar como sátira, aliás, ele abandona vários aspectos científicos consagrados – parte da biologia evolucionária e até da filologia – e adota sem questionamento o conceito da evolução paralela. Inclusive, a narrativa se apresenta como relato em primeira pessoa, preservado em uma garrafa e atirado ao espaço, para ser encontrado por um casal em lua de mel futurista. O recurso já declara que não devemos enxergar o livro como romance realista.

Quem narra é um jornalista francês chamado Ulysse Mérou, parte de uma tripulação de três homens embarcada em uma nave interestelar criada por um deles, o Prof. Antelle. A nave chega com sucesso ao sistema da Betelgeuse, e eles pousam usando um veículo menor, num planeta que chamam de Soror. Assim como no filme, logo perdem o seu veículo e as roupas, e se misturam a nativos nus ou seminus, humanos como eles. As surpresas começam quando o grupo é caçado por uma tropa de gorilas montados a cavalo e munidos de armas de fogo.

Separado dos companheiros de viagem, Ulysse vai parar em um laboratório que usa humanos como cobaias – exatamente como usamos macacos em nosso mundo. Lá ele aos poucos conquista o interesse da cientista chimpanzé Zira, o requisito básico para que possa ampliar o seu contato com a sociedade dos macacos. Zira primeiro aprende francês (é claro), e depois Ulysse domina a língua dos símios, além da história e da cultura dos seus captores. Também como no filme, há uma tensão entre a certeza da inteligência dele por parte de Zira e de seu namorado, o arqueólogo Cornelius, e o Dr. Zaius, orangotango guardião do conhecimento tradicional e enrijecido. De algum modo, o filme de Schaffner torna o papel de Zaius sinal de um tradicionalismo mais amplo, reacionário dos nossos tempos. O Zaius do filme parece mais endereçado ao academicismo francês – o esquema satírico de Boulle também iguala os gorilas aos tipos corporativos, CEOs e administradores.

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Não é bom comparar demais livro e filme, mas neste caso vale contrapor os significados. George Taylor, o herói robusto e masculino interpretado por Charlton Heston nas telas é cínico com respeito à humanidade, mas muito ciente da sua própria identidade individual, dignificado mesmo vestindo tanga de couro. Já o protagonista do livro é um homem patético que oscila entre sua natureza animal e o desejo de expressar uma superioridade cultural traduzida pelo escritor como “espiritual” – de um modo bem francês, a medida do humano está na capacidade de produzir uma cultura refinada. Os animais não teriam “alma” por não terem cultura, e a sátira de Boulle – embora tenha algo a dizer sobre o modo como tratamos os animais – mira os vícios da cultura.

O Planeta dos Macacos 2005
A boa tradução de André Telles já havia aparecido há dez anos nesta edição de O Planeta dos Macacos pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, como parte do selo PocketOuro.

Atualizando esse conteúdo, Schaffner transformou a adaptação em um grito contra a insensatez da guerra fria e da ameaça de holocausto nuclear como fundamento da política global da época. Aquilo que Boulle expressou em termos de degeneração cultural fazendo os humanos do seu planeta dos macacos cederem o domínio a outras espécies, o filme trata como choque de destruição global – ou lembrando a citação de Einstein: “Não sei com que armas lutaremos a III Guerra Mundial, mas a IV Guerra Mundial será lutada com paus e pedras.” Daí a clássica tomada final do filme, com os escombros da Estátua da Liberdade fincada em uma praia selvagem, símbolo da derrocada humana por aquela estupidez amaldiçoada por Taylor, e da escravização pelos macacos.

Embora ainda se sustente como uma sátira interessante e valha ser lido, O Planeta dos Macacos é uma dessas raras obras literárias cuja importância cresce muito pelos seus desdobramentos em outras mídias.

–Roberto Causo

O Planeta dos Macacos (Le planète des singes), Pierre Boulle. São Paulo: Editora Aleph, 2015, 216 páginas. Tradução de André Telles. ISBN: 978-85-7657-213-8

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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