O Bom Gigante Amigo – Terra dos Sonhos

Há muito o que considerar na abordagem de Steven Spielberg em seu novo filme, O Bom Gigante Amigo (The BFG, EUA, 2016), o espetacular fracasso baseado na obra de Roald Dahl (que também escreveu A Fantástica Fábrica de Chocolate).

Spielberg, que construiu uma carreira prolífica e multifacetada, passou os últimos anos dirigindo filmes políticos numa possível tentativa de ganhar um novo Oscar (tanto Lincoln, de 2012, quanto Ponte dos Espiões, de 2015 foram bons filmes indicados ao Oscar, mas que não levaram o prêmio principal). O Bom Gigante Amigo marca o retorno do cineasta às histórias voltadas para o público infantil, ao mesmo tempo em que apresenta uma linha de visão mais pensativa e até filosófica na carreira de Spielberg.

No filme, uma garotinha chamada Sophie (interpretada por Ruby Barnhill) é raptada do orfanato onde vive em Londres, e levada até a Terra dos Gigantes pelo BGA (Bom Gigante Amigo), interpretado por Mark Rylance que, recentemente, venceu o Oscar de ator coadjuvante por Ponte dos Espiões. O BGA é um gigante bonzinho que caça sonhos e sopra eles nas mentes das pessoas enquanto elas dormem – uma metáfora para o próprio processo de Spielberg – e, obviamente, ele e Sophie ficam amigos. Ele precisa protegê-la de gigantes canibais capazes de engoli-la como uma pílula.

De um ponto de vista técnico, o filme é impecável. Usando a técnica de captura de movimentos, Spielberg e companhia foram capazes de transformar o ator Mark Rylance em um gigante de sete metros de altura que parece totalmente real, e, com a ajuda de uma atuação soberba de Rylance, cheio de nuances e camadas de complexidade que vão se desdobrando conforme a trama avança.

Ruby Barnhill também tem uma performance simpática como a petulante e divertida Sophie e ambos os trabalhos mostram que a habilidade de Spielberg de dirigir atores continua única. Algumas cenas, como por exemplo, a que o BGA e Sophie vão caçar sonhos em uma terra encantada, são lindas, emocionantes e instigantes em igual medida. Outra, na qual o BGA precisa se mesclar ao cenário de Londres para evitar ser visto pelas pessoas comuns, é outro momento de incomparável beleza, delicadeza e terror que só Spielberg é capaz de conjurar.

Tudo flui perfeitamente bem até o terço final do filme. No momento em que o mundo real e o mundo mágico colidem, o filme deixa de funcionar. Quando isso acontece, não só O Bom Gigante Amigo deixa de funcionar, como ele afunda como uma pedra, para não retornar à superfície.

Escrito por Melissa Mathison, que roteirizou outro clássico de Spielberg, E.T. em 1982 (e que morreu de câncer ano passado antes do filme ficar pronto), O Bom Gigante Amigo não possui provocações que vão além de risos e lágrimas conquistados com facilidade. A primeira metade do filme constrói a personalidade do personagem de Mark Rylance repleta de nuances, de histórias e de segredos, assim como a relação entre ele e a jovem Sophie, apenas para oferecer resoluções simplistas, cujas verdadeiras implicações lentamente se dissolvem. É uma pena.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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