O Homem Duplicado: Pluralmente intrigante

O Homem Duplicado é o mais recente filme do diretor franco-canadense Denis Villeneuve, que despontou em filmes cultuados como o surpreendente e devastador Incêndios, de 2010 (e indicado da França ao Oscar pela estatueta de melhor filme em língua estrangeira em 2011) e no ano passado fez sua primeira incursão no cinema em língua inglesa com o poderoso thriller Os Suspeitos (com um título original muito mais adequado e bem-pensado, Prisoners), protagonizado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, este repetindo a parceria com Villeneuve no papel principal da adaptação da obra “O Homem Duplicado” de José Saramago. Ou seriam papéis principais?

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Na trama, o frustrado professor de história Adam Bell segue sua vida angustiantemente cíclica até que certo dia, após recomendação de certo amigo, assiste a um filme aleatório e nele avista algo surpreendente: um homem de aparência idêntica a ele. Obviamente, como qualquer um reagiria, Adam decide ir atrás do duplo para desvendar esse mistério digno dos melhores episódios de Além da Imaginação. Contar mais da história seria como aguar um filme de clima denso, intrigante e por vezes até empolgante.

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Entre os diversos trunfos do filme, nota-se primeiramente a versatilidade dos envolvidos, principalmente Villeneuve e Gyllenhaal. O diretor, com a mesma segurança vista em seus filmes anteriores, conduz a história de maneira inesperadamente acessível, mas ainda mantendo diversos detalhes sob as sombras, criando grande engajamento por parte do espectador. Jake Gyllenhaal, por sua vez, constrói sobre o que já havia demonstrado em Os Suspeitos, a capacidade de ser complexo e misterioso (e até mesmo ameaçador) com uma atuação mais controlada, dando a forte impressão de suas emoções e desejos reclusos na repetitividade de seu cotidiano. Isto é, quando falamos de Adam. O seu duplo, Anthony, é muito mais volátil e imprudente, um “ator de terceira” (como diz a personagem da veterana e sempre elegante atriz Isabella Rosselini) que anda tão frustrado quanto Adam em sua vida. O conceito de dois personagens distintos em seu interior mas idênticos em aparência permite que Gyllenhaal entregue uma atuação digna de nota, fazendo-nos lembrar de papéis seus como no clássico Donnie Darko.

Enemy (2013)

Outros aspectos de grande esmero na produção incluem a fotografia de Nicolas Bolduc, que consegue enfeiar a cidade de Ontario, no Canadá, de maneira que o mundo daqueles dois personagens pareça algo sombrio, vazio, mas que também esconde diversos segredos e dilemas, fazendo eficiente uso dos cenários escuros em cenas internas (o plano em que a luz do notebook de Adam reflete em seus olhos é simplesmente muito cool). A edição de Matthew Hannam, por sua vez, consegue comprimir as ações dos personagens de maneira enxuta e inteligente, fazendo também eficiente uso de montagem paralela, conferindo bastante ritmo à trama, que poderia ter sido facilmente como a lenta, metódica história de Os Suspeitos. Por fim, a trilha sonora original de Danny Bensi e Saunder Jurriaans é totalmente adequada ao clima obscuro do filme, acredito que ótima para quem tem um subwoofer de qualidade e quer ver a obra em Blu-Ray/ DVD.

Em poucas palavras, O Homem Duplicado é um ótimo exemplar de um cinema autoral, de baixo orçamento, por vezes até experimental, mas que rende momentos muito mais satisfatórios que qualquer batalha extensa e repleta de CGI que um blockbuster possa oferecer. Melhor ainda, deixa os espectadores com um final marcante, que dá aquela coceirinha de ir atrás de análises aprofundadas e fóruns de discussão, sem falar na obra original que o inspirou. SPOILER ALERT: mulheres e aranhas ocupam um importante papel em tudo isso.

Caio Vechiato

Caio é estudante de Rádio e TV, cinéfilo, gamer e, apesar de ter chorado algumas lágrimas, continua muito chateado com o precoce fim de Penny Dreadful.

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