O Jogo do Exterminador: A Sombra do Gigante

jogo_do_exterminador_1Quando Orson Scott Card escreveu o romance Ender’s Game: O Jogo do Exterminador  em 1985, o mundo era muito diferente do que é hoje. Naquela época, o Pacto de Varsóvia ainda estava em vigor, a União Soviética e os Estados Unidos ainda disputavam a hegemonia do poder, em um mundo que temia o fogo atômico. Hoje, os padrões e os eixos políticos mudaram. Não há mais Pacto de Varsóvia, Muro de Berlin e União Soviética. Os medos mudaram das chamas nucleares para a vingança do meio ambiente, dos vírus transmitidos pelo ar, o fim do mundo.

O grande problema que Gavin Hood (diretor de X-Men Origens: Wolverine) vai enfrentar em sua adaptação, Ender’s Game: O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, EUA, 2013), é justamente esse. O mundo mudou. As convenções sociais já não são mais as mesmas, e o mundo digital é tão avançado – senão mais – do que o visionado por Card, tantos anos atrás. Daí, Hood adentra um caminho perigoso.

Será que, porque o filme demorou tanto tempo para ser adaptado (Card vem conversando com estúdios há 17 anos, e chegou a escrever um roteiro que não foi utilizado no filme) ele parece convencional e derivativo? Em um futuro a frente do nosso, uma guerra entre a humanidade e os abelhudos (seres insetóides que vieram de outro planeta) causou um trauma irreversível no coração do mundo. Frente a frente com a própria extinção, os seres humanos responderam aos ferozes ataques alienígenas com a audácia, a astúcia e o brilhantismo de Mazer Rackman, que derrotou sozinho a esquadra inimiga e venceu a guerra.

Setenta anos depois, os governos da Terra recrutam crianças geniais para serem treinadas em uma escola de combate na órbita do planeta, e lutarem na segunda e última grande guerra contra os abelhudos.  Andrew ”Ender” Wiggin é uma dessas crianças. Ele é o terceiro filho de um casal que vive numa sociedade que só permite duas crianças. Excluído e vítima dos constantes ataques de seu sádico irmão Peter, Ender tem somente a irmã Valentine com quem contar. Até que um homem chamado Graff vai até sua casa para recrutá-lo.

Sentindo-se abandonado pela sua família e pela sociedade, Ender decide acompanhar Graff para a estação de combate, com a promessa de um sentido de existência e de uma aventura. Ele encontrará ambos, e simultaneamente nenhum, no que é um dos melhores livros da literatura de ficção científica da história, e que somente agora receberá sua adaptação para as telas, onde terá de competir com Jogos Vorazes, uma fábula sobre crianças que matam umas às outras num futuro distópico, e com a memória de Harry Potter, a história de um garoto que descobre que é bruxo e parte em uma jornada de aventura e auto-descobrimento. Ambos são derivados de fenômenos da cultura pop contemporânea, muito parecidos, nesses aspectos, com Ender’s Game: O Jogo do Exterminador.

A Saga de Ender rendeu mais três livros, intitulados Orador dos Mortos, Xenocídio e Os Filhos da Mente, mas só o primeiro é acessível tanto para jovens quanto para adultos. As primeiras experiências do garoto na Escola de Combate prendem o leitor desavisado, no que parece ser uma elaborada e muito bem escrita aventura adolescente. No entanto, conforme as páginas avançam na linguagem fluída, rápida e dinâmica do autor, as coisas começam a evoluir para algo muito mais profundo, complexo e sombrio do que o antecipado no começo do romance.

Existe mais sobre a Escola de Combate e sobre os abelhudos do que Ender acredita. O jogo Reino Encantado, no qual ele assume uma forma animal e deve escolher – diante dos olhos de um gigante – entre duas bebidas, uma venenosa e outra não, proporciona uma variedade de desafios para o jovem herói: lidar com a frustração e construir um canal de comunicação entre ele mesmo, entre seus irmãos e entre os abelhudos.

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador pode soar derivativo, já que o filme foi lançado muito depois de obras com propostas semelhantes. No entanto, é surpreendentemente atual, mesmo depois de tantas mudanças sociais, culturais e tecnológicas. Card explora, de maneira a afetar tanto adultos quanto crianças, a desumanização dos soldados, que agora lutam à distância com drones e encarando telas de computador e sofrem com stress pós-traumático com os assassinatos que cometem em suas salas. Mais do que isso, Card também conta a história de uma criança em seu caminho para se tornar adulto, e que precisa enfrentar a verdade mais escura dele mesmo. Tudo isso debaixo da sombra do gigante.

Isso também representa um dos maiores desafios a serem enfrentados pelo diretor Gavin Hood. Ver Ender crescer no decorrer dos anos que ele passa na Escola de Combate, faz parte de jornada de auto-descobrimento tanto do herói quanto do leitor. Condensar a trama de forma que somente um ator possa interpretar este personagem, irá tirar grande parte do impacto que seu crescimento teve na obra original.

No Brasil

A primeira edição de Ender’s Game no Brasil foi da Editora Aleph em 1990. Outras três edições foram vendidas, sendo que a de 2006, com tradução de Carlos Angelo, foi distribuída pela Devir com uma capa original criada por Vagner Vargas, enquanto a última, de 2013, teve lançamentos em brochura e capa dura, com uma distinta e bem trabalhada reprodução da capa do filme. Todos os quatro volumes da Saga de Ender foram publicados no Brasil pela Devir. Além do filme e dos livros, foi produzida uma graphic novel pela Marvel em 2008.

Ficha: Orson Scott Card, Ender’s Game: O Jogo do Exterminador (Ender’s Game), Devir Livraria. Tradução: Carlos Angelo. 383 páginas.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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