O Jogo do Exterminador

Baseado no livro de imenso sucesso e mesmo nome, Ender’s Game – O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, EUA, 2013) chega ao Brasil nesta sexta-feira, 20/12, com a promessa de um longa-metragem de ficção científica belo e cativante. E alcança ao menos a metade do que foi prometido – o que é sempre uma vitória.

Acompanhei o filme em uma sessão privada (cortesia da Paris Filmes – e da editora Devir, responsável pela distribuição do livro no Brasil) e devo dizer que uma coisa o filme consegue: embasbacar com a beleza visual. Tanto que já me comprometi a assisti-lo novamente nos cinemas, com direito a 3D, IMax e tudo o mais a que tiver direito. O longa é uma obra de arte visual, não há como negar. Ao menos o ponto de filme de ação divertido ele conseguiu alcançar. No entanto, a história a que se propõe a contar é muito mais profunda do que isso e, neste quesito, o diretor sul-africano Gavin Hood (de X-Men Origens: Wolverine e O Suspeito) decepciona um pouco.

No começo, a história gira ao redor do gênio mirim Andrew ‘Ender’ Wiggin (Asa Butterfield, de A Invenção de Hugo Cabret) que é chamado para frequentar a Escola de Combate – uma estação espacial que orbita a Terra e que serve para treinar soldados para a guerra contra os Fórmicos (aliens insetóides que quase levaram os humanos à extinção) – e, por isso, deve abandonar a família para se tornar um soldado. Logo ele deixa para trás a amada irmã Valentine (Abigail Breslin) e o violento irmão Peter (Jimmy Pinchak) e parte junto ao Coronel Graff (Harrison Ford) rumo ao espaço.Lá, ele é treinado para ser o comandante e líder que a humanidade precisa para alcançar a vitória na guerra que virá.

A série de livros escrita por Orson Scott Card em 1977 (e traduzida no Brasil pela editora Devir) se mostra uma grande surpresa para aqueles que não conhecem a ficção científica como um estilo literário profundo e amplo. A história de Ender Wiggin é muito mais profunda do que raios laser e naves espaciais (embora contenha essas coisas): a história de Ender consiste em uma viagem àquilo que o ser humano tem de pior. É a história do fim da infância devido à guerra e à violência, como vemos na África ainda hoje, só que se passando em um futuro avançado tecnologicamente. É um conto sobre um medo tão profundo da extinção que se ultrapassa todo e qualquer limite para evitá-la. É uma jornada sobre se encontrar, descobrir quem e o que você é e decidir se vai encarar o monstro que há em você ou se vai fugir quando for a hora.

“No momento em que eu verdadeiramente compreendo meu inimigo, compreendo bem o suficiente para derrotá-lo, então, naquele exato momento, eu também o amo. Creio ser impossível realmente compreender alguém, o que querem, no que acreditam, e não amá-los da mesma forma como eles amam a si mesmos. E então, no exato momento em que eu os amo… Eu os destruo.” – Andrew ‘Ender’ Wiggin.

Sou suspeito para comentar, pois sou fã da série de Scott Card desde que coloquei minhas mãos no primeiro livro. Portanto, foi com a expectativa lá em cima que me sentei na sala escura para começar a assistir ao longa-metragem. E isso eu posso dizer: o filme é extremamente fiel ao livro de mesmo nome. É perfeito? Não, não é. Isso simplesmente pelo fato de adaptar um livro cheio de informações em pouco menos de duas horas de roteiro. Mas a adaptação é boa e, embora não chegue à profundidade alcançada pela edição impressa, a narrativa é bem conduzida para um filme de ação.

Achei o início do filme apressado, passando tão rápido pela aparição de Valentine e de Peter que mal notamos a importância deles – que é grande uma vez que a personalidade de Ender é formada pelo lado sentimental que vem da irmã e pelo lado violento e perigoso que vem do irmão. Mas logo somos apresentados à Escola de Combate com seu domo transparente em pleno espaço sideral onde ocorrem os treinamentos em zero gravidade. À medida que os minutos voam pela tela, o espetáculo visual impressiona, embora nem sempre os atores o façam.

Asa Butterfield que esteve tão bem como Hugo Cabret deixa um pouco a desejar no papel principal, com os olhos cheios de lágrimas em mais vezes do que consegui contar (em alguns momentos encaixa, em outros parece exagerado). Por outro lado, atores como Harrison Ford, Hailee Steinfeld (a companheira mirim de Ender, Petra Arkanian), Abigail Breslin (que pouco aparece, mas convence como Valentine), Ben Kingsley (como um ótimo Mazer Rackham) e Viola Davis (como a Major Gwen Anderson) roubam a cena sempre que aparecem. Destaque mais do que merecido para os dois, que têm discussões incrivelmente poderosas e desenvolvem diálogos impressionantes apesar dos papeis coadjuvantes.Algumas atuações mirins são boas, como as de Aramis Knight (Bean) e Suraj Partha (Alai), além de Hailee Steinfeld, como Petra.

Vale lembrar que a fotografia é ótima e o roteiro foi bem adaptado, embora talvez não tão bem conduzido quanto deveria. A trilha sonora conduz bem e, embora não seja tão marcante, consegue arrepiar nos momentos necessários e levar àquele clímax que estávamos esperando. E sim, nós sabemos que Asa Butterfield tem olhos incrivelmente azuis e brilhantes, mas os closes dados pela câmera em seu rosto se tornam cansativos já depois da primeira hora de filme.

No geral, O Jogo do Exterminador pode ser apontado como um filme ótimo para as crianças e para os fãs da série de Card, além de geeks que gostem de space operas. É, sim, um filme de ação belo e cheio de explosões (embora não tão legal quanto o livro, não canso de lembrar) que diverte e merece ser visto. Ah, e merece reconhecimento também pelas batalhas em gravidade zero (que espetáculo!), lindamente feitas.
Apesar das críticas, realmente gostei do filme (já me comprometi a comprar o DVD assim que for lançado, como bom colecionador que sou) e estou torcendo pela confirmação de uma continuação. E gostei tanto que estou disposto a voltar ao cinema só pra ver de novo. E se o filme agradou a um fã xiita como eu a ponto de me fazer voltar para um segundo round, só posso dizer que alguma coisa certa ele fez. Apesar do excesso de olhos azuis em closes.

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