O Predestinado

Histórias de viagem no tempo sempre me deixaram com um pé atrás. Lidar com os paradoxos temporais envolvidos é trabalho para gente grande e esse tipo de história acaba por constituir um dos subgêneros mais complexos da Ficção Científica e da Fantasia. Talvez por quê, na maioria dos casos, os autores ou cineastas não são capazes de resolver os truncados dispositivos constituintes de uma viagem temporal.

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Por exemplo, o recente filme Looper – Assassinos do Futuro começa e se desenvolve com uma premissa brilhante: na época distópica e violente em que a história se passa, a viagem no tempo não foi inventada, mas no futuro sim. Organizações criminosas do futuro usam essa máquina temporal para enviar pessoas ao passado onde elas são mortas, dessa forma sem deixar vestígios no futuro.

No entanto, apesar de uma série de elementos fantásticos – por exemplo, a adaptação de época, as atuações fenomenais de Joseph Gordon Levitt e Bruce Willis interpretando o mesmo personagem em idades diferentes, o filme sucumbe em um final absolutamente contraditório e paradoxal. Mas um paradoxo que não é capaz de provir respostas satisfatórias para as perguntas que são deixadas no ar. O mesmo vale para o sofisticado e engenhoso No Limite do Amanhã, no qual Tom Cruise representa um soldado que precisa reviver indefinidamente o dia de sua morte até que consiga evitar a vitória de uma raça alienígena invasora.

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Therefore, um pouco de ceticismo com relação a esse tipo de filme é sempre bem vindo. Eis o caso de que foi lançado ano passado um filme chamado O Predestinado (Predestination), estrelado por Ethan Hawke (Boyhood) dos mesmos cineastas de uma distopia de vampiros futuristas bastante original chamada 2019 – O Ano da Extinção (Daybrakers) de 2009 – também estrelando Ethan Hawke.

Em O Predestinado uma polícia temporal da qual o protagonista faz parte, detém crimes e eventos terroristas antes que eles aconteçam. No entanto, não importa o que façam, esses policiais do tempo não conseguem capturar um terrorista chamado O Detonador Sussurrante, responsável pela morte de mais de dez mil pessoas em Nova York em um atentado na década de 1970.

Reescrever a história é um processo complicado e o protagonista desta história começa o filme tendo que reescrever a sua, depois que um encontro com o Detonador Sussurrante o deixa desfigurado e incapacitado por meses. Depois de um transplante facial e muita fisioterapia, ele retorna aos fluxos temporais para uma última missão.

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Falar um pouco mais sobre a trama deste filme é mergulhar de cabeça em spoilers. Assustador, pois até agora eu não disse muito do que o filme se trata. No entanto, esta elaborada e engenhosa história de viagem no tempo é uma das melhores e mais inteligentes que eu encontrei em anos. E que não se esconde atrás de paradoxos inexplicáveis, mas utiliza eles quase o tempo todo de forma que o filme parece se construir e se desconstruir enquanto você o assiste.

Detalhes ficam por conta da novata atriz australiana Sarah Snook, de uma sutileza e simpatia fascinantes, que fazem você acreditar nela sem pestanejar, idependemente do sexo que ela está representando.

Baseado em um conto de Robert A. Heilein chamado All You Zombies de 1958, O Predestinado é um filme de ficção científica singular: surpreendentemente contemplativo para uma obra do gênero, mais preocupada em sua intrincada construção narrativa do que em sequências de ação, com uma trama inteligente e complexa o suficiente para deixar sua cabeça rodopiando.

Não há muito mais que eu possa dizer dessa obra de ficção científica que foi um dos melhores lançamentos do ano passado exceto que, talvez, ela seja a mãe de todas as histórias de viagem no tempo.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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