O Regresso — Lindo, Porém Vazio

Leonardo DiCaprio precisou ser atacado e quase devorado por um urso, para ganhar seu primeiro Oscar de Melhor Ator. Ou pelo menos é o que parece, até que a premiação no dia 28 confirme ou não as nossas expectativas. É uma pena, portanto, que sua consagração como artista tenha vindo em um filme tão desapontador como O Regresso (The Revenant, EUA/MEX, 2015), que não é — nem de longe — o melhor filme de sua carreira, assim como Hugh Glass, o desbravador que é abandonado por seus colegas e volta para se vingar, não é o seu melhor papel.

Caso você tenha lido minha resenha de Birdman (se não leu, você pode conferir aqui) você entende por que eu considero o diretor mexicano Alejandro Gonzales Iñarritu um cineasta pretensioso e fraudulento. Eu sei que é uma afirmação forte e controversa para falar de um dos cineastas mais badalados de Hollywood no momento, mas, meu argumento é de que Iñarritu é incapaz de modular a forma como ele trata seus temas, ou de trazer nuances para os personagens que ele acompanha.

É o caso de O Regresso. Neste novo filme, baseado em uma história verídica, o desbravador Hugh Glass (interpretado por Leonardo DiCaprio) é atacado por um urso e deixado para morrer por seus companheiros, principalmente seu arque-inimigo John Fitzgerald (Tom Hardy) com quem ele teve atritos desde o começo da campanha. Fitzgerald não só deixa o personagem de DiCaprio para morrer em algum lugar ao norte dos Estados Unidos, como também mata seu filho, Hawk (um rapaz mestiço que nunca existiu na vida real).

Esta traição violenta é o que coloca a trama em movimento. Depois do abandono, Hugh Glass, extremamente ferido, dá um jeito de sobreviver e jura vingança contra aqueles que o traíram – o que gera mais e mais violência conforme a história se aproxima do final.

Depois de seu “experimentalismo” cinematográfico em Birdman (que é contado inteiramente como um plano-sequência sem cortes), Alejandro Inãrritu optou por uma técnica mais tradicional de narrativa em seu novo filme. Tudo é pensado para enaltecer a grandiosidade das paisagens. Dos planos abertos brilhantemente filmados por Emmanuel Lubezki até a trilha sonora de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto.

Os desempenhos dos atores também são dignos de nota. Leonardo DiCaprio teve uma performance que finalmente lhe trará o Oscar de Melhor Ator (salvo algo muito bizarro ocorrendo na premiação dia 28 de fevereiro). Sua atuação é mais física do verbal, e a Academia tende a premiar esse tipo de abordagem, mas é importante notar que este não é seu melhor filme, tampouco seu melhor trabalho. Até por que, quem rouba o filme é Tom Hardy no papel do feroz e implacável vilão John Fitzgerald, onde o ator inglês de 38 anos finalmente teve a oportunidade mostrar o quão bom ator ele é.

O maior problema de O Regresso é a falta de habilidade de Iñarritu (que também escreveu o roteiro) de trazer nuances e profundidade para a história que ele está contando. O cineasta mexicano focou seus esforços, com a ajuda do brilhante fotógrafo Emmanuel Lubezki, em criar uma experiência tão visceral e extenuante como a história que está sendo contada. Ele foi bem sucedido nesse quesito. As atuações são intensas e os visuais tão incríveis que chegam a levantar a pergunta: “como eles conseguiram filmar isso?”. Mas a história, no fim, é profundamente vazia.

Só que O Regresso quer ser mais do que isso. Ele quer ser um filme sobre espiritualismo e transcendência, só que ele não é. Ele é só uma história de ação razoavelmente bem contada sobre um homem branco em busca de vingança, numa época em que a invasão ocidental às terras indígenas no norte dos Estados Unidos daria uma história muito mais profunda e mais complexa. No fim, O Regresso é um filme tecnicamente muito complexo e tematicamente muito vazio.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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