O Último Anuário de Literatura Fantástica

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Anuário 2013
Capa: Teo Adorno

A maior parte das coisas nerd/geek a que temos acesso no Brasil são produzidas no exterior em esforços verdadeiramente industriais, a ponto de mesmo produções “independentes” ou de fundo de quintal contarem com mão-de-obra formada por grandes conglomerados do cinema, dos quadrinhos ou dos games.

Mas existe sempre aquela atividade que foge dessa lógica e que se constitui do trabalho miúdo do fã e amante de coração, pesquisador sem cátedra nem bolsa ou mesmo vinculação acadêmica, o especialista ou entendido escarafunchador mesmo e seus arquivos com centenas de recortes de jornal ou folhas impressas de sites e blogs.

Às vezes, esse entendido produz uma biografia de H. P. Lovecraft ou outro estudo relevante qualquer, como S. T. Joshi fez com A Vida de H. P. Lovecraft, o Grande Mestre do Horror, publicado no Brasil pela Hedra e com venda apropriadamente restrita para lhe dar um status cult, limitada à rede da Livraria Cultura.

É claro que eu me incluo nessa condição, mas felizmente não sou o único da variante brasileira espécie. A dupla Cesar Silva & Marcello Branco está no topo da categoria, com uma iniciativa metódica e minuciosa que completou em 2014 dez anos ininterruptos de pesquisa, análise, compreensão, memória e vigilância voltados para a ficção científica e fantasia no Brasil: o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

Os dois têm, claro, uma história anterior a esse projeto. Silva lançou em 1983 um dos primeiros fanzines da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982 a 2015), o Hiperespaço, coeditado por José Carlos Neves e Mário Dimov Mastrotti. Com Marcello, Renato Rosatti e outros, organizou convenções como a HorrorCon, em São Paulo, e tem sido muito ativo no campo dos fanzineiros e quadrinistas independentes.

Marcello Branco foi editor do também importante fanzine Megalon (1988), inicialmente coeditado com Rosatti. Também organizou as antologias Outras Copas, Outros Mundos (1997), de futebol e ficção científica, e Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (2010), esta última pela Devir. E com Silva, editou a revista HorrorShow, que teve meia dúzia de edições na década de 1990.

Iniciado em 2004, o Anuário da dupla inspirou-se na cobertura anual da revista americana Locus – The Magazine of the Science Fiction and Fantasy Field para traçar uma panorâmica do estado da arte e da indústria editorial brasileira de FC, fantasia e horror. Além disso, escolhia uma personalidade do ano, uma das raras honrarias do campo no Brasil; publicava resenhas de lançamentos selecionados, nacionais e estrangeiros; trazia um ensaio pertinente, por um autor convidado; e também traçava efemérides históricas em torno de livros, filmes, etc., além de resenhar obras significativas do passado da FC e fantasia nacionais.

Um trabalho exaustivo, minucioso, granulado, de lupa e caderneta na mão, único tanto para o fã e o pesquisador quanto para o profissional editorial ou ao escritor que desejasse se profissionalizar ou, pelo menos, atacar o mercado com algum conhecimento de causa. É claro que, Brasil sendo Brasil e a comunidade de ficção especulativa (termo que eu favoreço sobre o disseminado “literatura fantástica”) sendo o que é, aqui abaixo da Linha do Equador, o Anuário nunca alcançou o reconhecimento e a importância que merecia.

É verdade que, num contexto mais desenvolvido, um projeto como este contaria com um necessário especialista em conferência de dados, já que claramente a dupla brasileira não tem paciência de usar o Google para conferir dados como a grafia correta de nomes e títulos. Neste Anuário 2013, por exemplo, o nome do meio de M. Elizabeth Ginway aparece com “s” e com “z” em ocasiões diferentes – assim como Luiz Bras –, e minha antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (de 2007) foi rebatizada como Os Melhores da Ficção Científica Brasileira: Contos… E eles provavelmente teriam preparadores de tesoura na mão para podar seus frequentes excessos estilísticos. E já que estamos sonhando, receberiam o suficiente para ler os lançamentos de modo mais extensivo, como um projeto como este exigiria.

De qualquer modo, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2013 fecha o ciclo e encerra o projeto. Com 408 páginas e capa de Teo Adorno, é de uma ambição insana, editorialmente factível apenas por obra e graça do também singular espírito de frugalidade e desapego de Douglas Quinta Reis, da Devir Brasil. A edição combina o trabalho anual com uma avaliação inédita, e que você não vai encontrar em nenhum outro lugar, de uma década de desenvolvimento do mercado editorial voltado para FC e fantasia no Brasil. Década na qual tudo mudou – de cenário de caatinga para um de selva tropical, com a revolução trazida pelos sucessos de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis. Coincidentemente, período em que emerge a Terceira Onda da FC Brasileira – de modo que a avaliação feita por Branco é a única apreciação existente desse movimento.

Entre os lançamentos nacionais do período que Branco enxerga como destaque, estão os romances Quintessência (2004), de Fávio Medeiros Jr.; Labirinto Digital (2004), de Mário Kuperman; B9 (2011), de Simone Saueressig; Sozinho no Deserto Extremo (2012), de Luiz Bras; e O Alienado (2012), de Cirilo S. Lemos. Bras foi considerado o grande destaque do período. Branco assinala o seu livro de contos Paraíso Líquido (2010) como o livro mais importante dos dez anos analisados por ele, uma coletânea que se ombreia por seu experimentalismo literário com as notáveis do passado, A Espinha Dorsal da Memória (1989), de Braulio Tavares, e O Fruto Maduro da Civilização (1993), de Ivan Carlos Regina.

Nesta edição, ficou de fora a personalidade do ano e sua tradicional entrevista, e entrou no lugar um debate com editores e autores, sobre a década milagrosa, seus efeitos e suas deficiências, e o que virá. Eu estou lá, ao lado de Ademir Pascale, Adriano Fromer Piazzi (o editor da Aleph), Ana Cristina Rodrigues, André Vianco, Carlos Orsi, Claudio Brites, Georgette Silen, M. Elizabeth Ginway (brasilianista da University of Florida), e Richard Diegues (ex-editor da Tarja Editorial); e os autores premiados Braulio Tavares, Giulia Moon, Luiz Bras e Simone Saueressig. Recomendo, é claro.

Além disso tudo, o último Anuário faz um apanhado das principais resenhas (lançamentos contemporâneos e obras do passado) impressas em suas páginas, nestes dez anos. Isso o torna uma obra especialmente rica, uma caixa de joias sortidas, a síntese de uma década em 400 páginas ou menos. Se você não teve chance ou interesse em adquirir ou guardar os outros nove Anuários, com esta publicação tem a possibilidade de remediar o lapso e garantir uma obra de referência e de crítica ímpar no cenário brasileiro.

Findo este projeto, que certamente vai deixar saudades, Cesar Silva & Marcello Simão Branco estão livres e disponíveis para novas aventuras como eles prometem com o blog Almanaque de Arte Fantástica Brasileira, que também conta com colaborações de Renato Rosatti, sobre cinema.

–Roberto Causo

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2013: Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: Os Primeiros Dez Anos, Marcelo Simão Branco & Cesar Silva. São Paulo: Devir Livraria, Coleção Enciclopédia Galáctica, 2014, 408 páginas. Capa de Teo Adorno. ISSN: 977-2178-624005-13. Mais em http://www.devir.com.br

Atmosfera Rarefeita
Capa: Benson Chin

 

Para além de publicar cinco edições do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, a coleção Enciclopédia Galáctica, da Devir Brasil, publicou outros livros de não ficção bastante significativos, como o primeiro livro de ensaios acadêmicos da brasilianista M. Elizabeth Ginway (da University of Florida em Gainesville), Visão Alienígena: Ensaios Sobre Ficção Científica Brasileira (2010), e, principalmente, Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro (2013), do Prof. Alfredo Suppia (Unicamp). É um livro incrível para quem entender melhor a história e o lugar possível da ficção científica no cinema feito no Brasil, e o único existente, dentro desse assunto.

 

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