Os Oito Odiados – Um Fracasso Interessante

Os Oito Odiados (The Hateful Eight, EUA, 2015), que estréia no Brasil este dia 7 de janeiro, pode ser melhor descrito como um remake de um filme de terror e ficção científica de 1982 chamado O Enigma de Outro Mundo (The Thing, EUA, 1982) dirigido por John Carpenter. O grande problema é que O Enigma de Outro Mundo é um filme profundamente melhor.

Se você acha que eu perdi totalmente a cabeça, fique calmo. Eu prometo que faz sentido. No filme de 1982, cientistas na Antártida ficam presos dentro de suas instalações por causa de uma nevasca. Em Os Oito Odiados, oito supostos estranhos ficam presos dentro de uma cabana em decorrência de uma nevasca. Um dos protagonistas em O Enigma de Outro Mundo é um alienígena capaz de assumir a forma de qualquer criatura viva. Em Os Oito Odiados, um dos protagonistas também não é quem diz ser e estará disposto a matar todos para alcançar seu objetivo.

Violência aterradora, segredos e reviravoltas acontecem em ambos os filmes nos quais os protagonistas são presos por forças extenuantes da natureza e forçados a confrontarem seus maiores pesadelos. Ah, ambos os filmes são estrelados por Kurt Russell e possuem uma trilha sonora composta pelo maestro italiano Ennio Morriconne. Esses detalhes não são coincidência.

John “O Carrasco” Ruth (Kurt Russell) é um caçador de recompensas que está levando uma prisioneira chamada Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada na cidade de Red Rock. Uma nevasca está na cola deles pelas últimas horas e eles precisam encontrar abrigo. No meio do caminho, eles encontram um major negro chamado Marquis Warren (Samuel L. Jackson) que lutou na guerra civil norte-americana pelo lado da União (composta pelos estados do Norte); eles também resgatam um suposto xerife chamado Chris Mannix (Walton Coggins) que, por sua vez, lutou pelos Confederados (composto pelos estados do Sul) e os atritos começam por aí.

Eles encontram uma loja de miudezas onde se abrigam. Estão nela: um outro carrasco chamado Oswaldo Mobray (Tim Roth), um cowboy (Michael Madsen), um mexicano chamado Bob (Demián Bechir) que está cuidando da estalagem na ausência de seus proprietários e um general confederado chamado Sandy Smithers (Bruce Dern). O acaso parece ter levado esses homens e Daisy para aquela loja, mas a verdade é que todos estão lá por um motivo e John Ruth suspeita que esse motivo seja Daisy.

Falar mais sobre a trama de Os Oito Odiados é adentrar perigosamente em território de spoilers e ninguém quer isto neste site. O fato é que, como em qualquer filme de Quentin Tarantino, o espectador pode esperar muita violência, diálogos hilários, situações absurdas e reviravoltas estranhas desta história. Mas é fato também, que este não é um dos melhores trabalhos de Quentin Tarantino e é complicado apontar o dedo exatamente por quê.

O melhor personagem do filme é, obviamente Daisy, brilhantemente interpretada por Jennifer Jason-Leigh que deve ser uma das favoritas e vencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2016. A personagem feral, mas profundamente inteligente, esconde muito mais do que ela mostra, mas os motivos pelos quais ela está sendo presa são mantidos em segredo pela maior parte da trama que gira toda em torno dela. Não obstante, isso nem sempre gera a tensão pretendida por Tarantino por que Daisy sofre uma variedade tão grande de abusos físicos e verbais por parte dos personagens masculinos que, em um determinado momento, você não se importa mais por que ela foi presa: você quer que ela mate todos lá dentro.

Outro problema decorre das reviravoltas que são relativamente previsíveis e isso é um pecado imperdoável na filmografia de Tarantino.  Os Oito Odiados começa bem devagar, ganha velocidade lá pela metade onde ele fica jogando uma série de situações surpreendentes mas perde ímpeto conforme vai chegando ao final. Tarantino também tem dificuldade de estabelecer vínculos emocionais com seus personagens, exceto, talvez Daisy e quando estabelece algum, ele deixa claro que nenhum deles é confiável o suficiente para você sentir empatia. Eu entendo o argumento, mas o espectador deve acompanhá-los por quase três horas de filme e isso logo se torna uma faca de dois gumes.

O filme também foi filmado em “glorioso 70 mm”, uma película de projeção melhor e que é acessível somente em alguns cinemas (não sei se algum cinema no Brasil disponibiliza esse tipo de projeção) e com uma projeção de  2.76:1, que não é usada há quase 50 anos, desde o filme Khartoum de 1966. Por quê? Por que Tarantino queria criar uma experiência cinematográfica semelhante aos faroestes dos anos 1950 e 1960 com suas projeções ultra-largas que servem para salientar grandes paisagens e imagens panorâmicas. Não cenas que acontecem dentro de uma cabana.

Eu acho complicado que todo esse processo tenha sido usado em um filme que funciona de uma forma mais parecida com uma peça de teatro. O que também corresponde a uma mudança no estilo de Tarantino, embora suas marcas registradas continuem presentes. Isso não é necessariamente uma crítica, ok? Mas percebe-se que muitas potencialidades narrativas foram desperdiçadas por essa escolha.

Aliás, Tarantino é todo sobre desperdício. Muitos personagens, situações e potencialidades narrativas são jogadas fora no decorrer de Os Oito Odiados, isso por que Tarantino se sente numa obrigação quase religiosa de chocar o espectador e de ofendê-lo o máximo possível. Ele é conhecido por essa característica que está presente em seus maiores sucessos como Pulp Fiction, Bastardos Inglórios Django Livre. Às vezes, ele exagera tanto, que parece que ele está criativamente desesperado, sem saber mais o que fazer para chocar o ofender seu espectador.

Quentin Tarantino agora possui dois faroestes em sua bagagem. Este e Django Livre. Eu prefiro Django Livre, apesar dele também ser um filme com problemas. Me parece que Tarantino é um cineasta irregular que emplaca filmes excelentes com filmes não tão bons. Eu entendo a premissa de Os Oito Odiados como sendo muito boa, mas eu me pergunto o que ele está tentando dizer com este filme (se ele está tentando mesmo dizer alguma coisa). Parece que ele está tentando dizer alguma coisa sobre os Estados Unidos. O quê, permanece um mistério.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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