Pacotão Oscar 2014: Deu a lógica, por assim dizer…

Gravidade domina premiações, mas perde o prêmio de melhor filme para 12 Anos de Escravidão. Confira a minha análise sobre como foi a premiação, e o que as vitórias significaram.

Em uma premiação que envolveu a apresentadora Ellen DeGeneres pedindo pizza e distribuindo aos convidados da festa de gala mais vista do mundo; selfie  dos atores quebrando recordes no twitter e photobomb de Benedict Cumberbatch em cima do Bono, entre outras bizarrices, estava claro que a festa do Oscar só podia terminar mesmo em…. pizza.

GRAVITY

Gravidade, discutivelmente o melhor filme de 2013, venceu nada menos que SETE impressionantes Oscars, incluindo Melhor Diretor para Alfonso Cuarón, apenas para perder para 12 Anos de Escravidão. Bem, o que dizer em relação a isto? Em uma postagem anterior, neste mesmo site, discutimos que o filme sobre a vida de Solomon Northup, um homem livre que é sequestrado e vendido como escravo, era de fato o favorito para levar o prêmio. E ainda assim, em uma noite sem surpresas, a escolha óbvia da Academia pareceu ser o fato mais surpreendente da noite.

Com apenas três vitórias (Melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante) 12 Anos de Escravidão se distingue por ser o primeiro filme vencedor do Oscar a ter um diretor negro por trás das câmeras, mas também como um dos filmes que menos prêmios venceu em seu caminho para levar o Oscar de melhor filme. Isso o coloca do mesmo lado de Argo (que venceu ano passado), de Ben Afleck, um filme pouco surpreendente e Crash, que levou o prêmio em 2005, um filme ainda menos surpreendente.

Também confirma outra realidade: que a Academia julga quem será o vencedor do Oscar por seu capital político, e não necessariamente seu valor como obra de arte. Mas não que ele seja um filme ruim. Aliás, muito pelo contrário, 12 Anos de Escravidão é um filme fascinante, até incrível, honesto e cruel. Um filme, que alguns diriam, necessário. Mas mesmo assim, depois de grandes épicos como A Lista de Schindler, A Vida é Bela e O Pianista, o quanto a Academia premiará filmes por seu valor político?

12 Anos

Quantos filmes com essa temática já não foram vistos? E quantos filmes como Gravidade nós já vimos? Ou veremos? Há quem discorde. Há quem diga que 12 Anos de Escravidão é feito de uma argila mais crua e portanto mais resistente do que seu companheiro amparado pela mais alta tecnologia. Quanto ao legado que cada um deles deixará para o futuro, só o tempo dirá. Gosto de pensar, no entanto, que os astronautas à deriva no espaço, durarão mais tempo do que o drama histórico que foi coroado como o melhor filme da noite.

Frozen

Para dar 7 prêmios à Gravidade, mas tirá-lo o mais importante, é algo difícil de entender. Pode-se dizer, portanto, que Cuarón levando Melhor Diretor foi a maior surpresa da noite. Confirma também a tendência da Academia de dividir os prêmios de diretor e filme, coisa que era rara até então. Se a Academia pensou ser ousada em dar o prêmio de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón, ela estava enganada. Até hoje, nenhum filme de ficção científica levou para casa a cobiçada estatueta. Uma lista que inclui Star Wars e 2001: Uma Odisseia no Espaço, duas obras primas. Dos três, Gravidade foi quem chegou mais perto.

Não foi somente a categoria de melhor filme que sofreu com a falta de ousadia dos membros da Academia. Não houveram surpresas nas premiações para os atores e atrizes, nem nos roteiros, original e adaptado, muito menos nas categorias técnicas, onde Gravidade era o favorito disparado. Nem sequer na escolha do melhor documentário. A Um Passo do Estrelato, que conta a história de cantoras backup levou a melhor sobre O Ato de Matar, o perturbador documentário sobre esquadrões da morte na Tailândia. E o grande mestre da animação, Hayao Miyazaki perdeu o prêmio de melhor animação, no que provavelmente será seu último longa-metragem, Vidas ao Vento, para o bonitinho Frozen: Uma Aventura Congelante, da Disney.

Nas demSelfie dos Oscarais provas, houve pouca contestação. Ainda coloco a mão no fogo para O Grande Gatsby, uma adaptação cafona de um romance lindo. Mas tudo bem. Faz ano após ano que assisto ao Oscar com a esperança de ver algo verdadeiramente ousado acontecer. Não acontece. A Academia é retrógrada, antiquada, e há quem diga, mesquinha. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei levando 11 prêmios em 2004, o coloca como o único filme de fantasia da história a levar o prêmio de Melhor Filme. Por que não dar para A Vida de Pi, ano passado então? Provavelmente seria pedir demais.

Benedict Photobomb

Bom, virão aqueles que discordarão que Gravidade é realmente tudo isso. Dirão que é um festival de efeitos visuais. Não discordo, mas acredito que nunca mais veremos algo semelhante nas telas de um cinema, e, quando vermos, será daqui a muitos anos. São esses os filmes que devem ser guardados como lendários, que devem resistir aos testes do tempo, que devem ser premiados. Esses são os filmes que desafiam o ato de fazer cinema. Que aspiram mais. São filmes feitos de sonho, e que nos permitem sonhar com eles. Ainda persigo o sonho de ver um filme de viagem espacial vencer o prêmio de Melhor Filme. Quem sabe, estarei destinado a dirigir tal obra. Improvável. Improvável também que algum vença no futuro. Mas não custa sonhar.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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